Acelerando os Motores.





Era complicado ser a única garota em uma classe dominada por homens fanáticos por motores, mas eu não queria desistir. Eu já estava me acostumando às piadinhas sobre as unhas sujas ou as ameaças sobre o cheiro da graxa ficar entranhado nos meus poros. Os rapazes diziam que nenhum homem chegaria perto de mim e os mais velhos que faziam parte da turma apenas riam. A única pessoa que parecia entender era a secretária e atendente do local do curso, mas ela sequer trocava uma lâmpada, então nem contava. Eu era uma garota determinada e curiosa por natureza e me lembro até hoje de como a paixão pelo ronco de um motor surgiu.
– Vamos lá! Pisa no freio agora. – Meu pai me pediu e eu apertei. – Isso! Está bom. As lâmpadas estão acendendo normalmente.
– Podemos seguir viagem? – Minha mãe perguntou. Já estávamos há mais de meia hora parados na beira da estrada.
– Vamos. Acho que foi uma falha na parte elétrica porque tudo parece ter voltado ao normal.
                Seguimos viagem, mas foi só chegar à casa dos meus tios que o carro parou de novo. Um mecânico foi chamado e o homem ficou mais de uma hora olhando o motor. Eu fiquei sentada na varanda lateral da casa só vendo e esperando o que aconteceria quando o carro voltasse a funcionar até que o motor rugiu alto. Foi um som incrível, me encantou de tal forma que não consegui ficar parada e pedi para o mecânico me dizer tudo o que ele tinha feito. Eu tinha apenas 8 anos de idade e isso nunca mais saiu da minha cabeça.
                Comecei a me interessar realmente por volta dos 12 anos de idade. Eu pedia aos meus pais para comprar revistas sobre automobilismo nas bancas de jornal ao invés de gibis e revista de moda. Não era fácil, eles normalmente me negavam e eu precisava buscar outros meios de suprir essa necessidade de informação. Eu economizava como podia, até ficava sem lanchar na escola para poder comprar alguns exemplares, mas o que me fascinava mesmo eram os livros de mecânica que eu encontrei na biblioteca da escola. Alguém os havia largado no meio dos livros de inglês e eu dei sorte de encontra-los. Quando chegou a hora de decidir a minha carreira e optei por mecânica no segundo grau meus pais quase enfartaram, mas não puderam me negar. Eu já tinha demonstrado várias vezes qual era a minha inclinação e não faria aquela escola que formava professoras de forma alguma, isso não era discutível. Eu não era uma filha que arrumava confusão e nem discutia com eles por qualquer bobagem, mas quando o assunto eram motores e carros, ninguém me fazia mudar de opinião. Eu praticava os esportes que eles me inscreviam, ia ao salão cuidar das unhas e cabelos e até paquerava os meninos da escola, mas quando eu chegava em casa era para as redes sociais que eu ia.
Eu tinha um perfil onde os amigos só falavam sobre mecânica de automóveis e não me discriminavam por ser uma garota. Lá eu encontrava outras meninas que também curtiam as mesmas coisas e trocávamos ideias. Poucas realmente sabiam alguma coisa e muitas vezes eu ensinava, uma pena que nenhuma delas era da minha cidade. O meu melhor amigo era o PBFRun, um rapaz de São Paulo que simplesmente amava a velocidade e os motores. Passávamos horas e mais horas conversando. A nossa amizade começou de forma complexa após quase 2 horas em uma discussão ferrenha sobre motores carburados e injeção eletrônica. A situação ficou tão complexa que virou um dos assuntos mais comentados na rede. Cada um tinha seu mini fã clube virtual, e no final acabamos vendo que tínhamos a mesma visão sobre o assunto, apenas nos expressávamos de forma diferente. Foi engraçado chegar a essa conclusão depois de muitos “eu já tinha dito isso.”. Foram meses trocando mensagens até ele me dizer em um chat particular que seu nome era Fabrício, mas pediu para não espalhar. Não entendi o motivo, mas nem esquentei. Só contei meu nome nesse dia também, até lá ele me conhecia apenas como GirlRunner, depois contei que eu era Sabrina. Claro que ele me chamou de Pantera por causa de um seriado de garotas espiãs, mas eu já estava acostumada. Toda vez que eu me apresentava a alguma pessoa a piadinha vinha a seguir. Nem sempre me irritava, mas o PBFRun sabia como me tirar do sério e nesses momentos eu virava a Pantera. Ele só parava quando eu o mandava à merda e dizia que iria desconectar. Nessa altura eu já tinha 15 anos, estava fazendo o meu segundo ano em mecânica na escola e ele tinha 18. Nos falávamos quase todos os dias, infelizmente, nos finais de semana que eu tinha mais tempo, ele sumia. Eu tinha certeza de que ele tinha uma namorada apesar de nunca ter visto troca de mensagem, mas ele negava. Para mim não fazia diferença, ele era meu amigo e a minha paixão era um corredor de kart que eu acompanhava pela TV e na internet com o meu perfil pessoal. Acho que esse era o único motivo dos meus pais não acharem que eu era gay.
Eu tinha artigos e fotos desse corredor para todos os cantos do meu quarto, eu era simplesmente apaixonada por ele. O rapaz, além de lindo de morrer, corria naqueles carros incríveis, tinha uma equipe de matar e ainda por cima era brasileiro. A esperança de algum dia poder ir a uma corrida dele me mantinha com a paixão acessa e o corpo fervendo nos dias de corrida transmitidas pela TV.
Tive alguns namorados, mas nada muito forte, nada que me fizesse ficar acordada ou derramar uma lágrima quando terminava. O meu ciclo social foi se fechando com o passar dos anos, principalmente quando eu fiz 17, me formei e recebi a proposta de emprego em uma autorizada de carros importados. Eu estava fazendo estágio e fui convidada ao ficar mesmo antes de terminar o meu curso. Os meus pais me autorizaram a fazer os cursos necessários para me especializar nos modelos e estes eram na fábrica em São Paulo. Claro que a minha mãe me acompanhou, ela nunca me deixaria ir sozinha, mas não houve problemas. Na fábrica eu fui muito bem acolhida e recebi o diploma de honra pela primeira colocação depois de ter feito todos os cursos disponíveis. Eles tinham os melhores equipamentos, mas nada era melhor que o ouvido para perceber onde estava o defeito sem nem sujar as mãos de graxa. Pelo visto eu tinha uma ótima audição e me dava essa vantagem. Era engraçado saber tanto de carro e ainda nem ter carteira de motorista, mas essa era a minha realidade.
O PBFRun me pediu para encontra-lo em São Paulo enquanto eu estava fazendo o curso, mas não foi possível. Apesar de eu ter acabado de fazer 18 anos 1 dias antes do curso, ter emprego e responsabilidade, de conhecê-lo pela internet há mais de 3 anos, a minha mãe teve um ataque. Ela ficou falando que ele poderia ser um assediador, um tarado e até mesmo um velho que se passava por um rapaz. Ela ligou para o meu pai e fez o maior terror acabando de vez com as minhas chances de conhecer o meu amigo. Foi vergonhoso falar com ele que eu não poderia ir e naquele momento ele me revelou que conhecia um pessoal de uma escuderia de kart e o nosso encontro seria em uma corrida. Nem preciso falar que eu me desesperei e chorei uma noite inteira. Era a chance de eu chegar perto da minha paixão. Eu teria um passe para os boxes, teria chance de chegar perto e respirar o mesmo ar que ele, mas os meus pais não me permitiram. Por causa disso eu fiquei 1 mês sem falar com o PBFRun na internet, me deprimia. Ele mandava mensagens privadas e eu via no meu e-mail, me pedia para dar notícias, mas eu precisava de um tempo. Mergulhei no meu trabalho na autorizada e segui em frente. Ele entendeu depois que voltamos a nos falar, mas me pediu para não sumir mais. Estranhei quando ele disse que não conseguia trabalhar e ficava checando as redes sociais a cada minuto. Me culpou por quase ter perdido um cliente e acabamos discutindo. Aliás, discutíamos muito, mas eu gostava dele.

PBFRum: Sabe o que nunca fizemos?
GirlRunner: O que? rrsrsrs
PBFRum: Trocamos celular. Vai... Me dá seu número que te ligo.
GirlRunner: É interurbano, idiota! Tá doido?
PBFRum: E daí? Anda, garota chata. Me dá teu número logo e deixa de marra.
GirlRunner: Marra? Está me imitando ou arrumou uma namoradinha marrenta? Rsrsrs
PBFRum: Te imitando mesmo, marrenta. Anda logo. Para de enrolar, Pantera.
GirlRunner: Tá querendo me irritar? Tá conseguindo. E tem mais, estou no meu trabalho.
PBFRum: alá! Tá no trabalho e na internet? Vai ser mandada embora.
GirlRunner: Me garanto, vlw! :-P
PBFRum: Marrentinha! Pantera marrenta.
GirlRunner: Tchau!
PBFRum: Não! Vai... Manda o ter número, Sabrina. Qual é! Nos conhecemos por aqui há anos. Todo mundo troca número com meses de amizade, só a gente que não. Seus pais não te controlam mais! Vamos lá...
GirlRunner: Anota aí, cara chato. 

Eu acabei cedendo e dei o meu celular para ele. Fiquei meio ansiosa, mas pedi a ele para me ligar só de noite porque o meu tempo de descanso tinha terminado e eu não queria ser chamada atenção. Tinham 4 carros esperando e eu precisava atender. Nós tínhamos um prazo a cumprir e os clientes estavam acostumados comigo. Depois do choque inicial de ver uma mulher debaixo do carro deles ou abrindo o motor, os homens deram uma relaxada. As piadinhas sempre vinham, mas eu deixava passar. Os convites para sair eram raros, mas apareciam. Eles se espantavam quando me viam sair do meu expediente vestida como uma mulher comum e não uma mecânica. As minhas mãos estavam sempre limpas, perfumadas e macias, mesmo à base de muitos cremes. Quem me via na rua não fazia ideia de que passava parte do meu dia debruçada sobre motores.
Eu estava bem ansiosa para chegar logo em casa e receber a ligação do Fabrício, mas parecia que o mundo conspirava contra. O ônibus que eu peguei quebrou e tive que esperar o outro. Ele me mandou mensagem perguntando se poderia ligar e eu tive que adiar mais uma hora. Ficamos trocando mensagem pelo celular mesmo até eu chegar em casa. Os meus pais estavam jantando quando entrei, mas nem comi, entrei no banho e fui para o meu quarto. Eles já nem reclamavam mais, era caso perdido me fazer seguir as suas regras depois do acontecido em São Paulo quase uma ano antes. Eu realmente me aborreci e resolvi tomar as rédeas da minha vida. Meu planos eram sair de casa o mais rápido possível e viver a minha vida, mas antes eu precisava estar mais firme financeiramente e enquanto eu não sentisse isso ia aguentando. Eu os amava muito, mas não tolerava essa intromissão na minha vida. Eu era uma mulher adulta, não uma adolescente irresponsável. Eu pegava serviços extras em outras oficinas nos finais de semana e ainda fazia outros em casa nos feriados. Trabalhava como uma condenada para me impor na profissão. Fiz curso de outras marcas, dos modelos mais novos, de tudo que eu podia e não fraquejava, merecia um crédito mesmo tendo menos de 20 anos.
– Alô. – Disse quando vi um número desconhecido me ligando por volta das nove da noite.
– Pantera? – Ele disse e me fez rir.
– Quer que eu desligue agora, idiota? – Disse rindo e o fazendo rir também.
– Eu sabia que você saberia que era eu.
– Quem mais me irrita assim?
– Só eu, Pantera... Só eu. – Ele suspirou. – Que bom poder te ouvir.
– Legal também.
– Você chega sempre essa hora em casa? – Ele me questionou
– Não. O ônibus quebrou hoje. Um saco. Assim que der vou me mudar daqui e ir mais para perto do meu trabalho.
– É longe?
– Um pouco, mas eu gosto de lá. Já tenho o meu espaço e faço meu nome. Meu sonho é ter a minha oficina, mas por enquanto tenho que seguir por lá. Mas me fale de você.
– Tudo bem. O dia foi cheio hoje, estou mortão. – Ele resmungou e bocejou.
– Poxa... Vai descansar então. – Lamentei, mas não ia fazer o meu amigo ficar que nem zumbi no dia seguinte. – Sei que em São Paulo vocês trabalham muito mais que aqui... Ou pelo menos ficam dizendo isso e nos chamando de preguiçosos.  
– Não estou em São Paulo. Na verdade, estou fora do Brasil.
– Como é? – Arfei.
– Ih...
– Você está fazendo DDI para o meu celular, idiota! É doido? Você bebeu, Fabrício?
– É a primeira vez que você diz meu nome.    
– É sim e para te xingar! Vou desligar.
– Não!
– Você está gastando uma fortuna, doido.
– Vale a pena, garota chata. Cala boca e deixa de bobagem, porra!
– Não fala palavrão para mim, heim! Te avisei.
– Desculpa, mas você me deixa doido, Pantera. Garota marrenta.
– Se vai ficar me xingando, vou desligar.
– Ih... Desculpa, ok? Meu... Você é muito braba.
– Meu... – Debochei e ele riu.
– Eu sabia que você era desse jeito mesmo, não fazia tipo na internet.
– Não minto. Sou lá e aqui a mesma pessoa.
– E quando a gente vai se ver pessoalmente?
– Olha... Eu sei nadar, mas não dá para atravessar o Atlântico. – Brinquei e ele riu mais ainda. – Quando você volta?
– Em um mês estou de volta. Estou viajando a trabalho, mas doido para voltar para casa. Não me acostumo com essa comida diferente aqui em Paris.
– Deve ser muito legal viajar.
                Ficamos conversando por mais de uma hora. Ele era muito divertido e inteligente. Ficamos conversando sobre tudo, mas principalmente de carros. Quase surtei quando ele me disse que estava com o pessoal do kart e que eles estariam correndo no Rio de Janeiro esse ano, que poderíamos nos encontrar na corrida. Tive que me controlar e não parecer mais estranha do que já parecia. Ninguém além dos meus pais e umas poucas amigas sabiam da minha paixão. O Fabrício saber seria mais um me sacaneando, ainda mais se ele tinha contato com esse mundo do kart e das corridas. O meu corredor favorito tinha mudado de categoria, mas esta corria junto com o kart, no mesmo dia, então era possível deles se conhecerem e eu virar piadinha de box.
– Estou mortinho, Pantera. Vou apagar aqui e te deixar falando. – Ele disse e bocejou de novo.
– Vai dormir então. – Disse rindo.
– Te ligo amanhã, pode ser?
– Não... Você vai à falência. A gente fica na troca de mensagens mesmo.
– Esse era meu medo. Você não gostou de falar comigo e está me dispensando.
– Nada a ver, Fabrício.
– Sério?
– Claro, idiota. Não mudou nada.
– Ok. Vou lá então e depois nos falamos.
– Ok. – Concordei e ia desligar quando ele me chamou.
– Ah... Pantera?
– Fala... – Resmunguei.
– Eu ligarei o quanto e quando eu quiser, estando no Brasil ou não e você vai me atender, ouviu?
– Ih...
– Estou falando sério, Sabrina. Se te ligo é porque eu posso, senão eu não ligava. Já nos conhecemos há muito tempo e gosto de conversar contigo. Deixa de besteira, ok?
– Ok.
– Boa noite, Pantera. – Ele disse rindo.
– Boa noite. 
Eu adorei ficar aquele tempo todo com ele no celular, mas foi só desligar que a minha barriga roncou e vi um prato sobre a minha escrivaninha. A minha mãe deve ter entrado e nem reparei. Eles já estavam dormindo quando fui esquentar o jantar no micro-ondas, acordavam cedo como eu.
Os dois eram professores em uma Universidade Federal e em outras particulares durante a semana, então tinham que chegar bem cedo todos os dias. Eu era da madrugada e só ia dormir depois da uma da manhã, mas acordava as 6 sem me abater. O vício da internet mudou meu hábito de sono há anos. Os dois reclamavam que eu deveria fazer uma faculdade e mudar de ramo, mas eu dizia que se fosse para fazer faculdade seria de engenharia mecânica e isso sempre dava confusão, mas eu estava pensando seriamente em fazer mesmo.
O Fabrício me mandou várias mensagens de texto na manhã seguinte e até fotos dos locais por onde ele passava. Como estávamos mais íntimos, ele me mandava também as fotos dos motores dos carros, coisa que nunca fez. Em uma das mensagens me disse que há tempo queria me contar com o que ele trabalhava, mas não tinha coragem. O receio de eu não ser realmente a Sabrina o deixava inseguro, mas eu nem me preocupei. Foi engraçado ler que eu era a única pessoa que o chamava de idiota e ele não ligava. O Fabrício sabia que era de brincadeira e que eu gostava muito dele, mas apenas como amiga, ou era o que eu pensava.
Naquele mês, perdi as contas de quantas vezes e horas ficamos ao telefone. Eram trocas de mensagens no celular e na internet, ligações e e-mails o tempo todo. Falávamos de tudo e até um pouco da vida pessoal, mas nunca trocamos fotos ou nos vimos pela câmera. Estranhei quando ele me perguntou se eu não tinha namorado, mais ainda quando percebi um alívio da parte dele quando contei que não tinha, mas não comentei. Era bobagem achar que ele estaria interessado em algo além da minha amizade de anos.
– Desembarquei, Pantera. Estamos no mesmo continente. – O Fabrício me disse assim que atendi numa terça feira.
– Seja bem vindo. – Brinquei apoiando o celular no meu ombro enquanto dava um torque na caixa do motor de um carro.
– Está ocupada?
– Alguém tem que trabalhar, não é? Não sou magnata que fica passeando pela Europa. – Brinquei e ele riu.
– O que você está fazendo?
– Fechando um motor.
Acabei conversando com ele sobre o que eu estava fazendo e quando terminei coloquei o motor para roncar para ele ouvir. O danado era tão bom que ouviu uma folga na correia do ar condicionado assim que liguei.
– Quero ser que nem você quando crescer. – Brinquei o fazendo rir.
– Você sabia, não é?
– Claro que sabia! Essa correia é a antiga, ainda vou fazer o resto da revisão e mandar para frente. Mas me conta, como foi o voo? 
Ele não demorou naquela ligação, mas compensou de noite. Fiquei feliz em saber que ele estaria no Rio de Janeiro na quinta, mas o nosso encontro ficou confirmado para o sábado a tarde. Cada vez mais o Fabrício estava fazendo parte do meu dia. Eu já ficava ansiosa pelas suas ligações e mensagens, sentia falta se não recebesse pelo menos um torpedo por hora.  
Os meus colegas de trabalho notaram que eu ficava no celular mais que o normal e ainda ouviram uma das conversas em que eu dizia ao Fabrício que esperava a sua ligação.
– De namorado, Sabrina? – José Carlos me perguntou quando eu desliguei.
– Não... Um amigo. – Comentei e peguei a chave de roda para forçar uma peça a sair da base do motor.
– Tenho te visto muito no celular durante o trabalho e até quando está saindo. Tem certeza que não é um namorado? Ou será uma namorada? – Ele perguntou rindo e o humor contagiou outros homens em volta. Aquilo me irritou.
– Ele é realmente um amigo e você não tem nada com isso. – Avisei semicerrando os meus olhos e me virei. Fiquei jogando a chave roda que estava na minha mão para cima e para baixo enquanto o encarava e fitava os outros em volta.
– É só brincadeira, garota. Não precisa se irritar.
– Eu não estou irritada, estou apenas observando um monte de caras galinhas que não dão conta de uma mulher por 2 dias. – Disse e eles me encararam acabando logo com o humor e os risinhos. – Não sou surda e nem idiota. Não sou vagabunda e nem lésbica. Sou uma mulher que sabe o que quer e quem quer. O dia em que um homem valer o meu tempo aviso a vocês, ok?
– Deixem a minha melhor mecânica em paz. – O dono da autorizada chegou para acabar com o papo. – Não quero confusão com ela, ouviram?
– Melhor mecânica? – Alair resmungou cruzando os braços e voltei para o meu trabalho, não queria me envolver mais uma vez naquela discussão. – Estou aqui há quase 5 anos, valeu! Ela chegou tem pouco tempo e não sabe a metade do que eu sei.
– Cala a boca, Alair. Ela é muito boa no que faz e você sabe muito bem disso. Se não fosse por ela eu teria perdido mais de cinco mil na semana passada. Você quase fundiu o motor do importado!
– Até parece! Eu estava com tudo sob controle!
– Você esqueceu a junta! – Resmunguei ao me virar.
– Não ia fundir!
– Claro que ia! Erro de principiante! – Avisei apontando a chave de fenda para ele.  
– Cala boca, novata! – Ele gritou me olhando feio.
– Vem calar! – Provoquei. – Não tenho medo de homem nenhum. Vem calar.
– Calma, Sabrina. – O dono da autorizada me pediu.
– Estou cansada de ficar sendo rebaixada aqui por ser mulher. Se não estão satisfeitos com o meu trabalho ou a minha presença, falem logo! – Ordenei encarando todo mundo. – O que não falta é convite de outras autorizadas. Não preciso ficar em um local que não sou bem quista!
– Não exagera, dramática. – Um dos mecânicos ironizou.
– Exagera? Dramática? Acha que não escuto as piadinhas? Acham que não sei que vocês me chamam de um monte de coisas pelas costas? – Resmunguei com um nó na garganta, mas segurei as minhas lágrimas.
                O silêncio imperou na oficina e eu voltei para o meu trabalho. Naquele momento eu resolvi mudar o rumo da minha vida. Para ter a minha própria oficina eu precisava de dinheiro e conhecimento de outras marcas. A faculdade também entrou nos meus planos, para isso eu teria que estudar. A minha cabeça estava trabalhando a mil quando o dono da autorizada se aproximou.
– Relaxa, Sabrina.
– Não dá. Estou de saco cheio, mas deixa pra lá. – Resmunguei enquanto abria a caixa de marcha de um carro que estava na espera.
– Você não vai me deixar na mão aqui, não é?
– Não... Por enquanto eu estou na equipe.
– Por enquanto?
– É.
– Merda...
– É... Merda. – Resmunguei com raiva. – Sabe aquele curso na fábrica que você postou no mural? Já tem candidatos?
– Os caras estão brigando pela vaga, por quê? Está querendo ir?
– Quais os pré-requisitos? E quem escolhe?
– Eu preciso mandar a lista para a Matriz na Alemanha e eles que escolhem, não eu.
– Coloca o meu nome. – Pedi.
– Seus pais...
– Meus pais não tem nada com isso. – Avisei o cortando. – Quem decide a minha vida sou eu e quero fazer esse curso se a Matriz autorizar e você me liberar.
– Vou colocar seu nome. – Ele disse e se afastou quando percebeu que eu estava para poucos amigos.
                Era sempre a mesma coisa e eu estava cansada dessa discriminação. A raiva aumentava a cada minuto e precisei dar um tempo. Avisei no escritório que ia tomar um café na padaria perto e não demoraria. Foi só o tempo de lavar as mãos e os braços, o rosto e pegar a minha carteira para dar uma volta, sequer tirei o meu macacão. Os caras faziam isso o tempo todo, eu também tinha direito. Nem liguei para os olhares na minha direção enquanto eu passava, nem as piadinhas ou as indiretas, apenas entrei na padaria, comprei o meu café e me sentei na mesinha mais longe da porta. Eu estava perdida nos meus pensamentos quando o celular vibrou.
– Alô. – Disse quando atendi sem nem ver quem era.
– Pantera? – O Fabrício perguntou.
– Ah.... Oi.
– Tudo bem? Que voz é essa? – Ele questionou.
– Nada...
– Ih...
– Só uma dor de cabeça.
– Essa dor de cabeça tem nome?
– Tem vários nomes, mas deixa pra lá.
– Vários? Você tem vários namorados? Você sai com vários caras? – Ele questionou levantando a voz.
– Vai à merda, Fabrício! – Resmunguei. – São os caras da oficina que me enchem o saco, mas isso vai acabar logo.
– Você vai desistir do que gosta por causa de um bando de manés?
– Não... Só vou mudar o rumo da minha vida e logo.
– Quer conversar?
– Não... Preciso pensar, só isso. Dei um tempo de lá e vim tomar um café. Eu precisava respirar antes que descesse a chave de roda na cabeça de um.
– A coisa foi feia.
– Foi. Estou cansada de ser discriminada, Fabrício. – Resmunguei e uma lágrima caiu na mesa.
– Porra! Você está chorando? – Ele me questionou irritado quando percebeu. – Você não chora, Pantera! O que eles te disseram?
– Não quero falar nisso, ok? Me fala de você. Está trabalhando muito.
– Não muda de assunto, porra! Onde você está? Estou no Rio e vou te encontrar agora! Vou dar umas porradas no cara que te fez chorar, merda!
– Você está no Rio?
– Acabei de desembarcar.
– A gente se vê no sábado, ok? Não se preocupa que estou com tudo sob controle.
– Estou vendo.
– É sério. Foi só... Um momento.
– Tem certeza?
– Não é a primeira vez e nem a última que um homem questiona o meu potencial. Isso veio junto com a escolha de uma profissão dominada por homens brutos e machistas.
– Nem todos são assim.
– Você é uma exceção. – Garanti com humor.
                Depois daquilo a conversa ficou mais leve, mas não estendi demais, precisava voltar para a oficina. Quando cheguei o clima estava mais calmo e até o Alair se chegou para me pedir desculpa. Não sei se foi a mando do chefe ou não, apenas ouvi e apertamos as mãos. Não adiantava de nada ficar de mau humor já que eu precisava deles muitas vezes. Apesar de todo equipamento, a força era algo imprescindível na profissão. Algumas peças eram pesadas ou duras para remover e eu ainda não tinha uma estrutura física para isso. O meu corpo era firme, eu era mais forte que muitas mulheres, mas não que muitos homens e isso fazia diferença em alguns momentos. 
                A primeira coisa que fiz quando cheguei em casa foi acessar a internet e procurar informações sobre vestibular para engenharia mecânica nas faculdades públicas. Eu precisava traçar uma meta e talvez começaria a estudar, tudo dependia do cruzamento das informações. O vestibular daquele ano tinha acabado de acontecer, então eu teria tempo de estudar para o próximo, mas o que fazer até lá? Eu não poderia largar o meu emprego e ficar fazendo cursinho nas costas dos meus pais. Eu não poderia abrir a minha oficina sem dinheiro para as ferramentas e os elevadores. Ainda teria que aprender a trabalhar com todas as marcas para não ficar presa a apenas uma, isso me levaria à falência. Era muita coisa para pensar.
                Os próximos dias foram normais, dentro da minha normalidade. Eu trabalhei muito, entreguei todos os carros antes do final do expediente da sexta e ainda ajudei os que estavam enrolados com os seus. Nessas horas eles não reclamavam da minha presença e a vontade de jogar na cara deles era enorme. Meus pais notaram que algo tinha acontecido, mas não me perguntavam nada. O Fabrício tentava me animar e até conseguia um pouco enquanto conversávamos. Quase não ficávamos mais na internet depois de ter dado o meu número para ele. Como eu não tinha amigas, era com ele no telefone ou na internet que eu ficava. 
Eu estava ansiosa pela divulgação de quem tinha conseguido o curso na fábrica de São Paulo, me ajudaria muito profissionalmente e financeiramente. O chefe estava aguardando as notícias e essas pareciam que não viriam nunca. Além de mim, apenas mais dois mecânicos tinham colocado o nome para esse curso.    
– Chegou o e-mail da Matriz. – O dono da autorizada disse quando estávamos guardando as ferramentas e os mecânicos estavam conversando entre eles sobre um pagode no domingo em que eu novamente não fui convidada.
– E aí? – O Alair perguntou e cutucou um colega que tinha colocado o nome.
– Sabrina conseguiu. – Ele disse e suprimi o meu sorriso.
– Merda! – O mecânico que estava concorrendo a vaga resmungou. – Foi por causa do rolo do início da semana, não foi? Você está querendo garantir a presença dela aqui?
– Tá falando merda! – O dono avisou.
– Está querendo traçar outra funcionária? – O mecânico questionou com deboche me alertando.
– Você está despedido! – O dono gritou apontando para a rua. – Eu respeito todas as minhas funcionárias, idiota! Ela conseguiu porque o monitor do curso vem da Alemanha e ela sabe o inglês, imbecil! Não era minha escolha! Eu não interferi em nada! Somos uma autorizada da fábrica e todos têm ficha na fábrica com seus dados completos. Isso aqui é uma franquia que responde a Matriz e tenho que seguir as regras ao contrário de você, babaca! Recolha as suas coisas e passe segunda para acertar as suas contas.
– Porra! – O mecânico resmungou vermelho de raiva e começou a juntar as suas coisas.
– O curso começa em 45 dias. – O dono me avisou ao se aproximar. – Você precisa preencher a ficha que vou te enviar por e-mail e me devolver até segunda de manhã. Eles vão mandar passagem e pagar as diárias e estadia para você, somente. Como você disse que agora está por conta própria, não coloquei acompanhante. Acho que eles também não aceitariam já que você é de maior. Espero que você aproveite o curso e volte para dividir as informações conosco.
– Claro. – Garanti.
– Você... Er... Não acreditou no que...
– Claro que não! – Garanti o cortando. – Fica tranquilo. Ele só estava puto porque não conseguiu a vaga.
– E acabou perdendo o emprego também. Se a minha mulher ouve aquilo me coloca para fora da cama. – Ele resmungou passando a mão pelo cabelo. – Bom final de semana, Sabrina.
                A primeira coisa que fiz assim que entrei no ônibus foi mandar uma mensagem para o Fabrício contando a novidade. Ele não me respondeu na hora, imaginei que ele poderia estar ocupado. Os meus pais ficaram preocupados com a notícia, mas me deram parabéns. A minha mãe veio cheia de recomendações quando entrei no quarto, mas não reclamou muito. Riu quando eu disse que ainda faltava mais de 1 mês.
                Assim que amanheceu, recebi uma mensagem do Fabrício me parabenizando e me avisando que no meu e-mail tinha todas as informações para nos encontrarmos. Surtei quando vi que teria acesso aos boxes e aquilo alertou os meus pais.
– Você não vai se encontrar com um rapaz da internet, Sabrina! – Minha mãe resmungou.
– Mãe! Ele é super legal. Nos falamos há anos! – Garanti.
– Mas você não o conhece!
– Eu estarei em um lugar público, mãe. Não sou criança e vou! Ele está me dando a oportunidade de estar perto de super máquinas, mãe! Vou ouvir o ronco dos motores bem de perto. É meu sonho! Por favor, não fica preocupada. – Pedi.
– Sei que você é adulta e responsável, mas não tem experiência no mundo real, filha. Você não tem amigas para sair. Não tem namorado. Não vai ao cinema e nem ao shopping se não for para comprar algo e voltar para casa. Você...
– Eu trabalho, ando de ônibus sozinha, me cuido muito bem, mãe. – Resmunguei chateada. – E tem mais. Na viagem vou sozinha. Eles não aceitariam acompanhante e eu nem pedi. Chega de ficar me segurando, mãe. Me deixa cometer meus erros e acertos.
– Só me preocupo, filha. – Ela resmungou e se sentou ao meu lado. Ela pegou a minha mão e acariciou as minhas unhas. – Como você consegue mantê-las limpas depois de passar o dia no meio da graxa?
– Muito sabonete e uma escova de matar. – Brinquei a fazendo rir. – Nem tenho cutículas, mas elas ficam limpas e cheirosas com tanto creme que uso. Cheira.
– Gostei.
– É importado. Compro em uma importadora lá perto. Uma vez fiz uma busca na internet e não encontrei nada, então uma garota do site onde converso comentou que usava. É caro, mas vale a pela. Não saio da oficina cheirando a querosene e nem a graxa.
– Filha... Você está gostando desse rapaz que você vai encontrar? – Ela murmurou.
– Ele é muito legal e inteligente. Nós conversamos sobre tudo. Motores, novidades, a vida, mas nunca surgiu nada mais íntimo. O Fabrício se preocupa comigo como amigo e me dá a maior força
– Amanhã você vai encontrá-lo nessa corrida. Ele sabe sobre a sua paixão pelo corredor? Como é o nome dele?
– Portman. Brian Portman. – Contei suspirando. – E ele não sabe. Ninguém sabe além da Senhora. As meninas da escola desconfiavam.
– E você tem esperança de vê-lo amanhã, certo?
– Certo. – Confessei. – Mas também quero muito ver o Fabrício. Ele me explicou que vamos poder passear pelos boxes e até disse que me mostraria um dos carros abertos. Estou super ansiosa, mãe. Imagina só... Ver aqueles carros de perto!
– Você realmente gosta disso, não é?
– Eu adoro, mãe. Adoro pegar um carro condenado e colocar funcionando. Adoro poder identificar o problema apenas pelo som e o Fabrício é como eu. – Contei quando me levantei. – Ele também pode! Ele é muito inteligente, mas ao contrário de mim tem acesso a tudo que é TOP na nossa área. Ele troca muita informação comigo e me manda por e-mail as apostilas dos carros para eu estudar. Não sei como ele consegue, se é com outros colegas, mas ele consegue e me envia. Olha.
                Eu mostrei todas as apostilas impressas para ela, mostrei os artigos e até contei que consegui consertar um carro de outra marca que chegou na oficina graças àquelas apostilas. A minha mãe ficava apenas me olhando e sorrindo, não me recriminou. Ela me deu um beijo no rosto antes de sair do meu quarto e disse que me apoiaria em qualquer decisão.
Naquela noite eu dormi sorrindo e assim acordei. Eu estava ansiosa e madruguei, teria que enfrentar três ônibus para chegar ao local da corrida. Escolhi uma calça jeans nova que tinha comprado naquela semana, uma blusa mais coladinha e um tênis. Eu não era super magra como aquelas garotas que rondavam os boxes, mas não estava gorda também. Como o Fabrício era apenas meu amigo, não me importei se ele me acharia bonita ou não, eu estava apenas querendo me sentir confortável.
                Eu já tinha ido a alguns eventos no local da corrida, mas apenas nas arquibancadas e há muitos anos. Depois que as grandes corridas passaram a acontecem em São Paulo, os eventos eram raros e eu também não podia ir a todos. Como eu gostava muito de carros, o meu pai me levava algumas vezes em pistas de karts, mas não o suficiente para mim. Eu acompanhava mais pela TV e pela internet. A primeira vez que vi o Brian na TV me apaixonei.
                Era estranho estar pensando no Brian enquanto ia encontrar com o Fabrício, mas não conseguia evitar. O Brian era lindo, ele era famoso, estava sempre nas primeiras colocações nas corridas de kart e me deixava com as pernas bambas. Eu sentia como se ele estivesse olhando nos meus olhos a cada entrevista, me deixava excitada. Meu coração acelerava a cada palavra que ele dizia, fechava os olhos e imaginava que ele estava ao meu lado. O Brian foi o único homem que despertou aquilo em mim.
– Olá. Er... Eu sou esperada. – Disse a um segurança quando me aproximei do portão que o Fabrício tinha informado.
– Sua autorização. – Ele me pediu.
– O meu amigo disse que era para mostrar a minha identidade. – Disse ao entregar e ele olhou na relação que tinha em um tablet.
– Está aqui. – Ele disse ao indicar na tela. – O pessoal da equipe vai te indicar aonde ir. Está vendo aquele pessoal?   
– Sim. – Confirmei ao olhar para onde ele indicava. – Muito obrigado.
                Foi estranho ser recebida com sorriso e ser levada para uma sala atrás dos boxes. Dava para ouvir o ronco dos motores e isso me deixou ansiosa. Eu não via a hora de encontrar com o Fabrício e passear por lá. Sabia que a tomada de tempo seria na parte da tarde e a promessa dele era que veríamos tudo juntos. Me perguntaram se eu queria alguma coisa e aceitei apenas uma água. Era uma atenção bem legal, mas eu não iria exagerar. O Fabrício era só um membro de uma das equipes e isso poderia causar problemas para ele. Fiquei uns 5 minutos esperando sentada em um sofá e acompanhando na TV a movimentação dos boxes quando ouvi a porta se abrindo atrás de mim.
– Pantera? – Ouvi o Fabrício dizer e me levantei sorrindo.
– Quer me irritar, idio...
                Eu simplesmente congelei quando olhei o homem que tinha acabado de entrar. Ele era lindo, alto e tinha uma voz conhecida, estava de camiseta branca e o macacão de corrida aberto, caído na cintura com as mangas soltas. Eu conhecia aqueles olhos, conhecia cada centímetro daquele rosto. Meu coração acelerou de tal forma que pensei que desmaiaria. Meus olhos lacrimejaram, mas eu não conseguia falar.
– Oi, Pantera. – Ele sorriu de lado e coçou a cabeça parecendo desconfortável. Eu não sei por quanto tempo ficamos nos olhando. – Imagino que você está me odiando agora, mas eu não podia falar a verdade pela internet.
– Brian...
– É... Sou eu.
– Fabrício!? – Arfei quando as coisas foram ficando claras e comecei a pegar as minhas coisas. Ele tinha mentido por anos.
– Não vai. – Ele pediu ficando na minha frente.
– Você mentiu para mim por anos! Nos falamos pelo... Eu confiei em você! Te dei o meu telefone! Quer dizer... Dei para um amigo! Dei para uma pessoa que eu achava que conhecia e confiava!
– Sou a mesma pessoa, Sabrina. – Ele garantiu ao se aproximar mais. – Eu não poderia dizer sem ser pessoalmente, você não acreditaria. Você é a única pessoa que atualmente me conhece de verdade. Nós conversamos por horas, porra!
– Não fala palavrão para mim! – Gritei apontando o dedo para ele e a porta se abriu. Algumas pessoas entraram e ficaram nos encarando.
– Nos deixe. – Ele pediu e as pessoas ficaram nos olhando por alguns instantes, até que saíram, só então ele me olhou. – Desculpa. Você me deixa doido, Pantera. As garotas perto de mim não reclamam disso e sai naturalmente. Só contigo tenho que ficar me controlando.
– Então não precisa mais. – Disse com um sorriso sarcástico e ia sair, mas ele segurou no meu braço.
– Qual é, garota chata. Senta aí e vamos conversar. – Ele pediu e sorriu.
                Aquilo me quebrou. O meu cérebro funcionava acelerado tentando absorver aquela novidade e tentar aceitar as mentiras. Eu não conseguia parar de encará-lo, não conseguia processar que era tudo mentira e que ele estava se divertindo as minhas custas.
– Preciso pensar. – Disse tapando meus olhos e senti que ele tocou nos meus pulsos. Um choque elétrico percorreu o meu corpo.
– Sou o mesmo cara com quem você conversava.
– Não é mesmo! Você é Brian! Brian Portman. Você corre desde os 7 anos! Detentor de inúmeros campeonatos! Você é um super piloto e que tem a Fórmula 1 como meta! – Resmunguei olhando nos seus olhos.
– Você sabe muito. – Ele resmungou e se afastou para sentar em um dos sofás. – É fã do Brian, não é? Quer um autógrafo?
– Cala boca!
– Cala você! – Ele gritou e puxou os cabelos. – Eu achei que você seria mais compreensiva e não achasse que eu era uma droga de celebridade. Somos amigos, droga! Há anos, Pantera. Há anos nos falamos. Há anos trocamos informações e ideias sobre motores. Eu sou aquele cara com quem você teclava, não a porcaria de um corredor. Esquece essa droga e me olha como seu amigo.
– Você mentiu para mim!
– Menti mesmo! Menti porque gosto da sua companhia. – Ele disse olhando nos meus olhos. – Menti porque você me tratava como igual e não estava interessada em nada da minha carreira como corredor, não queria se aproximar para conseguir uma vaga na equipe e nem me paquerar. Meu nome é Fabrian Portman, ok? Mudei somente para Brian que ficava mais fácil. Não é Fabrício.
– Você mentiu esse tempo todo. – Sussurrei e uma lágrima caiu.
– Merda! – Ele resmungou e correu para mim.
                Aquele homem lindo se aproximou e enxugou as minhas lágrimas. Ele me pedia para não chorar e dizia que era a mesma pessoa. Eu me sentei e ele me deu uma água, eu tremia. Estava difícil entender meus próprios sentimentos. Eu era apaixonada pelo Brian há anos e acompanhava a sua carreira, mas era amiga do Fabrício. Não estava fácil conciliar tudo aquilo. Depois de alguns minutos a porta se abriu e um homem disse que o Brian, ou Fabrício, precisava ir se preparar para o treino antes da tomada de tempo.
– Vem comigo. – Ele me pediu.
– Ir com quem? Com o Brian ou com o Fabrício? – Perguntei e abaixei a minha cabeça. – Estou tonta.
– Relaxa, vai.
– Estou muito confusa. Não sei sequer como te chamar!
– Me chama como você quiser.
– Idiota.
– Pode ser. O que você quiser, mas não foge, Pantera. – Ele pediu e olhei feio. – Ih... Se você pode me chamar de idiota, posso te chamar de marrenta se eu quiser. Vou te ligar quando eu quiser e você vai me atender. Você vai parar agora com isso de dar chilique e aproveitar o ronco dos motores comigo. Você veio aqui para isso! Vai deixar escapar a chance de chegar perto dos carros?
                Meus olhos brilharam ao encará-lo. Era difícil olhar para ele e esquecer da minha paixão, mas como dizer era o problema. Eu apenas inspirei fundo e me levantei. Ele começou a rir e se levantou também.
                A cara das pessoas era a coisa mais engraçada. Assim que saímos eu me deparei com pelo menos umas 20 pessoas do lado de fora me encarando, principalmente as mulheres. Tinham umas garotas lindas de salto alto me olhando, mas eu nem me abalei, apenas fui com ele. O Brian segurou na minha mão e me puxou por um corredor comprido que terminou na parte interna do box da sua equipe. Ele riu quando eu congelei ao lado do seu carro e abriu o caput.
– Caramba! – Arfei e me aproximei mais.
– Maneiro, não é? – Ele disse e se apoiou ao meu lado. – Lembra daquele motor que ficamos discutindo por uma semana inteira? Aquele que estava com vazamento na caixa.
– Lembro. Não me diga que era o seu carro.
– Era esse mesmo.
– Seu idiota! – Gritei e lhe dei um tapa no ombro. – Você devia ter me dito logo. Era fácil saber se você tivesse contado. Olha isso aqui, seu amador! Se essa junta não for trocada a cada corrida você vai fundir tudo! Seu carro trabalha em alta temperatura e não há nada que segure se não for bem refrigerado. Você usou o aditivo que eu disse?
– Conseguimos um similar. Eu estava nos Estados Unidos quando conversamos sobre ele. – Ele contou e se protegeu quando o fulminei com os meus olhos. – Segura a onda, Pantera. Preciso correr amanhã e vou te culpar se ficar de muletas. O meu patrocinador vai te processar.
– Idiota. – Resmunguei e ri. Naquela hora que vi a quantidade de pessoas me olhando. – Fabrício...
– Não esquenta. – Ele disse e passou os braços pelos meus ombros antes de olhar para a sua equipe. – Galera. Essa é a Pantera. – Ele disse rindo e lhe dei uma cotovelada. – Ai! Quer me matar, mulher. Ok... O nome dela é Sabrina e é a melhor mecânica que eu conheço, então respeitem-na.
                Todo mundo começou a rir e fui relaxando. Os mecânicos já me conheciam de nome, mas apenas como Pantera. O Brian contou a eles sobre uma pessoa com quem conversava na internet e que trocava informações. Os mecânicos foram super legais e ficamos conversando bastante, ao contrário das mulheres que pareciam ter visto alguém com 7 cabeças. O momento mágico foi ouvir o motor do carro dele roncando alto. Gritei e soquei o braço do Brian rindo junto com ele. A corrida dele seria o ponto alto daquele final de semana, mas também teriam os karts e eu queria vê-los. O Brian corria em outra categoria, mas era tão emocionante quanto.
                Saímos do box para seguir até os que ficavam os karts, mas fomos cercados por repórteres. Eu fui sutilmente afastada dele, mas um dos membros da equipe me salvou daquelas feras. Fiquei chocada e assustada com um mundo de gente querendo falar com ele. Eu tinha seguido em frente junto com o colega mecânico, seu nome era Rafael. Um rapaz aparentando ter uns 25 anos e com um cavanhaque muito charmoso.
– Nossa. Você entende mesmo de motores? – Ele me perguntou.
– Sou mecânica em uma autorizada de importados. – Comentei.
– Nunca conheci uma mulher que entendesse de motores. – Ele comentou rindo.
– Muito prazer então, Sabrina. – Brinquei e apertamos as mãos. Ele pegou e virou a minha mão para cima.
– Você está mentindo. Suas mãos são limpas e macias demais para alguém que trabalha com motores.
– Tenho meus segredos. – Sussurrei rindo. – Eu me cuido, apenas isso. Esfrego tanto que nem tenho cutículas.
– Tem quantos anos?
– Faço 19 em poucas semanas, mas me formei ainda com 17. Sempre fui fascinada por motores. Consegui esse emprego antes dos 18 e estou lá desde então.
– Você deve ser boa mesmo.
– Eu me esforço no meio de tantos machos. – Brinquei e ele gargalhou.
– Entendi porque o Brian gosta tanto de você. Você tem bom humor e é super inteligente. Não se deixa intimidar por nada e nem ninguém. Você está aqui e nem pediu um autógrafo.
– Ainda estou em choque. 
– Pantera! – Ouvi o Brian me chamar e virei para encará-lo pronta para xingar, mas ele olhava de forma mortal para o rapaz ao meu lado. – Obrigado por acompanha-la, mas pode ir, eu a levo.
– Ok, chefe. – Ele brincou e piscou o olho para mim antes de ir.
– Conhecendo a equipe? – O Brian me questionou.
– Ih... O que é? Ele apenas estava me levando para ver os karts, idiota!
– Fica perto de mim. – Ele disse e passou o braço sobre os meus ombros. – Você não conhece esse caras, Sabrina. Eles vão te paquerar e te pegar.
– Fala sério. Olha quantas garotas lindas por aí.
– Nenhuma delas salvou a minha equipe de perder cerca de dois milhões de dólares há 6 meses, então cala essa boquinha e deixa que eu cuido de você, ok?
– Ok, chefe. – Brinquei e seguimos.
                Não comentei, mas fiquei chocada com a informação e o valor do prejuízo que ele teria. Enquanto caminhávamos eu ia confrontando na minha mente as informações. Lembrei das notícias sobre um problema no motor do Brian Portman e de outras coisas também. Era realmente incrível como eu passei anos me comunicando com um ícone e esperança do automobilismo e nem me dava conta. Ele era muito mais que eu imaginava, muito mais lindo e simpático.
                Conheci todas as equipes e pude me aproximar de todos os carros das 2 categorias que lotavam os boxes. Os pilotos foram super legais conosco, não havia uma rivalidade que eu imaginava, mas sim muita provocação e brincadeira. Mais uma vez o meu nome foi motivo de piada e acabei me tornando a Pantera nos boxes.
                O Brian precisava se aprontar para a sua pré-tomada de tempo e fui junto. Achei que teríamos que ir para a pista, mas havia vários monitores e fones para a equipe acompanhar tudo. Um dos mecânicos me deu um desses fones e pude acompanhar toda a conversa pelo rádio, foi emocionante.
– Estamos tentando acelerar mais a rotação, mas está difícil. – O chefe dos mecânicos comentou comigo quando vimos o Brian voltando para o box.
– Por quê? – Questionei. – Vi que ele perdeu a aceleração na curva dois, mas se recuperou.
– Você é boa mesmo. – Ele brincou, mas continuou. – Sim, recuperou, mas na corrida isso não pode acontecer. É perde ou ganha, não tem como reclamar depois e os chefes cobram, entende?
– Claro. Ele me mandou parte do manual de um motor há 2 semanas. – Meditei e comecei a pensar.
– O que foi, Pantera? – O Brian me questionou quando se aproximou e apenas levantei o dedo para ele esperar.
– Esse motor é o mesmo de 2 semanas? – Questionei e ele riu. – Idiota! Posso ver de perto? 
– Claro. – O Brian disse e me aproximei. A capota já estava levantada. – Cuidado, está fervendo.
– Claro que está. É por isso que você está perdendo aceleração. Para e pensa, garoto marrento. Você sobe demais a rotação quando chega perto da curva, precisa controlar o ânimo, você não está mais em um kart com motor externo. Sua máquina é sensível como aquelas meninas lá fora. – Brinquei e comecei a aliviar a pressão do motor lentamente.
                Ficamos mais de uma hora para colocar o motor no ponto novamente e o Brian partiu para uma tomada de tempo oficial junto com outros pilotos. O tempo corria acelerado, mas conseguimos aprontar tudo. Eu estava com as mãos sujas de graxa e as calças novas também. Doeu quando vi, mas valeu a pena. Eu estava no mundo da velocidade e colocando as minhas mãos sobre um dos motores mais velozes da categoria.
                Foi tenso acompanhar junto com a equipe. Agora era oficial e eu estava realmente excitada com aquilo tudo. Eu via algumas pessoas me olhando, mas tentei prender os meus olhos no monitor e os ouvidos no fone.
– Bora, Brian. Boa sorte, filho. – Ouvi o chefe da equipe pelo fone.
– Acelera! Uhulll. – O Brian gritou me fazendo rir, mas a equipe toda estava apreensiva.
– Controle na curva 2 e na 7.
– Ok.
                O som no fone era meio truncado e estridente, mas dava para entender. Assim que as luzes piscaram para indicar que a tomada de tempo começaria, fiquei tensa como todos. Eu gelei ao lembrar do quanto tudo aquilo valia e como eles permitiram que eu chegasse perto. O Brian realmente acreditava em mim, confiava no meu potencial e na minha capacidade. O que mais me espantava era que os membros da equipe também. Imaginei o quanto ele tinha falado de mim para todos e eu era completamente ignorante quanto a isso. Eu estava enfurnada nos meus próprios pensamentos que nem percebi a equipe vibrando.
– Panteraaaaaa!!! – O Brian gritava no fone. – Panteraaaa!!!!
– Muito bem, Pantera. – O chefe da equipe disse quando tirou o fone de um dos meus ouvidos. – Vamos conversar muito ainda, menina.
– O que houve? – Arfei com os olhos abertos.
– Olha para o gráfico. – Ele disse indicando a tela e vi que o carro tinha voado baixo quebrando todos os outros. – Ele seguiu a sua indicação, Pantera. O Brian voou baixo na pista.
                Fiquei olhando aquilo e o monitor. O gráfico era on line com a máquina na pista e alterava conforme ele corria. O Brian conseguiu manter tudo até a última curva, foi incrível. A equipe vibrou muito quando terminou e o Brian conseguiu a pole. O meu grande amigo sairia na primeira fila no dia seguinte e eu estava muito orgulhosa dele.
– Pantera! – O Brian gritou quando saiu do carro e veio correndo para mim.
– Parabéns. – Disse quando ele me abraçou.
– Você é 10, garota marrenta.
– Idiota! – Brinquei e ele beijou o meu rosto.
– Sou... Seu idiota. – Ele disse rindo, mas olhando nos meus olhos.
– Vamos manter assim amanhã, garoto. – O chefe da equipe disse bagunçando os cabelos do Brian e também me deu um beijo no rosto. – E você, garota. Vamos conversar. Você precisa me dizer de onde vem tudo isso.
                Enquanto a equipe e um monte de garotas cercavam o Brian, fui com o chefe da equipe e o chefe dos mecânicos olhar o carro. Vimos no gráfico que o motor chegou a um pico de temperatura na curva 5, mas comparado com os anteriores o carro se comportou mais. Eu sabia que o motor precisava trabalhar quente, mas estava acima do nível considerado ideal projetado e isso estava fazendo a equipe quebrar a cabeça. Eles riram muito quando chegaram a conclusão que o problema estava entre o banco e o volante e não no motor. Eu ri, mas não muito. O comportamento do piloto era essencial para que a máquina funcionasse bem e o Brian passou muitos anos correndo apenas no kart. Eles pareciam me testar o tempo todo, mas me saí bem.
– Pantera. – O Brian disse ao me abraçar pelas costas beijou o meu rosto.
– Oi. – Disse rindo.
– Há quantos anos vocês se conhecem? – O chefe da equipe nos perguntou.
– Mais de 3 anos. – Dissemos juntos e rimos.
                Contamos um pouco da nossa história, até que o Brian foi tomar um banho e se trocar. Não gostei de ver uma garota o seguindo para dentro de uma sala, mas fiquei quieta. Eu me sentia possessiva com ele, mas não tinha nenhum direito. Ali eu era apenas a sua amiga virtual mecânica que descobriu a pólvora. Pelo menos a garota não ficou 2 minutos lá dentro.
– Preciso ir para casa. – Meditei quando vi a hora. Eu estava morrendo de fome e já passava das quatro da tarde. Nem vi o tempo passar.
– O Brian não deve demorar. – O chefe dos mecânicos comentou enquanto ainda olhava o gráfico.
                Ele realmente não demorou e me pegou pela mão. Entramos novamente na mesma sala onde nos encontramos e estava pronta para o almoço. O meu estômago roncou naquele momento nos fazendo rir. Pensei que ficaríamos sozinhos, mas em menos de um minuto toda a equipe se juntou a nós. Foi muito divertido, mas a vida real me esperava.
– Preciso ir. – Disse ao Brian depois do almoço e várias mensagens de texto da minha mãe.
– Onde você estacionou?
– Você sabe que eu ando de ônibus. – Sussurrei sem graça.
– Eu te levo então.
– Não! – Arfei imaginando a cara dos meus pais.
– Por quê? – Ele fechou a cara quando me questionou e eu arregalei meus olhos. Ele esperou, mas eu não consegui explicar. – Você sabe que não gosto quando você se esconde assim de mim, quando você fica muda. Fala, Pantera!
– Eu posso ir muito bem do jeito que vim e não se meta nisso! – Resmunguei o encarando.
– Até parece.
– Você quer mesmo discutir isso? Tem certeza?
– Quero! Vou te levar. – Ele disse e me levantei, mas ele nem se abalou. – Cala a boca e senta!
– Idiota! – Resmunguei, mas me sentei. Percebi que nos olhavam, mas nem me abalei. – Você não manda em mim e está me envergonhando.
– Não estou nem aí.
– Mas eu estou. Nunca mais fale comigo assim, ouviu.
– Falo como eu sempre falei. Eu sou o mesmo.
– Eu também e continuo a dizer que vou como vim. – Avisei e bebi a minha água.
– Vamos ver.
                Ele estava me desafiando na frente de mais de vinte pessoas desconhecidas, mas eu estava ficando furiosa. Me levantei para ir ao banheiro e quando saí ele estava lá no corredor. Achei que poderia despistá-lo, mas não consegui. Me despedi de todos e agradeci pela oportunidade de conhecê-los. Me perguntaram se eu estaria lá no dia seguinte, mas não confirmei. O chefe da equipe me entregou um cartão e me pediu um e-mail de contato e dei. Percebi um certo clima de tensão quando nos despedimos, afinal ele era um corredor famoso que estava me levando para casa.
                Como era previsto, o seu carro era uma máquina maravilhosa. Tive que guia-lo o caminho todo enquanto conversávamos. O Brian era muito divertido quando estávamos sozinhos, com a equipe ele era a celebridade e a estrela. Dava para ver a diferença, mesmo com ele dizendo que não. Agradeci quando chegamos, mas ele sutilmente se convidou para entrar. Fiquei em choque, não sabia como os meus pais reagiriam.
– Mãe? – Chamei quando abri a porta.
– Na cozinha! Finalmente você chegou. Conseguiu conhecer o...
Ela congelou quando entramos. O Brian ficou me olhando e depois para a minha mãe, foi engraçado.
– Mãe... Esse é o Fabrício... Na verdade, o Fabrício é o Brian Portman. – Contei e ela começou a rir sem parar nos fazendo rir também.
– Ele sabe? – Ela perguntou em meio o riso e congelei.
– Sei o que? – O Brian me perguntou.
– Nada. – Disse e arregalei os olhos para a minha mãe.
– Entrem. – Ela disse e nos sentamos.
                Foi surreal contar tudo a minha mãe e ao meu pai que chegou logo depois. Eles achavam engraçada cada coisa que falávamos e pareciam não acreditar. Claro que eles o conheciam de todas as revistas que eu tinha, mas não eram fãs como eu.
– Você vem amanhã novamente? – O Brian me perguntou quando viu que precisava ir embora. Ele tinha uma agenda a cumprir, mas principalmente, precisava dormir bem.
– Não sei.
– Venha. – Ele me pediu e olhou para os meus pais. – Ela foi incrível com a equipe e todos gostamos das suas dicas. Vocês são meus convidados.
– Nós preferimos assistir da TV. – Meu pai disse e me olhou. – Se você quiser, vá, Sabrina. Pelo visto vocês se divertiram muito.
– Vou pensar.
– Já pediu um autógrafo? – Meu pai brincou e eu o encarei de olhos arregalados.
– Você tem alguma revista, Pantera? Me diga que não, pelo amor de Deus! – O Brian brincou.
– Ela tem muitas. Mostre a ele, filha. – Meu pai disse e corei de vergonha. O Brian me olhou incrédulo. 
– Ok...
                Não acreditei quando senti a presença do Brian atrás de mim quando abri a porta do meu quarto. Aquele era o meu santuário e ele estava vendo tudo. Tentei o impedir de entrar, mas foi em vão.
– Sabrina? – Ele questionou com os olhos arregalados.
– Por favor, vai embora. – Pedi sem graça.
– Não. – Ele foi firme e ficou me encarando. – Você tem algo para me dizer?
– Não.
– Pantera! Fala comigo.
– Não, Fabrício...
– Brian. Meu nome é Brian! – Ele rosnou entre os dentes. – Olhe em volta e veja! Você tem vários para olhar aqui!
– Droga!
– Merda! A palavra certa é merda! Eu passei anos achando que estava falando com uma pessoa e não é essa que dorme aqui, é?
– Eu passei todos esses anos falando com o Fabrício, não com ele! – Disse apontando para um pôster na parede. – Você quer realmente discutir quem mentia? Eu simplesmente omiti algo particular, não a minha identidade. Eu sempre fui sincera quando dizia que curtia motores, você me enganava mandando apostilas escaneadas e falava que fazia parte de uma equipe.
– Eu faço.
– Me poupe!
– Pantera! – Ele rosnou entre os dentes. – Você é fã do Brian Portman? O que significa tudo isso? Me fala que estou enlouquecendo aqui.
– Eu acompanho a sua carreira...
– Acompanhar é uma coisa, isso aqui é outra muito diferente. Seja sincera comigo. Você nunca me falou de um namorado, nunca sequer falou de uma paquera e eu nunca dei em cima de você até olhar nos seus olhos.
– O que?
– Pelo amor de Deus! Você quer que eu diga com todas as letras? Estou atraído por você e muito, mas não esperava por isso aqui.
                Ficamos nos encarando até que ele se aproximou e levemente me beijou. Foi o meu primeiro beijo, o primeiro que eu poderia considerar verdadeiro. O corpo quente dele encostou no meu e senti o seu perfume. Minhas pernas ficaram bambas.
– Estou em choque, Sabrina.
– Eu estou há horas. – Sussurrei perto dele.
– Amanhã, depois da corrida, vamos conversar no meu hotel. – Ele disse segurando meu rosto entre as suas mãos. Quando tentei protestar ele me cortou. – Preciso disso, Pantera. Estamos no seu quarto, seus pais estão lá fora e estou me controlando muito, mas preciso de tempo para digerir esse dia e me concentrar porque amanhã eu tenho uma corrida. Você está me perturbando a mente. Não consigo pensar e entender tudo isso que aconteceu hoje. Achei que encontraria uma pessoa e vi você.
– Não entendi.
– Linda. – Ele sussurrou e me beijou. – Inteligente e encantadora.
                Ele se despediu dos meus pais e o levei até o carro. Os vizinhos ficavam nos olhando e me senti desconfortável, ele também.
– Vou mandar alguém te buscar amanhã. – Ele disse quando abriu a porta do carro.
– Não precisa.
– Não discute. – Ele disse olhando nos meus olhos. – Alguém virá te buscar às 6 horas, então dorme logo.
– Você faz o mesmo para aquelas meninas do box?
– As modelos? – Ele questionou e assenti. – Não. Elas estão fazendo o marketing do patrocinador, apenas isso.
– Ok.
– Olha para mim. – Ele disse segurando no meu queixo. – Não estou com ninguém, ok? Estou sozinho há meses. Não te beijaria se tivesse alguém, e se tivesse te apresentaria. Não tenho vergonha quando coloco uma mulher ao meu lado, não a traio e nem a escondo. Terminei com ela porque não me atraía mais, nem seu corpo e nem seu cérebro. Ao contrário do que muitas daquelas revistas na sua estante escrevem, não me atraio somente pela beleza física. Odeio futilidade e papo vazio, coisas que nunca vi em você. Amanhã você será respeitada por todos como minha amiga como foi hoje. Você é uma mulher que impõe respeito e eu gosto muito disso. Hoje você fez algo incrível no box e impressionou muita gente, mas acima de tudo, eu te admiro há anos, hoje muito mais, agora... Agora eu não sei o que estou sentindo e preciso de um tempo para digerir. Amanhã, independente do resultado da corrida, não vou para celebração alguma, você vem comigo para o hotel e vamos descobrir isso juntos, ok?
– Não sei, Brian. – Sussurrei nervosa. Ele me deixava nervosa.
– Eu disse, não discute. – Ele sussurrou e me beijou. – Até amanhã, Pantera.
– Idiota.
– Seu idiota. – Ele disse, piscou e entrou no carro.  
                Não preciso dizer que foi uma noite agitada. Assim que entrei tive que contar tudo de novo para os meus pais e não conseguia parar de rir, nem eles. Era surreal, coisa de livro, de novela. Quando consegui tomar um banho e dormir já passava das dez horas e vi mais de 20 mensagens do Brian. Ele começou dizendo que tinha chegado, passou por algumas questionando porque não respondi, se eu tinha saído depois que ele foi embora e a última parecia que ele estava furioso dizendo que eu o estava dispensando. Eu não sabia como reagir àquilo. Apenas respondi que tinha deixado o meu celular no quarto e estava com os meus pais.
– Oi. – Disse quando atendi o celular 15 segundos depois de mandar a mensagem.
– Oi? Você me diz apenas Oi? – Ele perguntou meio irritado.
– O que você tem?
– Nada... Não tenho nada, Pantera. Apenas achei estranho que uma pessoa com quem eu trocava mensagens e normalmente me respondia com no máximo 5 minutos de diferença, apenas ficou 2 horas me fazendo esperar, só isso.
– Eu estava conversando com os meus pais. Eles nunca se interessaram pelo meu trabalho e fiquei empolgada. Eu tinha deixado o celular aqui quando nós viemos pegar a revista e esqueci. Desculpe não escrever. – Sussurrei. Ele me desarmava. – Não achei que você mandaria os torpedos.
– Eu... Sei lá, Pantera.
– Serei sempre Pantera, não é?
– E eu seu idiota. – Ele brincou. – Estou ansioso por amanhã.
– A corrida será emocionante. Eu imagino que você esteja acostumado, mas deve ser sempre uma adrenalina.
– Pantera?
– Oi.
– Estou falando de nós. – Ele sussurrou. – Você não está? Estou sendo um idiota de verdade?
– Eu não tenho... Er...
– Fala. – Ele pediu quando gaguejei, mas não consegui. – Pantera!
– Nunca namorei assim, Brian. Não sei se... Droga! Isso não vai dar certo, ok? Temos que ser amigos e pronto. Não sei namorar. Não sei fazer nada disso, só consertar motores, ok? Pronto, falei. Droga! Saco!
– Calma.
– Calma? Não me pede calma que fico mais nervosa ainda.
– Ok... Vamos devagar com isso, mas preciso pelo menos saber se você... Não quero ser o Brian Portman contigo, Pantera. Prefiro o Fabrício com quem você era tão aberta. Com o Brian você ficar tão nervosa, por quê?
– Porque tudo foi um choque hoje. Para e se coloca no meu lugar.  
                Ficamos mais meia hora no celular até que ele conseguiu entender um pouco como isso tudo estava me deixando zonza. Eu me considerava durona, mas algo nele me fazia mais molenga, mais feminina que antes. Era difícil explicar e eu também não queria abrir isso para ele. Eu esperava que com o tempo ele percebesse que eu era totalmente inexperiente com homem, totalmente e completamente ao contrário dele.
                Antes das 5 da manhã eu acordei com um som de torpedo no meu celular, era o Brian me acordando e lembrando que um motorista estaria na minha porta às 6 horas. Respondi que estava acordada e ele me ligou. Sua voz de manhã era doce e adorei ouvir seu bom dia, mas ele não se demorou, precisava ir com a equipe para checar tudo. O Brian era metódico e muito dedicado. Levantei preguiçosa e tomei um banho demorado para acordar realmente. Acabei escolhendo um vestido que eu tinha guardado fazia tempo. Eu sempre usava calça por causa do trabalho, mas como era uma corrida e eu quis me arrumar mais, resolvi usá-lo. A minha mãe chegou a engasgar quando eu sentei para tomar café. Eles sempre madrugavam, não importava o dia e me viram sair quando o motorista chegou. Estranhei quando eles apenas disseram para eu me divertir e não deram um monte de recomendações.
– Bom dia. – Disse ao motorista quando ele abriu a porta para mim.
– E aí, Pantera? Quer ir atrás ou na frente? – Ele perguntou sorrindo e o reconheci .
– Oi! – Disse sorrindo e ele beijou o meu rosto.
– Legal que você estará lá. A equipe ficou bem impressionada. O chefe da equipe me fez prometer que você chegaria sã e salva, então vamos nessa?
– Vou na frente. – Sorri quando fechei a porta de trás.
                Foi muito legal saber mais sobre essa vida de equipe de corrida. Ele me contou que viajavam muito e que já conhecia o Brasil todo. Ele era de São Paulo como o Brian, mas adorava o nordeste. Se eu achava que no sábado a coisa estava agitada na área dos boxes, no domingo aquilo estava completamente insano. O Rafael me levou pela mesma área do sábado, era exclusiva da equipe. O Brian me viu de longe ao lado do Rafael e fechou a cara, mas estava dando entrevista e fiquei esperando. O chefe da equipe me viu e foi cumprimentar. Começamos a conversar sobre como o motor se comportou e que eles tinha trocado novamente a junta por garantia. Ele tinha contatado o engenheiro que projetou o motor e me convidou para uma conversa com ele durante a semana. Fiquei chocada, mas nem pensei 2 vezes, aceitei. Era um reconhecimento, uma chance de mostrar realmente o meu trabalho para pessoas de alto nível.
– Oi. – O Brian disse ao beijar o meu rosto.
– Oi. Dia agitado, heim. – Comentei e indiquei a frente do box cheia de repórteres.
– Sempre é em dia de corrida. Chegou legal?
– O Rafael é muito divertido. – Comentei sorrindo, mas ele não acompanhou.
– Lembra o que te disse ontem? – Ele sussurrou no meu ouvido e assenti. – Só tome cuidado enquanto eu estiver correndo, ok? Não quero ter que passar com o carro sobre ninguém hoje.
– Idiota. – Brinquei e ele riu.
– Sim... Seu idiota. – Ele sussurrou com humor. – Já tomou café? É cedo.
– Já. Meus pais mandaram dizer boa sorte.
                Depois daquilo ele foi puxado pela equipe para checar o carro e se preparar. Era uma loucura, um falatório e um entra e sai de pessoas com macacões pretos com o nome da equipe. As garotas do patrocinador zanzavam pela frente do box distribuindo amostras e panfletos, posando com os fãs ou apenas desfilando na frente das câmeras querendo aparecer.
– Aqui. – O Brian disse estendendo um embrulho para mim. – Você não pode ficar aqui com isso.
– O que tem a minha roupa? – Questionei ofendida quando ele encarou o meu vestido.
– Não tem nada demais com ele, mas se você chegar perto do motor com essas pernas de fora e se inclinar terá assassinato aqui. O que você estava pensando?
– Idiota! – Rosnei o encarando e peguei o macacão.
– Você vai ficar longe quando o motor roncar pela primeira vez hoje? – Ele questionou me encarando. – Faz o que eu estou dizendo, Pantera! Te conheço.
– Você me dá nos nervos, sabia? Cara chato!
– Sou chato e idiota, mas só contigo. Agora vai e se troca, é do seu tamanho.
                Me troquei no camarim do Brian, dava para notar. Vi seu celular sobre uma mesa e suas roupas penduradas. Sorte que eu estava com um tênis cano baixo e não ficou estranho. O Brian precisava conter-se porque eu estava ficando chateada com a forma que ele falava, ele simplesmente mandava e pronto.
– Olha isso! Nova membro da equipe? – Um dos mecânicos brincou e fez uma reverência. Foi engraçado. – Seja bem vinda, Pantera.
– Obrigada, mas estou só de visitante.
– Uma visitante trunfo, uma arma secreta. – O chefe dos mecânicos brincou. – Vamos lá, Pantera. Vamos colocar aquela máquina para rugir.
                O Brian sorriu quando me aproximei e piscou para mim. Ele já estava dentro do carro e fez o motor rugir. De repente tudo ficou mais sério e profissional, todos vestimos uma máscara de profissionalismo, tinha muito dinheiro envolvido e uma vida em jogo, a vida do Brian. Comecei a ficar mais tensa conforme a hora da corrida chegava e ele percebeu.
– Fica de olho no monitor. Se você vir que estou saindo do eixo, me avisa. Estarei te ouvindo também. – Ele disse segurando a minha mão. – Até ontem ninguém tinha me alertado sobre o meu comportamento com o motor, achávamos que era algo mecânico, mas você viu. Obrigado.
– De nada. – Sussurrei olhando nos seus olhos. – Mantenha em mente que você não está no kart e controle a aceleração nas curvas. Você vai se dar bem.
– E depois?
– Acelere e chegue em primeiro. – Disse sorrindo.
– Não... Depois da corrida... Vou me dar bem?
– Idiota! – Brinquei e dei uma batida no seu capacete. – Concentre-se.
– Ei, Pantera? – Ele chamou quando me afastei. – Mantenha o canal aberto, ok?
– Ok, idiota! – Ri ao dizer e a equipe vibrou quando ele ficou batendo no capacete.
                Eu conhecia bem aquela rotina, o acompanhava há anos. O Brian se concentrava assim. O chefe da equipe me levou para perto dele e dos monitores para acompanhar o desempenho do carro, depois me passou um fone com microfone diferente do que usei no sábado.
– Ele pode te ouvir, é só apertar aqui. Vamos ficar ouvindo o que ele diz, quando precisar. O Brian é metódico, mas muito competente. Qualquer mudança ele nos informa e vamos passando as parciais dos outros corredores para ele.
– Ok. – Confirmei e coloquei o fone.
– Pantera! – Escutei o Brian me chamando.
– Fala. – Disse e ele riu. – Se concentra!
– Nada de idiota agora?
– Se você continuar assim será. Concentre-se na corrida, ok?
– Ok. Me mantenha informado.
– Combinado.
                Me deu um frio na barriga quando ele saiu do box e foi para a pista. A equipe na mesma hora começou a se movimentar para deixar tudo pronto para o pitstop. Eles se movimentavam magicamente. Lembrei de tê-los visto treinando no sábado e achei incrível. Com um olho no monitor e no gráfico, acompanhei tudo. O chefe da equipe de mecânicos comentou comigo que a largada era o momento mais tenso, ganhava apenas da curva 1, mas como o Brian estava na primeira fila o estresse era menor. Ainda tivemos que esperar uma boa meia hora antes da volta de reconhecimento e depois as luzes da largada foram ligadas. Gelei.
                A primeira curva foi apertada, todos os carros misturados, mas depois de um segundo vi o Brian saindo na frente. Eu acompanhava a aceleração e a troca de marchas. Ele estava indo bem, mas na quinta volta comecei a notar uma volta do comportamento do kart. Indiquei na tela e o chefe da equipe falou com ele no rádio. O Brian correu muitos anos no kart e os hábitos são difíceis de mudar, eu sabia. A cada 5 voltas ele voltava ao mesmo comportamento, principalmente na curva 5 e o chefe da equipe estava ficando preocupado com o motor.
– Posso? – Perguntei indicando o fone.
– Ok.
– Brian. – Disse quando abri a conexão.
– Pantera! – O Brian disse ofegante.
– Concentre-se!
– Estou, porra! – Ele se zangou, mas não deixei barato.
– Não fala palavrão para mim, idiota! Concentre-se na corrida e mantenha na 5!
– Panteraaaaaaa! – Ele gritou me fazendo rir.
– A cada 5 voltas você arrisca na 5, mantenha firme.
– Ok.
– O número 7 está chegando a cada 2 voltas e conheço o ritmo dele.
– É fã dele? – Ele rosnou no rádio.
– Concentre, idiota! – Rosnei. – Ele não queima borracha até o primeiro pit, mas vai tentar acelerar nas duas anteriores encostando mais. Vamos monitorar daqui. Você pegará transito em 7 voltas, então faz o pit após ultrapassar. Assim ele fica preso lá e te dá tempo de reação.
– Estudou bem. E aí, chefe?
– Vamos seguir a estratégia. Até agora ela não errou. – O chefe da equipe disse no rádio. – Qualquer mudança avisamos.
– Panteraaaaa!!! – O Brian gritou no rádio.
– Pelo visto isso o relaxa, Pantera. – O chefe da equipe disse mesmo concentrado no monitor.
– Sabrina. Ele inventou isso e não larga mais. – Comentei rindo.
– Você tem razão com o 7, vamos seguir a sua estratégia. Espero que dê certo.
– Também.
                Nos concentramos na corrida e o Brian também, mas eu sempre que podia o alertava. O pitstop correu perfeitamente e o 7 ficou preso atrás do congestionamento, o Brian foi perfeito. A equipe ficava gritando “Panteraaaa” me deixando muito sem graça, mas me diverti. Um acidente há 15 voltas do final aproximou os corredores, mas não foi suficiente para tirar a vitória do Brian. A comemoração foi incrível e eu pude presenciar. O chefe da equipe me fez uma reverência e os mecânicos urraram, foi engraçado, uma experiência que eu nunca esqueceria. A gritaria era geral quando ele entrou com o carro no box.
– Parabéns. – Disse sorrindo para o Brian e ele segurou pelos cabelos para me beijar na frente de todo mundo.
– Pantera! – Ele rosnou na minha boca levando arrepios até a minha alma.
– Você foi perfeito na pista.
– Você foi perfeita no rádio.
– Vem, cara! Você precisa ir buscar seu troféu. – O chefe da equipe bateu no ombro dele e o arrastou para longe. A equipe estava eufórica.
                Não me aproximei demais, mas pude ver a alegria dele ao receber o prêmio. Os mecânicos gritavam querendo champanhe e ele jogou. Fiquei toda molhada, mas foi divertido. Me levaram de volta para o box da equipe quando o Brian saiu por trás do pódio, ele nos encontraria por lá.
– Você está todo molhado de champanhe. – Ri ao dizer quando cheguei ao box e ele já estava.
– Você também. Vem. – Ele disse me pegando pela mão.
                Mal entramos no seu camarim e ele me imprensou na parede e começou a me beijar. Eu não conseguia parar e nem ele. A excitação da velocidade, da vitória e de toda aquela emoção me deixava completamente tonta.
– Calma. – Sussurrei quando ele sugou no meu pescoço e começou a me acariciar mais.
– Loucura, Pantera! Que calor que você me dá! – Ele rosnou no meu pescoço. – Preciso desesperadamente de você!
– Brian, não. – Disse quando ele começou a descer o zíper do meu macacão.
– Sim! Sim! – Ele gemia na minha boca.
– Não posso, Brian. – Arfei e ele olhou nos meus olhos, viu o meu medo.
– Você não me quer?
– Eu...
– Você já esteve com alguém? – Ele perguntou olhando nos meus olhos e lá encontrou a resposta. – Ah... Loucura!
– Eu...
– Te quero tanto, Sabrina! – Ele sussurrou no meu pescoço. – Preciso de você, mas vamos com calma. Você me quer?
– Eu...
– Apenas me diz sim ou não. – Ele implorou. – Não acontecerá até você estar pronta, eu prometo. Você é importante demais para mim. Deus! Eu sonhava contigo! Esperava como louco pelas suas mensagens na rede por anos! Mas de uns tempos para cá as coisas foram mudando para mim e pedi o seu número. Não consegui pensar direito depois de te ouvir e me controlava para esperar que você pudesse me ver e eu contar a verdade. Eu me apaixonei pela mulher inteligente que me entendia, que falava no mesmo nível que eu. Eu sentia de alguma forma quando você estava mais sensível. Ah! Pantera! Eu te sentia sem te ver.
– Sim. – Sussurrei quando ele gemeu no meu pescoço e ele me apertou mais. – Ah!
– Geme gostoso... Será a melhor preliminar de todas!
                Ele me agarrou e me beijou com desespero por tanto tempo que não consegui processar. Seu corpo forte, suado e úmido pelo champanhe me deixavam bêbada de Brian. Ele me ergueu e circulei a sua cintura com as minhas pernas e ele pressionou contra mim. Sentir sua excitação me deixava louca, mas também com medo de ir longe demais.
– Que loucura, Pantera! – Ele gemeu forte no meu pescoço e pressionou seu corpo no meu. – Nunca precisei me controlar tanto. A vontade de te deixar nua é insuportável.
– Melhor eu ir embora.
– Não! Não vá. Eu sinto que você me quer assim.
– Quero, mas não aqui.
– Não aqui. – Ele gemeu e me beijou. Puxei seus cabelos e ele gemeu forte. – Panteraaaaa!!!! Meu! Mais! Puxa e me morde, mulher!
– Brian! – Gemi e mordi seu pescoço.
                Mesmo vestidos, estávamos perdendo a cabeça. O meu corpo pulsava, minhas pernas tremiam. Eu sentia todo aquele calor, mas não conseguia controlar. O Brian mordia de leve e me lambia no pescoço. Puxava meu lábio inferior. Foi uma loucura sentir tudo aquilo com ele.
– O que fizemos! – Arfei quando ele sentou comigo no seu colo no sofá.
– Deliramos deliciosamente vestidos. – Ele gemeu e jogou a cabeça para trás. – Porra! Tô morto!
– Você é muito desbocado.
– Você não viu nada. – Ele sussurrou e rimos. – Isso nunca me aconteceu antes. Perder a cabeça assim com alguém tão rápido.
– Preciso me vestir.
– Ok. Preciso de um tempo sentado aqui sem me mexer. Pode ir segura usar o chuveiro que não tenho condições de sair daqui. Te juro, você está segura, pelo menos pelos próximos 10 minutos.
                Ri e me levantei para correr no chuveiro. O Brian ficava falando da corrida sem parar enquanto eu me banhava rapidamente sem molhar meus cabelos. Cheguei já de roupa trocada quando ele estava se levantando.
– Aí é sacanagem. – Ele disse quando me olhou. – Vestido, Pantera?
– O que tem?
– Não estou te olhando. Eu preciso esperar, porra! – Ele entrou no banheiro resmungando e rindo.
– Brian? – Chamei.
– O que? Não me diga que você está na porta, Sabrina. É testar demais o meu autocontrole.
– Estou no sofá. – Disse rindo. – Er... Será que acham que nós...
– Não estou nem aí para o que acham.
– Mas eu estou.
– Fica tranquila que cuido disso.  
                Ele não demorou nada a sair do chuveiro enrolado somente em uma toalha. Seu corpo era muito lindo, me fez suspirar e olhar para o outro lado. Éramos adultos e nos atraíamos, mas eu não estava nem um pouco confortável em perder a minha virgindade em um camarim de corrida. Saímos do camarim dele falando do ronco do motor e da preocupação com a temperatura, pareceu esfriar os olhos de todos que nos observavam. Eles estavam inicialmente certos de que sairíamos aos beijos, mas aos nos veem saindo de mãos dadas e falando profissionalmente a coisa pareceu que as ideias a nosso respeito mudaram. O portão do box já tinha sido abaixado para proteger o equipamento. Fizemos um lanche e resolvi que precisava ir embora.  
– Teremos uma big festa no hotel. Você vem, Pantera? – O Rafael me perguntou.
– Não sou de festa e amanhã preciso trabalhar. Divirtam-se.
– Vou te levar para casa. – O Brian disse e passou a mão pelo meu ombro.
– Boa festa para vocês. – Disse a todos.
– Panteraaaaaa! – A equipe gritou me fazendo rir.
– Você me paga! – Resmunguei com o Brian.
                Conseguimos sair sem muito alvoroço da imprensa, mas imaginei que as coisas poderia se espalhar e chegar nos ouvidos e olhos dos meus pais, assim como do pessoal do meu trabalho, não me decepcionei. Os meus pais estavam me encarando quando chegamos, mas o Brian foi logo dizendo que estávamos namorando realmente. Ele não queria me deixar mal, muito menos causar problemas. Eu sabia que ouviria, pelo menos a minha mãe. Eu era uma adulta vivendo com eles, tinha que arcar com isso.
                Na segunda, assim que coloquei os pés na oficina os caras me cercaram para saber se era verdade. Foi complicado trabalhar com todos querendo saber mais sobre os boxes, até o meu chefe. Não contei demais, mas foi o suficiente para dar corda para os papos do dia todo. Sempre que o meu celular tocava eles se chegavam para saber se era o Brian.
– Posso te buscar hoje? – O Brian perguntou quando atendi.
– Acho que não é uma boa ideia. – Sussurrei.
– Porque, posso saber?
– Até os caras aqui vão te cercar e acho que um repórter está sondando. Não sei como chegaram em mim, Brian. – Disse tensa.
– Eles sempre acham quem querem, é incrível.
– Por isso acho melhor...
– Vou te buscar, Sabrina. Me passa o seu endereço. – Ele pediu e dei. – Estou ansioso para te ver.
– Como foi seu dia? – Rosnei ao perguntar enquanto tentava soltar o parafuso de um motor.
– Agitado. Dei algumas entrevistas e me reuni com o chefe dos mecânicos. Ele está querendo propor umas mudança para o engenheiro chefe, acho que serão boas.
                Não pude ficar de papo, tinha trabalho a fazer, então combinamos de nos falar mais no final do dia e foi o que aconteceu. Pedi a ele para me esperar no carro e ele não discutiu, foi melhor. Eu não queria alvoroço no meu local de trabalho.
– Oi. – Ele disse e me segurou pelos cabelos para me beijar.
– Oi.
– Vamos sair daqui. – Ele sussurrou e pegou o trânsito. – Quer comer algo? Podemos ir a um restaurante.
– Não, me leva para casa. Estou cansada demais e não vim vestida para restaurante, Brian. – Disse olhando para as minhas roupas. Eu estava de jeans e uma blusa folgada.
– Você está linda.
– Você está cego.
– De paixão, Pantera.
– Mesmo assim, casa, ok?
– Hoje todo mundo estava se perguntando quem era você, mas apenas disse que era uma amiga. Achei que você iria querer isso. Por mim eu diria que estamos juntos, mas pela sua reação ontem não quis falar nada antes de conversarmos.
– Não sei o que é melhor, Brian. Não fiquei confortável com a reação dos meus colegas. Eles achavam que eu era lésbica, pelo amor de Deus!
– Lésbica? – Ele arfou com humor. – Você com todo aquele fogo que senti ontem?  
– Você foi o único que sentiu e presenciou aquilo. – Sussurrei sem graça.
– Gosto disso.
– Do que?
– Dessa palavra... Único.
                Chegamos a minha casa em tempo recorde, nem sei como. Não pegamos trânsito demais ou o tempo com ele era muito mais divertido do que no ônibus. Os meus pais não estavam em casa, então fomos para o meu quarto.
– Gosto de estar aqui. – Ele sussurrou e me beijou. – Também sou o único que veio aqui.
– É. – Gemi enquanto ele beijava o meu pescoço. – Estou suada, Brian.
– Te quero tanto, Pantera.
                Ficamos namorando, mas de pé e longe da minha cama, era mais seguro. Eu estava preocupada com uma chegada inesperada dos meus pais e resolvi mudar um pouco o assunto. Ele ficou impressionado com as apostilas impressas, estavam todas lá, inclusive os artigos que ele me enviou. Adorei saber que ele também tinha alguns que eu tinha enviado. Ele me questionou se eu manteria todos aqueles pôsteres e fotos que estavam pendurados na parede e não soube responder. Eu tinha o exemplar de carne e osso, mas tudo aquilo tinha uma história.
                Os meus pais chegaram quando estávamos discutindo sobre a sua postura no cockpit. Ele não reconhecia os seus erros e eu os apontava com fervor. Mostrei a ele como a sua postura estava errada, mas ele era arrogante e não cedia. Os meus pais tiveram que intervir antes que brigássemos feio.
– Não quero que a minha profissão seja motivo de briga entre nós. – Ele sussurrou ao me abraçar.
– Precisamos separar isso.
– Mas nos conhecemos no meio disso. – Ele lembrou rindo. – Sempre discutimos, Pantera.
– Vocês são terríveis. – Minha mãe brincou e ia sair do quarto quando o Brian a chamou. – Sim.
– Gostaria muito de convidá-los para jantar.
– Não sei, Brian... – Ela meditou e me olhou, mas viu o meu sorriso. – Vou falar com o seu pai. Você precisará mudar de roupa, filha.
                Eles aceitaram e fomos em um restaurante muito agradável. O Brian era divertido e encantador com todos, os meus pais gostaram muito dele, independente do seu dinheiro ou fama. Ele foi reconhecido e até deu autógrafos ao meu lado. Eu sentia como se estivesse sonhando, foram 48 horas mágicas. A minha mãe disse que o brilho nos meus olhos era o suficiente para eles, mas naquela mesma noite me disse que eu precisava mudar um pouco para acompanha-lo. Minhas roupas não eram para sair com ele, eram apenas para trabalho. Jeans em um restaurante como aquele não era o ideal e ela tinha razão. O Brian nunca me olhou atravessado, mas também imaginei que ele nunca seria grosseiro a esse ponto. Ele me conheceu como mecânica e não como um cabide de roupa.  
– Posso lhe ajudar? – Ouvi um dos mecânicos dizer enquanto eu encerrava um carro. Só faltava aparafusar o peito de aço.
– Gostaria de falar com a Sabrina. – O cliente pediu e estranhei.
– Aí! Sabrina. Cliente te procurando. – Um dos mecânicos chamou e bateu na lataria do carro.
– Saindo já. – Avisei e arrastei o carrinho onde eu estava apoiada. Tomei um susto quando vi o chefe da equipe do Brian. – Está tudo bem com o Brian?
– Ele está ótimo, embarcou para São Paulo agora a pouco, mas volta amanhã cedo. Me pediu para te avisar porque seu celular está dando fora de área, foi algo meio urgente... Acho que com o advogado que está vendendo a casa dele, não sei.    
– O Senhor veio aqui só para me dizer isso? – Questionei quando me levantei e fui limpar as mãos na estopa.
– Claro que não, apenas aproveitei que precisava vir e dei o recado.
– Então...
– Podemos conversar em algum lugar? – Ele perguntou quando viu os mecânicos nos olhando.
– Me dá 2 minutos?
                Estranhei muito aquela visita. Minha mente trabalhava acelerada enquanto eu lavava e escovava as minhas mãos. Vi os mecânicos cercarem o chefe da equipe e até o meu chefe também. Não dava para duvidar, o homem estava com uma camisa da equipe do Brian e atrás a indicação do seu cargo. O meu chefe nos cedeu seu escritório por alguns minutos e entramos.
– Vamos lá. – O chefe da equipe disse quando nos sentamos. – Conversei seriamente com o engenheiro chefe da equipe e ele ficou impressionado com a sua performance no final de semana. O chefe dos mecânicos também estava presente e contou como você lidou com tudo aquilo. O engenheiro está querendo conversar contigo pessoalmente amanhã à tarde, de preferência.
– Tenho que cumprir meus horários aqui, mas posso sair por volta das 4 da tarde se ficar até mais tarde hoje. – Disse tentando conter a minha animação. – Onde seria esse encontro?
– No hotel que estamos hospedados. – Ele disse e me entregou um cartão. – Te esperamos então a partir das 5 horas, está bom para você?
– O Brian está ciente disso?
– Ele não discute quando tomo uma decisão, mas está sim. – Ele me garantiu sorrindo. – Independente da sua relação com o Brian, nós estamos lhe vendo como uma mecânica de ponta, Sabrina. Sei que vocês se comunicam há anos, mas pelo que percebi, a coisa evoluiu e o meu piloto está caído pela mais nova membro da equipe. Ainda bem que vocês se conheceram antes.
– Ainda bem. – Concordei sorrindo.
                O meu chefe concordou em me liberar mais cedo já que tínhamos um banco de horas extras e eu poderia usá-lo. Os mecânicos me cercaram novamente querendo saber do que se tratava, mas os mandei rolar. Nunca se interessaram pela minha vida. Não era a primeira vez que um cliente procurava por mim. Eu era a mesma pessoa e nada tinha mudado, mas eles estavam ansiosos por informações. O meu chefe sutilmente me questionou se eu sairia da oficina, mas garanti que não. E tinha um contrato a cumprir, além dele, ainda tinha que cumprir pelo menos 6 meses dentro da autorizada por conta do curso que faria em pouco mais de 1 mês.  
– Alô. – Atendi o meu celular quando cheguei em casa. Ele tinha vibrado no ônibus, mas não pude atender porque estava em pé.
– Saudades, Pantera. – O Brian sussurrou.
– Brian. – Arfei e corri para o meu quarto. – O que aconteceu? O chefe da sua equipe disse que você teve que viajar.
– Estou tentando vender essa casa, é grande demais para mim, mas está uma burocracia chata, sabe?
– Grande?
– É. Meu avô me deixou de herança e eu até gostei, corri muito nesse quintal, mas é grande demais para um cara solteiro. Tem que manter um monte de empregados e nem uso. Eu tenho uma cobertura em São Paulo, mas você sabe que viajo muito. Para que manter isso? Não tem lógica e não entra na minha cabeça.
– Sei...
– Os meus pais estão em pé de guerra comigo, Sabrina.
– Por quê?
– Eles não querem que eu venda, mas também ficam me pressionando. Eles querem que eu me mude para Paris e fique lá com eles, mas a minha vida está aqui. Eu corro no Brasil, raramente lá fora.
– Pelo menos até você migrar para a Fórmula 1. – Sussurrei e me sentei na beirada da minha cama.
– Isso.
                Um frio percorreu o meu corpo naquela momento. Era fato que uma hora aquilo aconteceria e nós rumaríamos para cursos diferentes, eu não podia me apegar demais ao Brian. A minha vida e a minha família estava no Brasil e mal nos conhecíamos. Era loucura ficar sonhando com algo mais em tão pouco tempo.
– Entendo.
– O que você entende? – Ele me questionou.
– Nada. Acho que todo pai quer o filho perto, é natural.
– Cortei o cordão umbilical faz tempo, Sabrina. Não quero voltar para a casa dos meus pais, quero ter a minha vida e vivê-la como eu quiser, com quem eu quiser, nada mais do que isso. Eles não entendem de forma alguma e agora que descobriram que estou querendo vender essa casa estão me pressionando. A minha mãe liga todo dia, até disse que tem uma casa linda ao lado da deles e que iria encontrar com um corretor esta semana. Quando eu disse que não iria, ela disse que compraria e deixaria pronta para quando eu quisesse. Eu tenho um quarto, na verdade, uma ala da casa deles só para mim. Eles forçam uma barra. A minha mãe chora e meu pai fica puto. É um saco!
– Calma.
– Não consigo! Hoje o corretor que estava analisando a casa deixou escapar que conhece os meus pais. Já sei que terei que mudar de corretor. Não dá para ter a minha vida na mira deles, Sabrina. Já chega a mídia que não larga do meu pé. Só quero uma vida mais normal possível, é pedir demais?
– Claro que não.
– Eles vão querer saber por quanto vendi, para quem, como e por que. Vão revirar tudo pelo avesso. Tenho certeza de que essa burocracia é coisa deles.
– Posso dar uma sugestão?
– Fala, linda. – Ele me pediu manso.
– Aluga. Assim você tem um retorno com a casa, não fica pagando empregados, não tem dor de cabeça com a manutenção e deixa seus pais mais tranquilos. Você ainda continuará com a casa, sua mãe ficará feliz, você vive como quiser, vai na casa deles quando quiser... Sei lá. É uma sugestão. – Disse com a voz trêmula. Não consegui dizer mais nada.
– Pode ser. Vou pensar nisso. – Ele disse e riu. – Queria que você estivesse aqui. Tem bastante espaço para te ouvir dar aquele gritinho.
– Fomos loucos em ficar daquele jeito no seu camarim.
– Você fica linda quando perde a cabeça, Pantera. – Ele gemeu. – Quero ver de novo. Cara! Que calor que estou, Sabrina. Só de lembrar me deixa doido.
– Foi gostoso. – Disse baixinho, mas com muita vergonha.
– Será muito mais quando estivermos juntos, sem nada entre nós. Sem ninguém por perto te deixando mais tímida. Te quero muito, Sabrina. Você vai me fazer esperar quanto tempo?
– Por quê? – Questionei furiosa. – Acha que não consegue aguentar e vai arrumar outra para abrir as pernas para você? Uma daquelas modelos que fica desfilando nos boxes?
– Pantera!
– Cala boca, seu... Seu idiota!
– Mas...
– Nada de mas! Quer saber? Ainda bem que não cedi. Eu me odiaria pelo resto da minha vida!
– Ih... O que você tem, heim? Não é nada disso.
– É sim. – Resmunguei e fiquei andando pelo quarto.
– Estou há muito tempo sem mulher e nada é capaz de apagar esse fogo, mas desde que eu te vi, nenhuma masturbação apagaria o fogo que está aqui dentro de mim, porra!
– Não fala palavrão para mim!
– Falo o quanto eu quiser. – Ele gritou no telefone. – Você é minha mulher e vai me ouvir gritar muito palavrão quando eu estiver viajando contigo. Não aguento mais, Sabrina! Preciso de você desesperadamente, amor. Eu só te quero demais e isso está me deixando nervoso e ansioso, mas acho que sou o único assim nessa nossa relação. Você não me quer como eu te quero, não é? Fala logo, porra! Droga! Que merda! Você está me dispensando, Sabrina? Não acredito que vou tomar um fora pelo celular.
– Também te quero, Brian. – Sussurrei chorando.
– Não! Não chora... Droga! – Ele resmungou. – Eu explodi contigo. Desculpa. Hoje estou nervoso e acabei descontando na única pessoa que tem me feito feliz nos últimos anos.
– Eu sou apaixonada por você. – Sussurrei chorando quando me sentei no chão do quarto encostada na minha cama. – Eu só tenho medo, Brian. Estou insegura. É tudo novo pra mim. Nunca namorei assim e nunca deixei nada perto do que aconteceu no camarim acontecer comigo. Não quero me machucar e doeu muito ouvir você falando que só você sente tudo aquilo e eu não. Você é lindo, uma celebridade, sou uma mecânica que há poucos dias era só uma amiga virtual. É muita coisa para a minha cabeça.
– Desculpa.
– Além de eu ter você perto, ter me beijado e me feito sentir tudo aquilo, eu ainda tive toda aquela emoção com a equipe no final de semana. Eu só esperava passear pela rua dos boxes, não estar tão inserida. O seu chefe me quer junto do engenheiro vendo seu carro! A sua vida está naquela pista e tenho medo demais disso, Brian. Estou mexendo com coisas além da minha alçada, mesmo acreditando na minha capacidade. É muito dinheiro envolvido e a sua vida.
– Calma, Sabrina.
– E você ainda me pressiona achando que não sinto nada. Não sou um cubo de gelo!
– Você é um vulcão, Pantera. Meu vulcão. Minha fera. – Ele gemeu. – Eu sonho acordado com os seus gemidos e lembro de você se agarrando em mim, puxando meus cabelos e gritando. Isso me deixa doido, Sabrina. Nunca senti daquele jeito. Porra! Foi demais, caramba.
– Foi tão gostoso.
– Preciso de você. Porra! Tô doido aqui!
– Adorei sentir você tão perto.
– Loucura! – Ele gritou no telefone. – Não me tortura muito tempo. Preciso me sentir perto do seu corpo, Sabrina. Preciso de você.
– Não vou... Estou tão quente, Brian.
– Queria estar de conchinha agarrado contigo agora. Queria sentir meu cheiro em você toda, Panteraaa!!!
– Só tenha um pouco de paciência, tá?
– Estou tendo, mas vou querer ficar namorando assim pelo telefone todo dia para aguentar. Será a nossa preliminar, amor. – Ele brincou me fazendo rir.
– Ainda bem que estou sozinha em casa. Meus pais dão aula em uma faculdade bem longe daqui toda terça e dormem na casa da minha avó.  
– Estou pegando o avião! – Ele arfou. – Posso chegar em umas duas horas.
– Brian!
– Quero dormir contigo. Só dormir, prometo.
– Nem pensar! Está louco?
– Estou. Que ódio! Se não fosse esse mala do corretor poderíamos estar juntos aí agora. Eu poderia estar te tocando e não aqui nesse fogo todo me consumindo. – Ele disse e eu ri. – Não ri, não. Do jeito que estou e como ficamos no domingo, tudo poderia acontecer. Estamos em ponto de explodir a cabeça de tanto excitação. Estou errado?
– Não.
– Finalmente! – Ele vibrou com humor. – Ela confessou que me quer.
– Você sabe disso.
– Eu senti isso no domingo, mas te ouvir gemer, chamar meu nome e agora confessar, não tem preço. – Ele brincou e ri. – Preciso de um banho. Você está me devendo mais uma calça.
– E você uma calcinha.
– Eu preciso desligar, Pantera. Preciso desesperadamente de um banho frio. Acho que vou mergulhar na piscina nu! Não sei como vou conseguir ficar aqui sabendo como você está. Volto para o Rio hoje. Não dá para ficar aqui, porra!
– Amanhã nos veremos às 5. Foi o que combinei com o Chefe da equipe. Ele me disse para encontrar no hotel e me deu o endereço.
– Só te verei amanhã a noite? Maldade.
– Eu preciso trabalhar e você deve ter o que fazer também.
                Depois de um banho demorado, o Brian me ligou novamente. Ele me pediu o e-mail de um programa de conversação e ficamos nos vendo pela câmera pela primeira vez. Foi divertido. Ele passeou pela casa e vi que era linda e enorme. Tentamos ao máximo manter a conversa mais calma para não nos excitarmos novamente. Era quase meia noite quando ele foi para o quarto e colocou o note ao seu lado. Era como se estivéssemos deitados juntos. Naquele momento o Brian se mostrou carinhoso.
– Tem horas que você é tão desbocado, mas agora me olhando assim é tão gentil.
– Qual Brian você prefere? – Ele perguntou com um sorriso tímido.
– Os dois.
– Quando a adrenalina corre nas veias eu não consigo segurar a minha língua e você me faz despejar litros de adrenalina no meu sangue, mas agora, te vendo assim tão linda deitada na cama me faz... Me dá um paz. Queria poder ficar só assim contigo, te olhando e fazendo carinho. Apesar de ter um fogo incrível por você, agora eu só queria ficar assim te tocando. Me deixa dormir contigo? Deixa a câmera ligada a noite toda. Quero acordar contigo.
– Deixo.
– Boa noite, minha Pantera. – Ele sussurrou quando eu fechei meus olhos.   
                Sonhei com o Brian aquela noite também. Quando acordei ele estava lá me olhando da mesma forma como eu dormi. Ele sorriu e disse que eu falei a noite e disse seu nome. Foi constrangedor, mas ao mesmo tempo doce. O Brian tinha um temperamento instável, explosivo e romântico ao mesmo tempo. Tomamos café juntos e nos despedimos antes das sete da manhã, eu precisava trabalhar, ele voltou a dormir. O meu dia começou mais leve e feliz.
                Recebi o torpedo do Brian avisando que estava voando para o Rio por volta das duas horas, me deixou tão ansiosa que nem consegui almoçar. O que tínhamos feito na noite passada não saía da minha cabeça. Quando deu 2 e meia me arrumei para poder encontrar com o Chefe da escuderia e o engenheiro, além do Brian. Precisei tomar 3 ônibus para chegar lá, foram mais de 2 horas e meia de viagem em um calor infernal. Precisei me secar e me recompor antes de entrar naquele hotel e me informar de como encontrar com o Francisco Lopes.
– Sabrina? – Ouvi me chamarem e vi o Brian entrando no hotel com uma mala.
– Oi. – Sorri ao dizer e ele se aproximou.
– Você está bem? – Ele perguntou ao encostar a mão no meu rosto.
– Hoje está um calor infernal na cidade e peguei o último ônibus sem ar condicionado. – Resmunguei e ele fechou a cara.
– Você veio de ônibus? Não me responde, porra! – Ele rosnou baixo olhando nos meus olhos quando o Francisco Lopes se aproximou. O Brian o encarou de uma forma que nunca vi. – Você não mandou um carro busca-la? Deixou a minha mulher vir de ônibus até aqui, porra?
– Brian. – Chamei tocando no seu peito e senti o Francisco Lopes me encarando sem entender nada.
– Fica quieta, Pantera. – Ele sussurrou olhando frio. – Depois nos acertamos. Vamos subir agora! Não acredito nisso. 
– Você não tem carro? – O Francisco Lopes me perguntou enquanto nos seguia e eu apenas neguei com a cabeça. O Brian me puxava sem me deixar reclamar.
– Não acredito nisso. Se a imprensa sabe que a minha mulher está andando de ônibus vai cair matando.
– Você está preocupado com isso? – Questionei quando entramos no elevador e ele me encarou. – Idiota! Não tenho vergonha de ser o que sou, ok? E da próxima vez que você me olhar daquele jeito ou falar comigo assim na frente dos outros, vou te deixar falando sozinho e você nuca mais me vê, entendido?
– Ih...
– Só estou aqui porque mantenho a minha palavra e vou encontrar com o engenheiro chefe, senão ia embora.
– Ia nada! – Ele rosnou para mim.
– Você me conhece, então nem tenta!
– Calma, gente. – O Francisco Lopes nos pediu.
– Você fica na sua! – O Brian avisou apontando para ele. – O que você tinha nessa merda de cabeça, heim? Porra... Minha mulher cozinhando em um ônibus.
– Três. – O corrigi.
– Três? Você pegou três ônibus, Pantera?
– Peguei e daí? – Questionei. – A maioria da população desse país faz isso. Nem todo mundo tem um mundo de dinheiro para ter um carro em cada cidade do mundo!
– Cala a boquinha, garota marrenta. – Ele debochou.
– Idiota!
– Vocês 2 se merecem. – O Francisco Lopes saiu do elevador e seguiu andando pelo corredor. Tentei segui-lo, mas o Brian me parou.
– Aonde você vai?
– Para a reunião, ora.
– Você vai para o meu quarto. Eles nos encontram lá. – Ele disse me puxando pela mão novamente.
                Se do lado de fora do quarto o Brian parecia irritado, quando entramos foi muito pior. Eu não conseguia entendê-lo. Todo mundo andava de ônibus, não era nada demais, mas para ele parecia o fim do mundo. Ele ficava me questionando até que me estourei dizendo que não ia aceitar que ele mandasse na minha vida e nem que colocasse regras. Era um absurdo. Eu não estava nem aí para a imprensa como ele estava, aquilo também me irritou. Nos encarávamos o tempo todo. Não dava para entender como tudo tinha mudado de repente. Eu estava tão ansiosa para vê-lo, naquele momento eu só queria esganá-lo.       
– Eu não te entendo, Pantera! – Ele gritou comigo. – Só quero cuidar de você.
– Não preciso de você! Não preciso de ninguém.
– Mas eu preciso de você, porra! – Ele gritou me encarando.
– Sei me cuidar sozinha, Brian.
– E daí? O que tem demais eu querer o melhor para a minha mulher? O que tem demais nisso? Namorados fazem isso, sabia? Não... Você não sabe, né?
– Agora você pegou pesado. – Murmurei me sentindo triste.
– Merda!
– Não chega perto de mim. – Avisei quando ele deu um passo.
– Chego sim e te abraço. – Ele sussurrou no meu ouvido depois de me ter entre seu braços. – Enlouqueci, Sabrina. Você é minha mulher e só quero o melhor para nós. Não gostei nada de saber que enquanto eu estava no fresquinho daquela porra de carro que a escuderia sempre manda para me buscar, a minha mulher estava enfrentando 3 ônibus para chegar aqui. Será que é tão difícil para você entender como me senti?
– O problema é como você fala, Brian. – Gemi quando o abracei forte.
– Enlouqueci, Sabrina.
– Tudo bem, amor. – Gemi e o apertei. Ele me abraçou forte.
– Acho que é a primeira vez que você me chama de amor.
– É apenas o que você é para mim.
– Imaginei tudo tão diferente para quando nos encontrássemos. – Ele disse olhando nos meus olhos e me beijou. – Pensei em chegar e mandar subir algo para comermos.
– Isso seria ótimo. Não almocei hoje.
– Por quê? – Ele questionou sério.
– Eu estava ansiosa por te ver.
                A suíte dele era imensa e só naquela hora pude reparar. Tinham vários ambientes e era linda. O Brian realmente sabia como era viver bem e não se preocupar com os problemas normais da vida de um assalariado. Éramos completamente diferentes, mas tentei suprimir aquela impressão. Ele me levou até um banheiro enorme e me refresquei um pouco enquanto o nosso lanche subia, como ele disse. Devoramos. O Brian também não tinha almoçado como eu, mas por outros motivos. Ele precisou sair para tentar resolver a questão da casa e me contou que acataria a minha sugestão. Os seus advogados cuidariam disso assim que conseguissem parar a documentação que estava tramitando. Ele disse que uma pessoa tinha ficado interessada e pediu o levantamento de tudo relativo a casa, mas como não venderia mais, não precisava de todos aqueles documentos. Eu não entendia muito de cartórios e documentações, mas o ouvi atentamente.
– Vem comigo. – O Brian disse depois que ficarmos alguns segundos nos olhando.
– Onde?
– Para a minha cama. Preciso te olhar como ontem. Juro que vou me esforçar muito e não rasgar a sua roupa. – Ele brincou.  
                Ficamos nos olhando por alguns minutos em silêncio, até que ele tocou no meu rosto e disse tudo o que sentia por mim, também abri o meu coração. Ele tentou me explicar com calma como se sentiu realmente ao me ver. O Brian se sentiu pequeno, impotente e injusto, mas não era nada disso. Foi complicado para ele entender que aquela era a minha vida. O Brian apenas dizia “não é mais.”, várias vezes seguidas. Nos comprometemos em nos esforçarmos em manter a calma.
                Apesar de termos visto pessoalmente apenas há poucos dias, nos conhecíamos bem. Ele era o Fabrício para mim, sempre seria de alguma forma por mais que ele reclamasse quando eu errava o seu nome. Ainda não entrava realmente na minha cabeça que eu estava namorando uma celebridade.
                Eu sentia a temperatura no quarto subir conforme ele me tocava e nos aproximávamos mais, até que nos beijamos.
– Seu corpo... É meu, Pantera. – Ele gemeu quando se deitou sobre mim. – Você é minha.
– Ah! Brian! – Gemi quando ele beijou o meu pescoço.
– Preciso sentir a sua pele. – Ele sussurrou e passou a mão por baixo da minha blusa. – Calor... Você é um vulcão de quente, Pantera.
                Arfei quando ele chegou aos meus seios, mas não o impedi. O toque dele me fazia delirar e arrepiar. Era um toque firme, mas gentil. Quando ele beijou a minha barriga, quase explodi.
– Ah! Brian.
– Eu mereço esse sofrimento. Vou te merecer, Sabrina. – Ele sussurrou e continuou a me beijar. – Juro que não vou avançar o sinal.
                Ele estava me enlouquecendo quando ouvimos a campainha. Nós tínhamos esquecido do nosso compromisso e tivemos que nos recompor rapidamente. Ele foi atender a porta enquanto eu jogava uma água no rosto e inspirava fundo. Eu precisava me controlar.
                O engenheiro chefe deveria ter em torno de trinta anos e era muito bonito, além de ter um sotaque italiano que deveria deixar as meninas malucas. Ele era bem alto, muito mais que eu, mais que o Brian, mas não tão imponente. Ficamos nos encarando até o que o Brian me abraçou pelas costas.
 – Amor. Esse é o nosso engenheiro chefe. Ele projetou aquele motor.
– Muito prazer, Sabrina. – Disse ao engenheiro.
– Pantera, não é? – Ele perguntou com humor e eu assenti sem graça. – Muito prazer, sou Fabrício.
– Oh... – Arfei e olhei para o Brian. Eu teria que me policiar muito depois daquela revelação.
– É um prazer conhecer a mulher que quase me colocou na rua. – Ele disse com humor, mas não entendi. – O Brian sempre vinha com sugestões e queria discutir algumas coisas quando estávamos projetando. Quando deu aquele problema de aquecimento... Foi você, não foi? Você que falou sobre a junta.
– Foi.
– Quase perdi meu emprego. – Ele brincou me deixando sem graça.
– Vamos ver o que você preparou? – O Brian perguntou quando ficou um silêncio um tanto constrangedor naquela sala.
                O Francisco Lopes nos indicou uma mesa grande de jantar para abrirmos a planta do motor e ligar o notebook do Fabrício. Seria complicado pensar em um nome e ver outra pessoa sem ser o Brian. Ficamos mais de 2 horas discutindo o melhor caminho para resolver o problema de aquecimento e rendimento do carro de uma vez. Segundo o Fabrício, o comportamento do piloto era importante, mas o carro deveria rodar certinho, coisa que não estava acontecendo. Ele era muito inteligente, mas me elogiou quando contei que não tinha faculdade, mas estudava tudo que podia. O Brian observava tudo quieto, conversando apenas com o Francisco Lopes, nos deixando pensar.
– Uma vez um carro chegou na oficina com super aquecimento. Olhei tudo várias vezes. Coloquei o carro para acelerar e nada aparecia, mas era só o cliente tirar o carro na oficina e voltar menos de 10 minutos depois com a temperatura lá em cima. Custou, mas descobri o que era.
– Junta. – O engenheiro deduziu e ri.
– Seria fácil, mas não era. Quando o eixo do motor começava a girar, toda a estrutura trepidava mesmo com os calços novos que eu tinha trocado, mas havia uma parte do motor, bem atrás que estava com uma folga mínima e era por ali que estava o problema. Esse motor é perfeito, parabéns. – Disse sorrindo e ele sorriu de volta inclinando a cabeça. – Mas pode ser que haja algo no projeto que não foi seguido fielmente. Estou apenas tentando encontrar as possibilidades. Você me mostrou o 3D do motor, mas é uma imagem virtual, eu gosto de tocar e sentir nas minhas mãos para saber realmente o que estou pegando.
– Porra, Pantera. – O Brian resmungou depois de se engasgar fazendo todos nós rirmos.
– Olha a boca. – Resmunguei rindo.
– Continua, marrenta.
– Então... Conforme você ia me explicando, Fabrício. O motor rende bem e mantem a temperatura em laboratório, roda redondinho e apresenta todos os resultados esperados, mas quando vai para a pista ferra tudo. A junta é trocada, ele vai bem até que começa a aquecer. Sabemos que o comportamento do piloto acelera esse pico do gráfico quando se aproxima de algumas curvas mais fechadas, curvas que exigem uma aceleração elevada logo a seguir, certo? – Questionei.
– Até agora você não me disse nada.
– Acompanha o meu raciocínio. – Pedi e ele se recostou para ouvir quando eu me levantei e comecei a andar pela sala. – Duas partes do motor, junta entre eles, mas além disso tem esse encaixe por onde entra a água de resfriamento. Ele tem um encaixe teoricamente perfeito segundo o seu projeto e o 3D. Todas as mangueiras foram trocadas, assim como as braçadeiras, então as descartamos. Pressão extrema na curva, meio milímetro de folga que seja por mais torque que se dê, a resfriação vai embora! O motor aquece, perde rendimento e vai ladeira abaixo. Na pista o carro está em constante vibração. O Adrian chega exausto, mas não deveria àquele nível que vi no domingo. Ou o problema está na suspenção ou em alguma vibração vinda do motor. Acredito que essa poderia ser uma pista do que realmente está acontecendo.
– Incrível. – O Fabrício murmurou. – Você é 10 mesmo. Sua lógica é incrível.
– É uma teoria.
– Plausível.
– Minha mulher é incrível. – O Brian disse ao me abraçar pelas costas e beijar o meu rosto.
– Obrigada, amor. Espero estar ajudando. – Disse e ele me beijou.
– O carro ainda está no Rio? – O Fabrício questionou ao Francisco Lopes e esse assentiu. – Vamos ver isso amanhã então, Pantera?
– Er... Não posso. Usei as minhas horas extras hoje. Amanhã preciso estar na oficina.
– Sábado?
– Pode ser.
– Eu pensei em você vir comigo para São Paulo. Tenho uma série de eventos para cumprir. – O Brian comentou comigo.
– Você tem uma corrida em menos de 15 dias, amor. Precisa estar com o carro perfeito. Isso é mais importante que um evento, não acha?
– Pegou pesado. – O Francisco Lopes disse ao fingir tossir nos fazendo rir.
– Tentarei me livrar de tudo o quanto antes. – O Brian me prometeu.
– Até sábado o motor estará fora do carro para adiantar a nossa vida, Sabrina. Vamos descobrir o que está acontecendo.
– Vamos. – Disse ao apertar a sua mão.
– Ah. Já ia esquecendo. – Ele disse e me entregou um envelope. – O chefão mandou te entregar. Como você fez parte da equipe no box no sábado e no domingo, tá aí.
– Er... Obrigado? – Agradeci parecendo uma pergunta mesmo sem olhar o montante.
– E vem mais pela frente. Ele já está sabendo que você está me auxiliando nisso tudo e você receberá os honorários. Ele acha que você é engenheira e vai receber assim. Não há necessidade de mudar isso porque você está fazendo esse papel brilhantemente. Um diploma não está te fazendo falta e pelo que vi hoje, acredito que você está no caminho certo.
– Estamos.
– Isso aí. Faremos uma boa equipe e se tudo der certo, posso contar contigo em outros projetos?
– Será um prazer.
– Combinado. O Francisco Lopes me passará seus contatos para combinarmos tudo. Ainda preciso ver um local seguro para trabalharmos sem a imprensa ficar sabendo.
– Seria um desastre se vasa que o carro de Brian Portman está com problemas sérios. Isso pode afetar o patrocínio e o comprometer o campeonato. Precisamos do dinheiro deles para manter o nível da equipe. – O Francisco Lopes resmungou e entendi a importância de manter o sigilo.        
                O Brian foi leva-los até a porta sozinho, o meu celular tinha tocado. A minha mãe estava nervosa, falando sem parar e eu não entendia quase nada. O ex-namorado da neta de uma vizinha tinha ido atrás dela e pelo que entendi a situação ficou realmente feia. O meu bairro era relativamente tranquilo, mas pelo visto, nem tanto.
– Mãe! Que isso! – Arfei quando liguei a TV e vi a imagem no noticiário.
– Nós tentamos ir para casa, mas a polícia fechou a rua. – Ela comentou enquanto eu lia a barra inferior da tela onde dizia que a polícia estava negociando com o sequestrador. – Estamos te ligando há mais de meia hora, Sabrina. Eu não sabia se você já estava indo para casa ou não! Você devia ter colocado o telefone do seu lado!
– Calma, mãe.
– Como calma? Eu nem sei direito onde você está! Como ia te encontrar, filha?  
– Eu sei. Eu coloquei para vibrar...
– Não importa! Deixa essa droga contigo! – Ela disse chorando. – Eu já estava imaginando que você poderia estar em casa e presa lá.
– Onde vocês estão?
– Viemos para a casa da sua avó. Vou ligar para a sua tia Lúcia e ver se você pode ficar lá, mas o seu pai disse que se você quiser podemos te buscar.
– Daí para cá é longe, mãe. Eu pego o ônibus e vou para a casa da tia Lúcia, não tem problema.
– Você fica aqui. – O Brian disse e quando me virei ele estava olhando para a TV.
– Brian está contigo? – Minha mãe questionou.
– Estou no hotel dele, mãe. A reunião foi aqui. – A lembrei.
– Ah, filha... Acho melhor você não ficar aí. Seu pai ficará louco se imaginar que você está aí sozinha com ele. – Ela sussurrou.
– Que isso, mãe. Sei me cuidar. – Sussurrei. – Não sou doida, tá?
– Eu confio que você sabe os seus limites com ele, Sabrina. Apenas me diga o que você fará.
– Vou ficar. – Disse depois de alguns segundos olhando para o Brian. – Amanhã eu vou direto para a oficina. O Brian me leva.
– Com certeza. – Ele confirmou olhando nos meus olhos.
                Eu estava bem nervosa com tudo aquilo, mas o Brian me passava a segurança que nunca pensei ter. Ele se sentou ao meu lado e contei o que a minha mãe tinha dito, também que aquilo nunca tinha acontecido. Já passava das 8 horas e eu precisava tomar algumas decisões. Eu não poderia voltar para o trabalho com a mesma roupa. Ela estava suada e eu precisava de roupas limpas. Depois de uma discussão breve de quem ia pagar pelas roupas, o Brian me levou a um shopping para comprar uma calça jeans, uma blusa e lingerie. Jantamos por lá também, mas dessa vez ele pagou. O Brian estava furioso comigo porque não o deixei pagar pelas compras, mas era pouco e não teria problema. Ele ainda resmungava que era um absurdo e que namorados cuidavam de suas mulheres quando chegamos à suíte. As minhas roupas foram enviadas para a lavanderia e seriam entregues antes de dormirmos.
– Você se incomoda de usar um moletom e uma blusa minha enquanto as suas novas não chegam?
– Não. – Disse rindo quando ele fechou a cara e cruzou os braços.
– Já que você não me deixou te comprar algo para dormir, pode usar a minha da equipe mesmo. – Ele disse e me entregou a blusa, mas ficou me olhando. – Ficará grande o suficiente para cobrir até a metade da coxa. Você quer tomar um banho agora?
– Pode ser.
                Eu usei as coisas pessoais dele e fiquei cheirando a Brian, gostei. Ele sorriu quando saí do banheiro só de camisa e nada mais, mas nem chegou perto de mim. O Brian estava respeitando a minha decisão. Aproveitei para ligar para os meus pais e garantir que eu estava bem. Dei o número de onde eu estava e o endereço.
– Confortável? – O Brian me perguntou quando saiu do banheiro apenas de cueca box preta. Prendi a minha respiração quando vi.
– A sua cama é muito confortável. 
– Nossa cama. Vamos dividir. – Ele sorriu ao dizer. – Quer ver um filme?
– Pode ser.
                Ele se sentou ao meu lado e pegou o controle. Era uma comédia romântica interessante. O Brian apenas ria e me olhava de lado, mas não se chegava demais. Eu ansiava pelo seu toque. Queria me aconchegar nele, mas nunca daria o primeiro passo, apenas fiquei quietinha, deitada vendo o filme.
– Gostou? – O Brian me perguntou quando se deitou e olhou para mim.
– Gostei.
– Parece que estou sonhando. Você está aqui comigo. – Ele sussurrou e tirou uma mecha de cabelo do meu rosto.
– Você é tão bonito. – Sussurrei ao olhar seu peito nu.
– Você é tão linda. – Ele sussurrou e me beijou.
                Aos poucos fomos nos aproximando e quando menos eu esperei, suas mãos tocaram na minha coxa. Eu tremia, estava tensa e excitada.
– Sonho. – O Brian gemeu na minha boca.
– Por que estou tão nervosa?
– Por que você está lutando contra o desejo ao contrário de mim. Te quero muito, Sabrina. Juro que não é algo de momento, te quero de verdade.
– E se eu me arrepender? Se você amanhã for embora e eu ficar como uma idiota apaixonada chorando por você? – Perguntei olhando nos seus olhos.
– Só saio da sua vida se você me mandar embora. – Ele rosnou e me beijou com desejo. – Sou louco por tudo que gira em torno de você, Sabrina. Seu corpo, sua mente. Ah! Pele macia... Minha... Toda minha!
                Ele ficou me acariciando sem parar e eu me arrisquei a fazer o mesmo por ele. Eu estava nervosa, mas seu corpo e seu cheiro me davam forças.
– Me deixa te olhar. – Ele sussurrou, levantou a minha blusa e a tirou. Fiquei nua naquela cama enorme.
                Sua boca quente percorria os meus seios, suas mãos o meu corpo. Senti o peso do seu corpo quando ele se deitou sobre mim.
– Te prometo ser gentil, paciente e te amar nessa cama, Sabrina. Prometo que serei somente seu e de mais ninguém enquanto você me quiser na sua vida. Nunca te trairei e confiarei cegamente em você, em seus gestos e palavras. Te prometo o mundo e o futuro, tudo que você quiser de mim terá, não importa o que seja, quando e onde. Me deixa te fazer minha, Sabrina. – Ele pediu olhando nos meus olhos. – Preciso me sentir em você.
– Tenho medo... Vai doer. Dizem que dói.
– Você está tão linda... Juro que farei de tudo para você não sentir dor.
– Ok.
– Estou saudável, você viu os meus exames. Você toma algo?
– Algo?
– Anticoncepcional.
– Tomo para controlar o fluxo. – Disse e ri ficando sem graça, mas ele gemeu.
– Vou estar nu contigo, amor. Nunca fiquei nu com uma mulher antes, só desejo isso contigo, Sabrina.
A inexperiência era algo estranho, mas de alguma forma ele não parecia decepcionado comigo. O Brian era carinhoso comigo, mas eu via o fogo o consumindo assim como me consumia. O prazer de tê-lo o mais perto possível era algo que eu ansiava.
– Você está fervendo, meu vulcão. – Ele disse quando nos tocamos.
– Brian!
– Devagar... Controle-se... Controle-se, Brian... Ela é importante para você... Ame a sua Pantera. – Ele sussurrava com os olhos fechados e fechei os meus também para senti-lo intensamente. – Olhe para mim, amor. Minha... Único. Sou seu único, não sou?
– Único, Brian.
                Foi incrível. Ele foi incrivelmente carinhoso e paciente o tempo todo. Nunca me senti tão feliz em toda a minha vida e saber que aquele momento aconteceu com a pessoa que amei por tanto tempo e também o meu melhor amigo só fez da noite mais perfeita.
– Olha para mim. Você está bem? – Ele perguntou preocupado.
– Estou feliz contigo.
– Também estou. – Ele disse e me beijou. – Vamos tomar um banho e depois dormir um pouco.
– Um pouco?
– Ainda preciso de mais de você, Pantera. – Ele sussurrou no meu ouvido. – Até o amanhecer eu vou decorar cada centímetro de você.
                Quando levantamos vi uma pequena mancha de sangue no lençol e resolvi lavá-lo. O Brian resmungou, mas eu não passaria a vergonha de ter aquele lençol enviado para a lavanderia daquele jeito. Ele riu e acabou concordando. Senti um incômodo ao andar, mas era tudo suportável, a sensação de prazer e felicidade superava tudo. O Brian me banhou debaixo do chuveiro e depois fomos para uma banheira. Eu nunca tinha estado em uma e ele me disse que era para ir acostumando. Quando voltamos para a cama me aconcheguei nele e pude finalmente relaxar.
– Te adoro. – Ele sussurrou no meu ouvido e me aconcheguei sonolenta.
– Também.
– Vou te fazer a mulher mais feliz do mundo, Sabrina... Minha Pantera.
– Você nunca vai esquecer, não é?
– Quando eu estiver muito feliz, tenso, delirando de prazer ou p... da vida contigo, você será a minha Pantera, mas em todos os outros você é a minha Sabrina, a minha mulher, entendeu?
– Uhum.
– Você me desperta, amor.
– Só quero ser suficiente para você e nunca te envergonhar. – Gemi e me encolhi ao seu lado para revelar meus medos. – Não sou como aquelas Barbies dos boxes.
– Barbies? – Ele perguntou rindo e lhe dei um tapinha no peito de brincadeira. – Ei. Não se preocupe. Se eu quisesse uma Barbie era só estalar os dedos, quero uma fera selvagem que me fazer gritar quando o prazer me domina. Quero um vulcão mulher que me faz ferver. Quero você.
                Ele me agarrou e antes mesmo de eu dizer algo o Brian já estava sobre mim. Ele parecia insaciável, mas não reclamei. Sonhei anos com aquele corredor lindo que ficava pendurado nas minhas paredes. Sorri e me diverti demais com aquele amigo na internet, discutindo, rindo, competindo e trocando informações. Brian era tudo junto. Ele era perfeito e no momento era só meu.
                Quando amanheceu, depois de um banho com direito a mais sexo e um café da manhã de matar, o meu namorado me levou para o trabalho. Ele me convenceu a ir com uma das suas blusas da escuderia que ficou meio justa no peito ao invés da que eu tinha comprado. Me senti mais feliz quando ele disse que eu ficaria com seu cheiro entranhado no meu corpo o dia todo e ele sentiria o mesmo.
– Venho te buscar às 5. – Ele me disse quando chegamos a oficina e me levou até a porta que ainda estava meio abaixada.
– Não precisa, amor. Eu pego um...
– Shhh. – Ele me calou ao colocar dois dedos nos meus lábios. – Estou no Rio e faço questão. Assim também podemos namorar um pouco antes de eu ter que ir para o jantar com o representante do patrocinador. Temos que discutir o nosso contrato para o próximo ano.
– Achei que você iria para a Fórmula 1. – Comentei e olhei para o outro lado. Aquilo martelava na minha cabeça.
– Não. Ficarei mais um ano na minha categoria e aqui no Brasil. – Ele sussurrou no meu ouvido e eu o olhei. – Sei que você se preocupa com isso, com eu ter que ir, mas não vou aceitar nenhuma proposta por mais um ano pelo menos.
– Achei...
– Que era a minha ambição e é, mas... Quero ficar aqui contigo, Sabrina.
– Não quero ser um empecilho para a sua carreira, Brian.
– Vem cá! – Ele resmungou e me puxou de volta para o carro. Assim que entrou pegou a minha mão e me fez tocá-lo. – Sente isso aqui. Sente como meu coração está acelerado só em pensar na nossa noite. Estou parecendo desapontado ou um mínimo arrependido da minha decisão de ficar mais um ano pelo menos no Brasil para ficar contigo e correr por aqui?
– Isso não...
– Eu tomei essa decisão antes de nos encontrarmos, Sabrina. Marquei a reunião com ele no dia em que você me deu o seu número. Eu sentia algo me segurando aqui. A chance de ir para outra categoria existe e fui sondado, mas nada solidificado, amor. Pode acontecer ou não, mas eu preciso estar aberto a isso, coisa que realmente não estou.
– Esse tempo todo eu tive medo de você me dizer que estava indo embora quando terminasse a temporada. – Confessei.
– Quero que a partir de agora você me diga exatamente como se sente, Pantera. Somos um casal, estamos juntos e precisamos ser sinceros um com o outro, senão ficamos vulneráveis.
– Vulneráveis?
– A imprensa logo descobrirá que estamos juntos e eles não cruéis. Querem notícia a todo custo.
– Lembro de ler quantas mulheres você teve.
– Não saí com aquelas mulheres todas, amor. Saí com algumas sim, mas não aquele montante todo. – Ele comentou casualmente e meu sangue ferveu. – Calma, amor. É passado, você é meu presente.
– Não quero entrar nesse assunto, ok?
– Tudo bem. Só te peço que seja sincera comigo em relação a tudo, ok?
– Ok.
– Me liga se precisar de algo. Estarei o dia todo resolvendo umas coisas que ficaram pendentes aqui, mas o celular estará sempre aberto para a minha mulher.
– Ok. Eu não vou sair da oficina.
– E na hora do almoço?
– Não sei, não pensei. Talvez mande entregar algo. Sei lá. – Dei de ombros e o beijei.
– Te adoro, Sabrina. – Ele disse e me beijou.
– Também.
                Cada vez que eu me abaixava para pegar algo ou me apoiava para olhar dentro de um motor, sentia o incômodo na minha barriga. Meu corpo lembrava de como e quantas vezes o Brian esteve dentro de mim desde a noite passada e aquilo me fazia sorrir. Os meus colegas ficavam perguntando se eu tinha visto o passarinho verde, mas eu apenas ignorava e tentava me concentrar no meu trabalho. Na hora do almoço pensei em ir a uma pensão perto, mas recebi um almoço maravilhoso diretamente de um grande restaurante enviado pelo Brian. Minutos depois ele me mandou um torpedo dizendo que estava pensando em mim e que era para aproveitar o almoço. Foi engraçado.
                O Fabrício, engenheiro chefe, me ligou no final da tarde avisando que as indicações que eu tinha feito tinham sido bem recebidas pela sua equipe, e que eles já estavam trabalhando para na retirara do motor. Disse que tinha enviado um e-mail com o endereço do local onde eles estavam trabalhando para onde eu deveria ir no sábado.
                O Brian teve que viajar na sexta depois que almoçamos juntos, mas prometeu voltar o quanto antes. Não conseguimos ficar juntos desde a noite de terça, mas ele estava ansioso por mais de mim. Trocávamos mensagens o dia todos, assim como fazíamos antes de nos conhecermos pessoalmente. Todas as noites dormíamos juntos nos vendo pela câmera. Sempre que podíamos, ficávamos no celular. Só andei de ônibus quando ia para o trabalho, na volta ele me buscava.
                O montante pago pelos meus 2 dias na escuderia foi mais que eu ganhava o mês todo na oficina e me chocou, mas aceitei. Eu realmente tinha trabalhado duro e merecia ser paga. O cheque foi direto para o banco inaugurar uma poupança, era o pontapé inicial para a minha própria oficina.
– E aí, Pantera! – O Fabricio disse quando abri a minha porta no sábado de manhã para ir encontrar a equipe.
– O que você está fazendo aqui? – Perguntei com humor.
– Lembrei que você não tem carro, então vim te pegar. – Ele disse com aquele sotaque charmoso e chegou atenção dos vizinhos que passavam voltando da padaria.
– Ok. Como estão as coisas na oficina?
– Tudo perfeito só nos esperando para começar a trabalhar.
                Fomos conversando até o local da oficina improvisada, pelo menos era o que eu pensava. No galpão tinha uma área enorme pronta com elevadores e tudo. Fiquei pasma, mas era muito dinheiro envolvido, eles podiam. Eu nunca tinha visto tamanha tecnologia, mas tentei passar uma segurança. Eram cerca de 15 homens trabalhando ao mesmo tempo e eu. Até o chefe da escuderia, o Francisco Lopes, apareceu para ver como estávamos. No sábado fizemos praticamente um raio-X do motor e encontramos algumas falhas mínimas. Contei tudo ao Brian quando cheguei em casa e ficamos na câmera até dormir. No domingo conseguimos fazer a modificação bem cedo para dar tempo de testar. Às 4 e meia um piloto reserva fez o teste no mesmo autódromo da corrida para verificarmos. Fiquei no rádio orientando de forma que parecesse o Brian na pista e deu certo. Foi uma vitória depois de tanto trabalho.
                Os meus pais tinham gostado muito do Fabrício. Ele chegou a entrar na minha casa no sábado a noite e foi me buscar novamente do domingo de manhã e eles puderam conversar um pouco mais. Ele exagerou nos elogios sobre mim e comentou que estaríamos trabalhando novamente em outros projetos. Estávamos comendo uma pizza na noite de domingo na cozinha quando meu mundo tremeu.
– Oi, Brian. Entra. Estamos comendo uma pizza. – Ouvi meu pai dizer quando foi atender a porta.
– Brian! – Arfei e fui abraça-lo. – Achei que você só chegaria amanhã de manhã.
– Percebi. – Ele disse meio seco no meu ouvido.
                Senti a tensão no ar quando ele apertou a mão do Fabrício e pediu um relatório sobre como foi o andamento dos trabalhos. Eles acabaram indo para a sala conversar enquanto eu ajudava a minha mãe a guardar as coisas. Ela ficou trocando um olhar com o meu pai, percebeu a tensão. Menos de dez minutos depois o Fabrício foi se despedir e me avisou que ligaria durante a semana. Ele agradeceu pela pizza e partiu.
– Quer dar uma volta? – O Brian me perguntou quando fechei a porta.
– Vem. Vamos conversar no meu quarto. Tudo bem pai? – Perguntei e ele assentiu.
– O que ele estava fazendo na sua casa no domingo a noite, Sabrina? – O Brian questionou quando entramos e eu fechei a porta.
– Você viu, comendo. – Contei. Eu não estava fazendo nada demais.
– Eu nunca comi na sua casa. Seus pais nunca me convidaram. – Ele comentou, mas foi ficando furioso. – Eu sequer me sentei no sofá da sua sala e quando chego em plena noite de domingo com a intenção de te convidar para sair, encontro outro homem na sua cozinha.
– Me convidar para sair?
– Não estou a fim mais, Pantera! – Ele disse me encarando. – Quero saber que merda o Fabrício estava tão íntimo da família da minha mulher. Dá para me explicar isso?
– Eu disse. Ele tem me levado e trazido, ontem e hoje. Conseguimos resolver o problema do seu carro e quando chegamos o meu pai pediu uma pizza. Foi apenas educado convidá-lo. Nada demais, amor.
– Não me chama de amor.
– Você não é mais? – Arfei.
– Sou seu homem, Pantera. E um homem bem zangado agora.
– Não fica. – Pedi e me aproximei.
– Não gostei do que vi, Pantera. Não gostei mesmo! – Ele disse, mas eu o beijei. – Eu estou furioso e precisando de você, Pantera. Vamos sair daqui e ir para o meu hotel e não me diz não. Dá qualquer desculpa. Se vira! Mas essa noite quero você na minha cama a noite toda.
– Brian.
– Não me peça para controlar a boca porque ela está faminta. Anda. Pega a roupa que você vai trabalhar amanhã e vamos.
                Chamei a minha mãe no canto e avisei a ela que estava saindo com o meu namorado. Ela sutilmente me perguntou se eu voltaria, mas eu disse que provavelmente não. Ela já estava desconfiada que algo mais íntimo tinha acontecido conosco, mas não foi direta.
                Discutimos da minha casa até o hotel. O Brian estava furioso comigo por ter dado liberdade ao engenheiro, coisa que não fiz, fui apenas amigável. Ficava despejando o tempo todo que eu era sua mulher e que não queria mais me ver sozinha com o Fabrício. Era uma bobagem, mas naquele dia eu percebi que essa palavra despertava o pior dele. Se eu achava que as nossas discussões on line eram tensas, as reais eram mais ainda.
– Cala essa boquinha, garota. Você não vai me convencer que aquele idiota não estava dando em cima da minha mulher na frente dos pais dela! – Ele gritou no meio do quarto.
– Isso é um absurdo! Eu te amo, não a ele! – Gritei e ele congelou.
– Você me ama. – Ele sussurrou e meus olhos lacrimejaram.
– Eu... É muito cedo para dizer algo assim, eu sei! Mas... Eu...
– Eu te amo, Sabrina. – Ele sussurrou e me beijou.  
                A briga acabou naquele momento O Brian arrancou a minha roupa e lá mesmo na antessala me teve. Ele grunhia o tempo todo que eu era a sua mulher. Desabamos no chão da suíte. O Brian se deitou comigo sobre ele e senti seu coração disparado. O seu cheiro misturado ao meu era delicioso, seu gosto ainda mais. Comecei a lamber seu peito e me esfregar nele alguns momentos depois, eu não conseguia resistir. Ele ficou me acariciando e me segurando firme, eu estava adorando.
– Transa de reconciliação é tudo.
– Fazemos amor. – O corrigi.
– Não... Aquilo foi transa, agora faremos amor.
                Ele me levou no colo para a cama e me deixou completamente desmaiada. Não consegui levantar para tomar banho, apagamos agarrados e famintos um pelo outro. Às 2 da madrugada acordei com ele beijando as minhas costas e dizendo que tinha pedido algo para comer, só então tive condições de me levantar. Realmente, a parte da reconciliação passou a ser a minha preferida.
                Foi um mês bem intenso na minha vida. O Brian não conseguiu vencer na corrida seguinte, mas chegou em terceiro. As mudanças no motor ainda estavam recentes, mas ele tinha pontos suficientes para vencer o campeonato se conseguisse mais duas vitórias. A imprensa acabou descobrindo onde eu trabalhava e a minha foto saiu nas revistas. Eu estava apoiada sobre o motor de um carro trabalhando, mas a pose ficou sexy demais. No dia anterior eu tinha ido ao cabeleireiro, estava me preparando para um festa que iria no final de semana com o Brian e tinha deixado os meus cabelos soltos, foi o suficiente. Eles clicaram no momento em que eu joguei o cabelo de lado. Aquilo me deu muita dor de cabeça, mas também muito prazer com o meu namorado. Mais fotos saíram nas revistas naquela semana. Eles tinham passado um bom tempo me clicando e eu nem percebi. Eram fotos minhas limpando peças, sentada de pernas cruzadas ao lado de uma linda roda de liga leve com a estopa a enxugando e depois deitada sobre um carrinho me empurrando para baixo de um outro carro. O Brian quase espumava, mas dizia que eu estava linda. O meu chefe estava adorando tudo aquilo, estava gerando cada vez mais clientes, mas ele me mantinha afastada e atendendo só os clientes mais antigos.
– Pensei que você fosse lésbica. – Um cliente antigo comentou enquanto eu analisava o seu carro. Estava queimando óleo.
– Não sou. – Disse rindo.
– Sempre te achei linda, mas você sempre se manteve distante de todo mundo, senão tinha te chamado para sair.
– E eu negaria. – Disse olhando para ele. – Não saio com clientes da autorizada e agora estou comprometida.
– Estou sabendo, mas a esperança é a última que morre, não é? Agora que sei o quão sexi você é.
                Aquela não foi a única cantada que ganhei, mas evitei falar com o Brian. Ele estava tenso com a aproximação da próxima corrida que seria em São Paulo, precisava ganhar para vencer o campeonato e eu estava fazendo o possível para apoiá-lo. Como eu começaria o curso na fábrica na segunda, aceitei ir com ele na sexta depois do expediente. Ele tinha ido antes, mas voltou para me buscar.
– Seja bem vinda, amor. – Ele disse quando estacionou na frente de uma mansão.
– Brian?
– Ainda não coloquei para alugar, queria te mostrar primeiro. – Ele comentou e me pegou pela mão. – Ela é enorme e tem uma piscina lá atrás. Quer dar um mergulho?
– Enorme? Nem sei como nomear isso, Brian. – Arfei quando entramos e vi a riqueza do lugar. Foi esmagadora a sensação no meu peito.
– Vamos.
                A casa era o sonho de qualquer pessoa. Uma senhora de meia idade, vestida de terno veio nos saudar e dizer que o jantar seria servido quando quiséssemos, era só avisar. Ela foi muito gentil e me pediu para falar com ela o que precisasse, inclusive me chamou de Senhora e que o Brian avisou que eu era a dona da casa, que ela deveria me tratar daquele jeito. Fiquei chocada ate entrar no quarto dele, no nosso quarto. Era outro sonho. A cama era enorme e tinha um banheiro lindo demais.
– Espero que apreciem o jantar. – A governanta disse quando nos servimos. – Como o Senhor solicitou, o café será servido às 7 e meia. Boa noite.
– Boa noite. – Sorri ao dizer.
– Obrigado, Carmela. Até amanhã. – O Brian disse e ela se retirou, depois me olhou com humor. – Temos a casa somente para nós, Pantera.
                Assim que terminamos de jantar fizemos um tour pela propriedade. Era mais que eu imaginava. Os carros dele estavam em uma garagem enorme e quase enlouqueci com os antigos. Ele me deixou olhar tudo enquanto contava a quem pertenceu e como os mantinha. Não estava quente o suficiente para entrar na piscina, então recusei a oferta dele de um mergulho e continuamos o passeio. O jardim era lindo, todos eles, eram cinco no total. Fiquei imaginando quantas pessoas eram necessárias para manter a casa daquela forma e foi esmagadora o resultado.
– Quero me perder em você essa noite, Sabrina. – Ele sussurrou no meu ouvido quando entramos no nosso quarto.
– Tira essa roupa. – Disse e puxei a sua blusa para fora da calça. – A corrida...
– Esquece a corrida. Somente Brian e Sabrina agora.
– Só nós?
– Só, Pantera. – Ele disse e me pegou no colo.
– Brian! – Gritei quando ele correu e me jogou na cama.
– Transa divertida. – Ele brincou e puxou a minha camisa fora. – Minha única.
– Meu único.
– Macacão amanhã. – Ele avisou e mordeu o meu braço me fazendo gritar. – É. Adoro te marcar toda com a minha boca. Você é minha mulher, Sabrina!
                Eu nunca tinha sentido o Brian tão fora de si como naquela noite. Ele não pensava em nada como eu. Cada vez queríamos sentir mais, mais intenso. As minhas pernas tremiam, seus músculos saltavam nas suas costas, suávamos muito, mas não conseguíamos parar.
– Você... Você é a minha perdição, Pantera! Minha perdição.
– Te amo. – Sussurrei e ele me beijou. – Você... Er... Gostou?
– Tanto que quero repetir assim todas as vezes que estivermos juntos.
– Ok. – Disse quando ele me puxou para fora da cama e fomos para o banheiro.
– Essa boquinha linda me enlouquece. Tudo que sai dela me excita e agora mais ainda.
– Está cada vez mais fácil.
– Era difícil?
– Eu não sabia o que estava fazendo, Brian. – Arfei e ele riu. – Você é o único homem com que eu transei.
– Único... Adoro ser seu único.
                Foi uma noite bem intensa, acordei que nem zumbi. Eu tinha marcas de mordidas, chupões e arranhões por todo meu corpo, assim como ele. Para esconder, peguei um dos seus blusões e vesti, apenas amarrei na cintura. Ficou legal com a minha calça jeans e um tênis de cano baixo. O Brian riu quando saí do closet, mas não reclamou.
– Promete não brigar comigo? – Ele pediu quando se aproximou.
– Ih...
– Comprei há alguns dias. – Ele sussurrou e colocou um relógio lindo no meu pulso.
– Brian! Não...
– Para você lembrar de mim em todas as horas. – Ele sussurrou e beijou o canto da minha boca. – Eu te amo, Sabrina.
– Também te amo.
– Vamos tomar café que precisamos ir para o autódromo.
                Ele estava muito romântico naquela manhã, completamente diferente do amante ansioso da noite. Eu amava os dois sem reserva. A governanta estava lá nos esperando em uma sala enorme com o café pronto. Adorei experimentar os mirtilos, nunca tinha comido.
                A equipe estava toda lá quando chegamos ao autódromo e resolvi me trocar para ajudar o chefe dos mecânicos. Só quando me virei para pentear os meus cabelos presos que vi meu nome nas costas, quer dizer, a inscrição “Pantera” bordada.
– Ele está tenso. – O chefe da escuderia comentou comigo.
– Se ele vencer hoje o campeonato está ganho. – Suspirei orgulhosa dele.
– Ele te disse das propostas dessa semana?
– Da Fórmula 1?
– Também. Várias equipes da 1 mandaram propostas, mas também tem as das equipes Nascar. – Ele comentou e arfei. – Acho que isso ele não disse.
– Não. – Murmurei.
– Não deve ter surgido uma oportunidade.
– Ele aceitou alguma? – Perguntei, mas olhei para outro lado.
– Nem tirou dos envelopes. Ninguém o convence a sair do Brasil por enquanto.
                Ao mesmo tempo em que foi um alívio, foi um tormento. Eu achava injusto com ele me sentir aliviada por ele ficar. O Brian tinha um futuro certo nas grandes escuderias, mas estava se prendendo a mim, eu tinha certeza. Era uma demonstração de amor maior que eu achava que merecia, mas o amava tanto que pensar em ficar e ele partir doía no peito. Naquela noite, como ele tinha a corrida, ficamos apenas abraçados na cama, mas não consegui dormir e fui me sentar no sofá da grande sala de TV no primeiro piso da mansão.
– A cama ficou fria. – Ouvi o Brian dizer pouco mais de meia hora depois que saí da cama. – O que houve, amor?
– Não sei.
– Não minta para mim, Sabrina. – Ele disse baixinho ao tocar no meu rosto.
– Você não vai cogitar as propostas da Nascar?
– Quem te disse? – Ele questionou sério.
– Isso não importa. O que importa é que estou te prendendo, não é? Estou empatando a sua carreira. Você é talentoso, Brian. Está no auge da sua carreira e deve investir tudo que pode.
– Estou investindo na nossa relação, Sabrina. Eu te amo e sei que você me ama, mas me diga com toda sinceridade... Você iria comigo e largaria tudo aqui? Se eu te desse um ultimato, você iria?
– Não. – Sussurrei e abaixei a minha cabeça. – É tudo muito recente entre nós. Eu te amo, mas seria cedo demais para mim.
– Por isso não aceitei. – Ele disse e beijou o canto da minha boca. Aquilo era mais sensual que um beijão. – Preciso estar onde você está. Tenho opções e a que escolhi foi você, meu amor. Tenho mais de 1 ano pela frente, então, se daqui a 1 ano novas propostas surgirem, pensamos novamente, ok?
– Ok.
– Vamos para cama. – Ele disse e me pegou no colo. – Falei com outro corretor e vou colocar a casa para alugar a partir do mês que vem. Esse mês que você está em São Paulo, ficaremos aqui juntos.
– Ok. – Disse e me aconcheguei nele.
– Estou vendo um apartamento no Rio também. Você está lá e quero ficar perto de você. Esse período todo eu consegui administrar pela internet e pelo telefone, então dará tudo certo. Podemos ficar juntos, o que acha?
– Morar junto?
– Talvez... Se você quiser. Seria perfeito. – Ele disse e me beijou antes de me abaixar no colchão. – Você pode me ajudar a decorar ou escolhemos uma pessoa para fazer isso, mas o importante é você se sentir em casa comigo. A Carmela vai providenciar os empregados que precisarmos e...
– Empregados?
– Eu vi uma cobertura essa semana e achei que você gostaria. Ela tem dois pavimentos e é bem espaçosa. – Ele comentou quando se deitou e me aconchegou em seu peito. – Não é longe do seu trabalho e também do escritório.
– Escritório?
– Sim. O meu advogado é do Rio... Quer dizer, um dos escritórios dele. Ele praticamente administra os meus bens, mas preciso acompanhar tudo. Bolsa de valores e imóveis são instáveis e precisamos ficar de olho em tudo.
– Muita informação, Brian.
– Eu sei, mas você acostuma logo.
– Me abraça. – Pedi e ele se encaixou atrás de mim.
– Te amo, minha única. – Ele sussurrou no meu ouvido. – Eu nunca me colocaria em uma situação sem estar consciente de tudo, e neste momento eu quero que o meu mundo gire em torno de você. Não se sinta pressionada a tomar qualquer atitude porque não as espero. Sei o quão recente é a nossa relação, mas ela é forte.
– Te amo. – Sussurrei e ele beijou o meu pescoço.
– Te amo, minha única.
                A equipe estava acelerada quando chegamos para a corrida. Ao contrário do dia anterior, não coloquei o macacão, fiquei com a camisa da escuderia que pertencia ao Brian. Ele me beijou antes de entrar no carro e prometi ficar atenta.
                Foi uma corrida tensa. Ele estava na segunda fileira, mas conseguiu sair á frente logo depois da largada. Os pitstops foram recordes, super-rápidos. O mundo da corrida era muito mais que o evento em si. As equipes competiam entre si como conjunto e até quem fazia as trocas e abastecimento mais rápido. Uma batida no meio da corrida me deixou em pânico, só relaxei quando vi o carro dele inteiro pela TV.
– Yellow flag. – O chefe da equipe avisou pelo rádio. – Check?
– Check equipamento ok. – O Brian avisou pelo rádio do carro. – Situação?
– Ok. Segue trajeto com cautela.
– Situação? – Ele pediu novamente enquanto eu via os carros ziguezagueando na pista atrás do carro oficial.
– 16 e 8 envolvidos, mas sem comunicação ainda.
– Merda! Cara...! O que aconteceu?
– Bateram.
– Porra! Isso eu vi.
– Não temos notícias ainda. Concentre-se na corrida.
– Pantera?
– Estou aqui. – Avisei.
– Tudo bem?
– Perfeito. – Inspirei fundo ao dizer.
– Não minta, porra!
– Não fala palavrão pra mim! – Rosnei no rádio. – Você estando bem, estou bem. Agora se concentra nessa corrida, idiota!
– Panteraaaaaa!!!! – Ele gritou quando o carro oficial saiu da pista e a corrida reiniciou.
                A equipe toda riu e vibrou quando ele acelerou. Todos falavam que a vitória era certa e já estavam animados com a festa da vitória que aconteceria naquela noite em um hotel chique da cidade. Eu nem tinha roupa para esses lugares e me preocupei. O Brian não tinha me falado nada. Parte da minha mente só pensava bobagem, imaginei que no mínimo ele não queria me levar. Era uma luta mental, mas eu tentava me concentrar na corria e nos gráficos de desempenho do carro. Achei melhor não comentar nada e esperar o que viria pela frente. Eu tinha um quarto de hotel reservado pelo curso. Se me desse na telha o deixaria e ficaria no hotel. Não toleraria ser colocada de lado ou escondida. Ele estava comigo ou não, sem meio termos.
                Faltavam apenas 2 voltas para o final quando várias modelos começaram a chegar no box vestidas com mini shorts e camisetas coladas com a logo do patrocinador. As vadias estavam todas sorridentes e comemorando a vitória do Brian. Os mecânicos estavam ouriçados e aproveitando aquele mar de mulher, mas eu ainda estava de olho no monitor. Se o Brian vencesse aquela corrida o campeonato estava ganho. Ele poderia ficar em último na próxima corrida que já tinha pontos suficientes para vencer.
                A gritaria foi geral quando a bandeira quadriculada flamejou no autódromo. O meu Brian era o novo campeão brasileiro e eu estava muito orgulhosa dele. O chefe da equipe me pegou pela mão e me puxou para a frente do box onde o Brian chegaria. Tinha tanta gente da imprensa e fãs que eu ficava nervosa, mas assim que aquele carro se aproximou o meu coração se aqueceu.
– É... Campeão! – A equipe gritava em coro.
– Sonho realizado, Pantera! – O chefe da equipe me disse sorrindo.
– Ele merece! – Disse batendo palmas para ele junto com todos.
– Panteraaaaa!!! – O Brian gritou quando ficou de pé e tirou o capacete.
– Pantera! Pantera! Pantera! – A equipe gritava sem parar me deixando sem graça. Eu abaixei a minha cabeça e só senti o Brian me agarrando.
– Te amo, Pantera. – Ele disse e me beijou arrancando gritos de todos.
– Pantera! Pantera! Pantera! – A equipe gritava.
– Parabéns, amor. – Sorri ao dizer e ele me abraçou.
– Vencemos! – Ele gritou e a equipe também. 
                Um pessoal da organização chegou e o levou de mim. O Brian tinha que receber o seu super troféu de campeão da corrida. O do campeonato só seria entregue na corrida final em 15 dias. Fiquei mais distante olhando tudo, mas também sendo observada.
– Parabéns pelo campeonato. – Um rapaz com uniforme de outra equipe sussurrou no meu ouvido enquanto o Brian recebia seu troféu.
– Ah... Obrigado.
– Charles. – Ele disse e apertou a minha mão.
– Sabrina. – Disse enquanto sentia os respingos do champanhe.
– Não é Pantera?
– Não... Claro que não. Isso é uma coisa minha e do Brian, apenas isso. – Disse sorrindo e ele de repente me deu um beijo no rosto.
– Você é linda. – Ele disse e eu fechei a cara dando um passo para trás.
– Não chega perto e nunca mais faça isso. – Avisei apontando o dedo. Aquilo chamou atenção de uns mecânicos. – Não te conheço!
– Sai de perto da mulher do Brian. – Um mecânico disse ao se colocar entre nós.
– Não foi nada demais, cara. Relaxa.
– Está tudo bem. – Disse segurando o braço do mecânico. – Não vale a pena se estressar com ele. Nem o conheço.
– Cai fora! – Outro mecânico disse apontando. Cada vez mais gente percebia. Eu estava rodeada de mecânicos.
– O que está acontecendo? – O Francisco Lopes questionou.
– O Charles beijou a Pantera. – O primeiro mecânico contou.
– No rosto. – Arfei o corrigindo. – Esquece isso, gente. Deixa ele pra lá. Ele só está querendo provocar.
– Vai dar merda! – Alguém disse atrás de mim e olhei o Brian chegando com cara de poucos amigos. – Cai fora, Charles!
– Pantera. – O Brian disse quando se aproximou e me abraçou. – O que esse idiota fez agora?
– Beijou a sua mulher. – O primeiro mecânico disse e senti o Brian enrijecer.
– No rosto, amor. – O corrigi novamente, mas dizendo para o Brian, depois fulminei o mecânico com o olhar. – Você está querendo provocar uma briga?
– Chico. Leva a Pantera para o box. – O Brian pediu, mas cruzei os meus braços.
– Mas não vou mesmo! – Avisei e olhei para o tal de Charles. – Oh, seu babaca! É.. Você mesmo, imbecil. Está pensando que é quem? Veio aqui para provocar uma briga, então você arrumou com a pessoa errada.
– Agora entendi o porquê do Pantera. – Ele debochou rindo alto e dei um passo na sua direção. Uma roda se abriu quando passei a mão em uma chave de boca comprida do cinto de um mecânico.
– Olha bem para a minha cara. Memorizou? Então quando a vir pela próxima vez se ajoelha e reza para que eu não parta a sua cara.  
– Zangadinha.
                Ele nem teve tempo de piscar. Passei a chave por trás de seus tornozelos e o cara caiu no chão.   
– Está dado o aviso. – Disse apontando a chave para a cara dele. – Não sou mulher para ser usada como motivo para briga. Agora, eu e o meu homem, além da equipe toda vamos embora e você ficará com essa cara de babaca aqui. Entendeu?
– Entendi. – Ele disse com os olhos arregalados.
– Vamos, Pantera. – O Brian disse depois de pegar a chave da minha mão.
– Pantera! Pantera! Pantera! – A equipe começou a gritar.      
                O Brian não disse nada até entrarmos no seu camarim e a briga começou. Ele me xingava e eu de volta. Ele achava um absurdo o meu comportamento e gritava que eu deveria tê-lo deixado resolver a questão, mas eu não cedia. Sempre me virei sozinha e continuaria, esse era o ponto que mais o irritava. Eu tinha ficado furiosa por ter sido usada, mas ele não entendia. Ele dizia que eu não deveria enfrentar um homem e eu não cedia. Batiam na porta, mas ele mandava ficar de fora. Até o Francisco Lopes tentou intervir, mas ele não quis ouvir. Foi mais de meia hora de gritos e resmungos. Éramos dois tolos e teimosos.
– Vem cá, porra! – Ele ordenou apontando o dedo para o chão a sua frente.
– Sonha! – Avisei.
– Vem aqui, Pantera.
– Não! Estou de saco cheio de você querer mandar em mim, Brian!
– Vem aqui, Pantera.
– Não. Se quiser, venha até mim.
– Nunca! Se você não vier, pode ir embora. – Ele ameaçou olhando nos meus olhos.
– Brian. – Sussurrei e doeu no meu peito, mas não cedi. – Quer dizer que tem que ser assim... Ok. Tchau, Brian.
                Eu dei um passo para a porta e ele me agarrou pelas costas. Ele me mordeu e apertou muito os meus seios, chegou a doer, mas não consegui reclamar, eu queria muito o seu toque. O Brian não dizia nada, eu só sentia a sua respiração ofegante. Ele começou a tirar a minha blusa, mas o parei.
– Cala a boca. – Ele sussurrou no meu ouvido. – Estou a ponto perder mais uma calça de novo.
– Não aqui...
– Preciso aqui. Você não sabe como estou fervendo por você, amor.
– Você me mandou embora.
– Nenhuma mulher me enfrentou assim antes. Nenhuma lutou tanto comigo e te amo demais por isso, mas preciso de você agora, Sabrina. – Ele disse e lambeu o meu pescoço.
– Aqui não, amor. Em casa. Na nossa cama. Quero sentir tudo como sempre, aqui não podemos.
– Você vai me amar em casa? – Ele grunhiu e mordeu a minha orelha.
– Ah! Vou... Muito.
– Gritar.
– Ah! Sim.
– Prontinha para mim. – Ele disse e me virou para ele. – Eu te amo.
– Muito, Brian. – Sussurrei e uma lágrima caiu.
– Não! Não chora! Merda! Te fiz chorar. – Ele disse e chorou também. Nos abraçamos forte. – Perdi a cabeça.
– Eu também. Desculpa tudo que eu disse.
– Nunca se vá... Não me deixa. – Ele gemeu no meu pescoço. – Desculpa dizer aquilo. Foi algo involuntário.
– Não suportei, Brian. – Gritei no seu peito e ele me apertou.
– Desculpa, amor. Desculpa. Não chora, Sabrina.
– Doeu.
– Está doendo em mim te ver chorar e saber que sou o culpado.
– Te amo, Brian. – Gritei e solucei.
– Vem. Vamos tomar um banho e ir para casa. – Ele disse quando me pegou no colo.
– Parabéns pela corrida e pelo campeonato.
– Obrigado. – Ele sussurrou.
                Começamos a nos despir, mas ele não estava mais excitado, nem eu. A minha vontade de sair dali e ir para casa era tamanha que o ajudei no que pude para acelerar. A equipe pareceu respirar aliviada quando saímos do camarim, mesmo vendo como ainda estávamos abatidos. Foi a pior briga que tivemos e no pior dia. Tentei me animar um pouco enquanto conversávamos com o Francisco Lopes, até ri quando fizeram piada sobre o encontro com o tal Charles, até que entendi o motivo de tudo aquilo. O Charles foi demitido da equipe pouco mais de oito meses antes porque foi pego transando com a então namorada do Brian bem no meio de uma corrida e contaram para ele. O Brian acreditava plenamente no seu chefe de equipe, nem pensou duas vezes, demitiu o Charles e acabou o relacionamento com a tal mulher. Eles estavam juntos há pouco tempo, mas foi o suficiente para deixa-lo furioso.
– Parabéns pela corrida, Senhor. – A governanta disse quando chegamos em casa.
– Obrigado, Carmela. – O Brian murmurou meio sem jeito.
– O almoço será servido quando quiserem.
– Pode mandar servir e... Está tudo pronto como pedi?
– Exatamente como pediu. – Ela sorriu ao dizer e se retirou.
– Venha, amor. Estou morrendo de fome. – O Brian disse me pegando pela mão e fomos para a sala de jantar. – Quer beber um vinho hoje?
– Pode ser. – Disse e fiquei o olhando. – O que ela quis dizer com tudo pronto como você pediu?
– Quer dizer que ela cumpriu as minhas ordens. – Ele disse sorrindo e me beijou.
– Brian.
– Surpresa, amor. Será que você pode por favor me deixar te fazer uma surpresa depois que almoçarmos aqui e eu te ter de sobremesa na nossa cama?
– Sua cama macia?
– Nossa cama enorme e macia. – Ele me corrigiu aos sussurros.        
                Eu nunca tinha tido uma refeição tão maravilhosa como aquela com um vinho que descia tão suave. A Carmela nos serviu como se estivéssemos em um restaurante 5 estrelas, foi incrível. As porções eram pequenas, mas variadas. Salada, 2 pratos quentes e ainda uma sobremesa deliciosa que nem sei o nome, apenas provei e adorei. Aos poucos fomos relaxando e no final já estávamos sorrindo e finalmente conversando sobre a corrida e como o carro se comportou.
– Amanhã começa o meu curso. – O lembrei enquanto ele terminava a sobremesa.
– Eu lembro.
– Preciso sair antes das sete.
– Eu sei.
– Ok. Só checando. – Disse e bebi um pouco de água.
– Posso te levar?
– Pode.
– Ok. Só checando. – Ele disse me fazendo rir.
                Acabamos no nosso quarto menos de 2 minutos depois dele acabar com a sobremesa. Eu estava louca para poder ficar sozinha com ele e consegui. Mal entramos, começamos a arrancar a roupa do outro enquanto nos beijávamos.
– Preciso estar com você, Pantera. – Ele gemeu quando me deitou na cama.
– Hoje é seu dia de sorte. – Disse ao puxá-lo para a cama e me deitei sobre ele.
                O Brian dizia que estava recebendo o verdadeiro prêmio por ter vencido a corrida. A minha vontade de senti-lo guiava os meus sentidos. Nunca me senti tão cansada e feliz na minha vida como naquele dia. O Brian dizia que tinha se segurado por causa da corrida, mas que agora tinha 30 dias de mim para aproveitar. Brincou que era sua dieta preferida, que nunca era suficiente.
– Minha única. Você é tão linda.
– Te amo. – Sussurrei e ele me mordeu. – Ai!
– Adoro te morder.
– Ai! Brian. – Ri quando ele mordeu e me fez cócegas também.
– Adoro te ouvir rindo.
– Brian! Para!
– O patrocinador preparou uma festa e será hoje à noite. – Ele disse quando me virou de frente e começou a me acariciar de leve. – Vamos?
– Onde?
– Em um hotel.  
– Er...
– O que foi? Não quer sair para dançar comigo? Como foi mesmo que você disse? Ah! Com seu homem. – Ele disse e deu aquele sorriso que me desarmava.
– Não me preparei para isso, Brian. Não tenho o que vestir para uma festa. As pessoas devem ir de...
– Nós vamos. – Ele decidiu e brincou comigo.
– Mas...
– Eu pedi a Carmela para providenciar umas roupas para você escolher. Ela arrumou as suas coisas lá no closet e viu o seu tamanho. – Eu ia resmungar, mas ele me travou. – Calma. Não briga comigo antes de ouvir.
– Ok.
– Eu não sabia se ganharia, mas eu queria muito para poder comemorar em você o dia todo, depois com você na festa. – Ele disse e deslizou os dedos pelo meu rosto. – Te quero linda, mas sei que não tinha falado e você não pôde se preparar para isso. Seria muita sacanagem minha simplesmente avisar em cima da hora, mas eu queria um dia perfeito para nós dois. Você me ajudou a vencer hoje, Sabrina. O carro estava voando na pista graças a tudo que você disse e a equipe preparou, e não falo do agora, mas dos meses em que mesmo sem saber você fazia parte da equipe e me ajudava na pista. Eu pensava muito em você enquanto corria, amor. Dediquei muitas vitórias àquela minha amiga virtual com quem eu conversava todos os dias. Você faz parte dessa vitória, assim como a equipe e vamos celebrar esta noite, mas acima de tudo, você é a mulher da minha vida e eu ficaria muito feliz em ter você ao meu lado a noite toda.
– Oh, Brian. – Gemi e ele me abraçou. – Eu vou.
                Foi uma tarde mágica. Celebramos a sua vitória, lanchamos e só depois das seis começamos a nos arrumar. Fiquei em choque com a quantidade de roupas para mim que havia no closet, mas nem consegui reclamar. O Brian estava eufórico com a visão de dividirmos algo. Ele me avisou que teríamos aquilo no Rio e começou a fazer planos para o mês que passaríamos brincando de casinha. Ele ficou lindo e me elogiou também. Resolvi usar um vestido preto, mas muito lindo. Eu tive medo de errar e como a minha mãe sempre dizia, era uma cor que nunca errava. O Brian tinha um ótimo gosto para tudo, era incrível.
– Nossa. Aqui é lindo. – Sussurrei quando chegamos ao hotel.
– Vamos. Tem uma festa rolando e vamos curtir.
– Curtir mais?
                O espaço era dividido, mas dava para ouvir a música em qualquer canto. A equipe estava toda lá e gritaram aplaudindo quando chegamos. Fiquei muito sem graças, mas eram todos conhecidos. Tinham pessoas da imprensa, mas não se chegavam muito, apenas tiravam fotos. Percebi que uma mulher era a única a dar entrevista e o Brian me avisou que era a assessora de imprensa da equipe. Foi uma festa maravilhosa. Chegamos em casa quase 3 da madrugada, então só tive poucas horas de sono. Acordei como zumbi, mas muito feliz.
                O Brian me levou até a fábrica, mas com um motorista. Ele estava cheio de sono e só concordei dele ir daquele jeito, senão eu iria de ônibus. Enlouqueci só de pensar nele dirigindo cheio de sono. Eu estava ansiosa pelo início do curso, era uma grande oportunidade e eu aproveitaria ao máximo.
                Aquele era o meu ambiente e revi muitos amigos que fiz na outra oportunidade, mas eles estavam trabalhando em outro setor, em outro prédio. Mesmo cercada por tantos homens que ficavam competindo entre si para ver quem sabia mais. O palestrante era alemão, mas falava um inglês fluente. Eu não tive dificuldades de entender e isso parecia que causava um certo desconforto entre os homens. Eu pensava em tudo que passei até chegar lá. Eles não haviam feito a ligação entre mim e o Brian, isso foi ótimo. O motorista ia sempre me buscar quando o Brian estava ocupado, mas também não tinham reparado. Lá eu era apenas mais uma no curso, uma mulher deslocada naquele mundo de testosterona.
– Tudo bem? – A atendente me perguntou quando voltei do almoço no restaurante da fábrica.
– Tudo.
– Você tem certeza?
– Claro. Já estou acostumada a ficar meio deslocada nesses cursos.
– Eu percebi, só tem você de mulher.
– É. – Confirmei e resolvi mudar de assunto. – Você trabalha há muito tempo aqui?
– Tem 6 meses, mas estou gostando.
– Imagino.
                Ficamos conversando até o reinício da aula, mas ao invés de ficar na sala, fomos para a área de montagem da fábrica. As peças vinham de fora, mas a montagem acontecia no Brasil. Como eu tinha estado há pouco tempo em contato com equipamento de ponta com o Fabrício, fiz comentários que chamaram atenção do palestrante. Ele se aproximou e começamos a conversar no mesmo nível.
– Sabrina? – Ouvi me chamarem e reconheci o Fabrício ao me virar.
– Fabrício! – Arfei e ele me abraçou.
– Que bom te ver. – Ele disse e me beijou no rosto.
– Estou em curso aqui e você?
– Presto serviço aqui. Perai! Você está em curso? Você deveria ser a palestrante.
                Ele acabou contando para o palestrante quem eu era e como nos conhecemos. Foi engraçado. Tudo mudou depois daquilo e isso foi constrangedor, mas pelo menos me viam como profissional e não como a namorada do Brian Portman. Não almocei mais sozinha e nem recebia mais olhares estranhos. O Brian não gostou muito de saber que eu estava no mesmo lugar que o Fabrício, mas não podia fazer nada. O ciúme ainda o incomodava, mas era uma besteira. Era seu nome que eu gemia, ele era o meu único.
                Foram 15 dias maravilhosos. No curso eu me saía muito bem. Em casa eu era muito feliz nos braços do homem da minha vida. Meus pais estavam bem e satisfeitos com a minha felicidade, não questionavam ou opinavam como sempre, confiavam no meu julgamento. A imprensa não era cruel comigo, mesmo nas matérias em que eu aparecia apontando a chave de roda para o Charles. Durante aquele período, acompanhei o Brian em alguns jantares e até corremos de kart no final de semana sem corrida. Foi muito divertido, mesmo com a imprensa por perto. Conheci alguns amigos dele e até uns primos que nos visitaram. Foram todos muito legais comigo. Achei que a família dele seria esnobe e me recriminaria por eu não ter muito dinheiro, mas não aconteceu. Ele não falava dos seus pais, mas eu sabia que eles se falavam todos os dias.
– Ansioso com a corrida de amanhã? – Perguntei ao Brian quando nos deitamos no sábado.
– Não, apenas pensando.
– Em que?
– Nada e em tudo. Nesse nosso mês junto e em como sempre te vejo quietinha pensativa. Porque você não conversa comigo? – Ele questionou quando se deitou de lado e ficamos nos olhando.
– Não é nada demais, amor. Eu só tenho pensado muito na minha vida e como escolher a mecânica guiou minhas decisões. Essa semana eu fiquei me lembrando de tudo que passei para convencer os meus pais do que eu queria, lembrei de como nos conhecemos na internet, até como foi que nos amamos pela primeira vez.
– Arrependida?
– Não. – Disse e o beijei. – Não lamento nada, tudo teve que acontecer dessa forma. Foi assim que cheguei até você.
                Estava tudo certo para a corrida acontecer no domingo, mas caiu um temporal na cidade e alagou tudo. Os responsáveis pela corrida acharam mais seguro cancelar a prova e remarca-la para o próximo final de semana. Eu suspirei aliviada. Correr em pista molhada era muito arriscado. A equipe teve que desmontar tudo e voltamos para casa. Ficamos agarrados vendo um filme e ouvindo a chuva cair. Pelo que ouvimos foi recorde de chuva e muitas áreas da cidade ficaram debaixo d´água.
                Enquanto eu estava no curso, o Brian foi ao Rio de Janeiro para fechar a compra da tal cobertura que tinha comentado. Foi estranho voltar para casa e estar lá sem ele. A Carmela foi muito gentil e não me tratou diferente. Estranhou quando eu quis jantar na cozinha, mas não reclamou. Aproveitamos para conversar um pouco e eu soube mais sobre ela e o próprio Brian. Ela tinha trabalhado com os seus avós desde que tinha 25 anos de idade e se tornou governanta com 35. Contou que lembrava do Brian ainda mais novo correndo com os amigos e brincando com os avós. Ela disse que o avô dele amava a velocidade e o incentivou a começar a correr desde cedo. Tive a oportunidade de ver fotos dele ainda criança. Ele só voltou na quinta feira e pude vê-lo assim que cheguei do curso.
– Brian! – Gritei e saltei do carro.   
– Saudades, amor. – Ele disse quando me abraçou e envolvi a sua cintura com as minhas pernas.
– Saudades! Isso aqui fica enorme sem você.
                Ele me levou para o nosso quarto e me amou até desmaiarmos nus naquela enorme cama. Era sempre assim. Eu estava muito feliz. O Brian era o meu único, o homem da minha vida e eu não era capaz de me ver ao lado de outro. Ele era engraçado, inteligente, mandão e lindo. Era tudo que eu esperava em um homem, principalmente, me entendia.
                O tempo ficou firme no final de semana e a corrida foi confirmada na manhã de sexta. As coisas tiveram que acontecer às pressas e achei melhor ficar mais afastada da agitação. Apesar do Brian já ter o campeonato ganho, ele não queria perder e levaria aquela prova à sério. No sábado eu fui com ele para o treino e ajudei a dar o ponto do motor. No domingo eu fiquei no rádio ajudando a monitorar. Era sempre tenso e emocionante, mas naquele domingo eu tive pela primeira vez a sensação de pânico. Me senti impotente. 
– Bateram! – Gritaram e olhei para o monitor da TV.
– Meu Deus! Brian! Cadê o Brian! – Eu gritava tentando ver no meio de toda aquela poeira.
– Brian! Brian! – O chefe da equipe gritava no fone, mas ninguém respondia.
– A equipe de resgate está na pista. – Gritaram.
– Brian Portman se envolve em grave acidade. – Ouvi falarem quando aumentaram o som da TV. – Vamos rever as imagens.
                Gelei quando vi o carro dele voando alto. Ele não conseguiu desviar quando dois carros se chocaram à sua frente, eram retardatários. Quando a imagem voltou para o ao vivo, mostraram o carro quase destruído. As peças espalhadas pela serragem onde o carro foi parar e só dava para ver parte do cockpit. Eu chorava conforme os segundos passavam e eu via as equipes de resgate correndo para o local. O Francisco Lopes gritava no rádio pedindo notícias. Eu não aguentei e fiquei no canto ajoelhada rezando. Peguei o terço que eu sempre mantinha no bolso da minha calça e implorei para Deus trazê-lo de volta. Eu ouvia de longe as pessoas falando que estavam colocando o Brian em uma ambulância, mas que era só por precaução. Não consegui entender direito, mas falavam algo sobre o traje e o capacete protegerem o piloto. Ninguém chegava perto de mim. Não sei quanto tempo se passou até que ele voltou.
– Pantera! – Ouvi gritarem e reconheci a sua voz.
– Brian! – Sussurrei e ele se ajoelhou na minha frente tocando o meu rosto úmido de tanto chorar. – Brian...
– Sabrina. Minha única!
                Ele se levantou e me levou junto. Eu travei as minhas pernas na sua cintura quando ele me abraçou forte. Eu chorava sem parar e ele tentava me consolar, mas não conseguia. Comecei a beijar seu rosto e vi umas escoriações leves no pescoço. Ele ainda estava de macacão.
– Oh, amor. – Sussurrei e acariciei seus cabelos. – Me coloca no chão. Você deve estar dolorido.
– Eu te amo, minha única. – Ele sussurrou ao me colocar no chão e o abracei forte.
– Graças a Deus que você está bem. Rezei tanto.
– Rezou?
– Sim. – Disse e mostrei o terço. Ele o beijou e depois me beijou.
– Obrigado, amor. Agora passou.
                A equipe começou a bater palmas e vibrar que ele estava vivo. Eu não o larguei mais enquanto víamos a corrida seguir. Perguntei a ele como ficaria a situação do carro, mas o que entendi era que havia um seguro e estava tudo bem. Depois de ser atendido mais uma vez pela equipe médica durante o decorrer da prova, eu pude finalmente respirar aliviada. Ele teria dores musculares por conta do impacto, mesmo com todas as proteções do seu traje, mas não havia nenhuma lesão interna. A festa da vitória foi mantida, mas entenderam quando tomamos a decisão de não ir.
– Vamos, amor. Você precisa descansar. – Eu disse quando estacionei na garagem.
– Obrigado por dirigir. Acho que a adrenalina me deixou. – Ele resmungou ao sair do carro.
– Vou preparar um banho quente e um lanche leve.
– A Carmela...
– Me deixa cuidar de você, caramba. – Resmunguei e ele me beijou.
                Enquanto ele tirava a roupa, preparei o banho na banheira. O Brian tinha me ensinado e aprendi rápido. Ele merecia todo carinho que eu pudesse dar. Quando desci para a cozinha, a Carmela e as empregadas estavam todas juntas olhando a TV. No jornal passavam imagens do box, o momento em que o Brian me encontrou ajoelhada e me abraçou. Eles deram close nas minhas mãos acariciando seus cabelos e o terço entre os meus dedos. A forma como ele me olhava e como sussurrávamos. As empregadas falavam que era lindo o nosso amor, não tinham me visto ainda. Ficaram sem graça quando me notaram e até ajudaram a preparar um lanche na bandeja. Coloquei lá tudo que o Brian gostava, principalmente as pastinhas e geleias. Seu suco favorito era o de tomate, também levei assim que ficou pronto. Ele adorou todo aquele carinho, inclusive dos seus pais que ligaram enquanto ele comia.
– Estou sendo mimado, mãe. – Ele comentou sorrindo. – Ainda não conversei com ela sobre isso, mas te falo. Manda um beijo para o papai.
– Falar o que? – Perguntei enquanto comia uma cereja.
– Férias. Agora terei uns meses sem correr até o carro ficar pronto ou me derem um novo. Sorte que foi na última corrida. – Ele comentou aliviado.
– Não vamos falar nisso hoje. – Pedi e ele assentiu. – Quando você acabar vou te fazer uma massagem.                       
                Ele acabou dormindo antes da massagem. Eu pude ver umas manchas roxas aparecendo no seu tórax e resolvi ligar para a minha mãe. Ela estava muito preocupada e me disse o que fazer, as coisas que comprar. Apesar dos protestos da Carmela, peguei o carro e fui atrás dos cremes para fazer uma massagem nele. Alguns repórteres estavam na frente do condomínio, mas segui em frente. Consegui achar uma farmácia e comprei tudo que precisava. Um fotógrafo me clicou quando saí e me perguntou como o Brian estava. Eu apenas disse que ele estava descansando, mas que estava bem. Foi constrangedor, mas encarei e voltei para casa, ele ainda dormia.
                Foi uma semana intensa no curso e em casa. Os médicos fizeram uma bateria de exames no Brian, eram bem mais detalhados dos que ele normalmente fazia após cada corrida. Seu personal trainner foi dispensado por 15 dias para que o Brian pudesse descansar. Várias reuniões ocorreram em casa mesmo. Tive o desprazer de ouvir a Carmela atendendo ligações de mulheres perguntando pelo Brian. Pelos nomes eu pude deduzir que eram suas ex namoradas, mas fiquei quieta. Ela sempre as dispensava educadamente dizendo que o Brian estava recolhido comigo e não estava atendendo telefonemas que não fosse da família.
                O meu curso terminava na quarta feira, então fiquei apenas 2 dias e meio longe de casa, mas foram dias de muita prática no curso e eu chegava exausta. Fiquei feliz quando o Brian foi me buscar no último dia, ele nem tanto quando viu o Fabrício por lá e conversando comigo. Eu cansava de falar que não tinha nada a ver o ciúme, mas nada o fazia mudar de ideia. Mais propostas de mudança de autorizada surgiram durante o curso, mas eu tinha um acordo com o meu chefe, o manteria. Também fui convidada para auxiliar em mais um projeto, o Fabrício tinha falado bem de mim e eu estava muito agradecida. A minha intenção era de sempre guardar dinheiro para a minha oficina. Se eu continuasse naquele ritmo, em 1 ano eu teria dinheiro para começar em um lugar alugado, eu tinha esperança.                
– Como você está hoje, amor? – Perguntei ao Brian quando nos deitamos na noite de quarta.
– Morrendo de saudades de você nua. – Ele sussurrou e começou a tirar a minha blusa.
– Mas você precisa descansar e se recuperar. Lembra do que o médico disse?           
– Sente como eu estou. – Ele disse e se esfregou em mim. – Você precisa fazer algo a respeito, Pantera.
– Algo?
– Algo. – Ele confirmou e se deitou sobre mim.
                Fizemos amor lentamente por mais de 2 horas. Ele gemia no meu ouvido como estava feliz, eu gemia como estava sentindo a sua falta. Nós não tínhamos compromissos na quinta e só queríamos curtir uma noite inteira. O Brian me fazia muito feliz, isso era certo.
                Só voltamos para o Rio no domingo e fomos direto para a minha casa. A minha mãe o mimou até dizer chega, não parava de alimentá-lo e perguntar se ele queria alguma coisa a mais. O Brian se sentiu muito querido e tirou aquela impressão de que o Fabrício tinha mais liberdade com os meus pais que ele, o meu namorado.
                Naquela semana eu passei para o meu chefe tudo que tinha recebido de apostilas no curso, além das minhas anotações. Os meus colegas, agora muito mais amáveis e tranquilos, perguntavam pelo Brian e como tinha sido a batida.
Não me senti confortável ao conversar com a decoradora do novo apartamento, quer dizer, cobertura. O Brian tinha realmente a comprado e queria deixa-la pronta o mais rápido possível para nos mudarmos. Os meus pais não gostaram muito da história, mas eu disse que não ficaria direto por lá, era recente demais. No final eu comecei a me divertir um pouco mais com tanta empolgação do meu namorado.
                O primeiro cômodo que ficou pronto foi o nosso quarto. A cama era enorme e tinha um closet duplo para onde as minhas roupas novas tinha ido. Além de piloto, o Brian era sócio em algumas empresas e administrava à distância. Ele dizia que apesar de confiar em seus sócios, sempre ficava de olhos abertos e isso tomava tempo, então um escritório também foi montado na cobertura. A Carmela enviou duas moças da casa de São Paulo para trabalhar para nós no Rio de Janeiro. O Brian cuidou das acomodações delas.
                Nós saímos para jantar com uns amigos do Brian algumas vezes e também para dançar nos finais de semana. Sempre que ele viajava eu ficava na casa dos meus pais, era uma forma de contornar a situação. Eu não estava casada com ele, só ficávamos debaixo do mesmo teto quando ele estava no Rio de Janeiro, mesmo que ele me tratasse como sua mulher o tempo todo. Dinheiro era sempre motivo de briga, mas com o tempo eu fui me acostumando aos presentes que ele me dava. Eu deixava tudo no apartamento dele e não me atrevia a usar o relógio caro no ônibus que eu pegava todos os dias. A compra de um carro foi cogitada, mas sutilmente esquecida quando tivemos uma briga enorme antes do Natal. Eu disse a ele que se fizesse isso eu nunca mais falaria com ele, então ele se conteve no presente. Eu tinha lido em vários sites que estavam especulando a nossa relação, não gostei de algumas matérias e tentei viver como sempre vivi. Claro que passei a frequentar locais mais finos, mas eu era apenas a namorada, não esposa e não tinha a menor ambição daquelas mulheres bestas de nariz em pé.
                Tirei as minhas férias em janeiro e fomos visitar seus pais. Era a minha primeira vez no exterior e fiquei bem nervosa, sem falar que eu estava indo conhecer os pais do meu namorado, pais que alguns meses antes estavam tentando convencê-lo de se mudar de vez. Desde que começamos a namorar, ele não aceitou os convites para visita-los e fiquei preocupada de ser tratada de forma fria. O Brian tentava me fazer relaxar, mas era complicado. Por fora, para quem não me conhecia, eu parecia tranquila, mas por dentro eu estava uma pilha de nervos.
– Oh. Finalmente estou conhecendo a mulher que está arrancando o meu filho dos meus braços. – A mãe do Brian disse rindo, mas senti a verdade e o sarcasmo por trás de suas palavras. – Seja bem vinda, querida.
– Obrigada. – Disse quando ela me abraçou.
– Vamos. Entrem. – Ela disse, mas abraçou o Brian tão forte que ele precisou largar a minha mão e seguir com ela para dentro.   
                A todo momento eu me sentia um peixe fora d´água naquela casa enorme. Não consegui participar dos papos e nem entendia muito bem sobre os assuntos que envolviam pessoas da alta sociedade de São Paulo e de Paris que eles falavam. Sempre surgia o nome de uma mulher no meio, mas só pude confirmar quem era no dia seguinte. Uma festa foi realizada para comemorar a volta do Brian e essa tal estava lá sorrindo e sempre que podia pendurada do braço dele, mesmo eu estando perto. Estava claro que a sua mãe já tinha escolhido a sua futura nora.
– Amor? – O Brian me chamou naquela noite quando acordou e eu estava de pé olhando pela janela.
– Estou bem. Volte a dormir. – Disse e tentei disfarçar ao enxugar o meu rosto.
– O que houve, Pantera?
– Sua mãe não gosta de mim e foi humilhante ver como ela jogava aquela mulher para cima de você o tempo todo. As pessoas me olhavam com desprezo e riam o tempo todo de mim. Quero voltar para o Brasil e viver a minha vida longe dessas pessoas e dessas coisas o mais rápido possível. Sei que você tem compromissos aqui e se quiser ficar tudo bem, mas eu preciso sair daqui antes de enlouquecer. – Despejei tudo de uma só vez segurando minha cabeça que doía de tanto chorar em silêncio para não acordá-lo.
– Não! – Ele arfou quando me abraçou pelas costas. – Você entendeu errado, amor.
– Não entendi errado, entendi certo.
– Pantera.
– Como você se sentiu quando o Charles me beijou no rosto? Ou como você se sente cada vez que o Fabrício me liga para falar de um novo projeto? Não tenho nada com eles, mas percebi que você já teve com essa mulher que sua mãe a quer como nora a todo custo.
– Você é a minha única. – Ele gemeu e beijou o meu pescoço.
– Eu te amo tanto. – Gemi e chorei apertando os braços dele ao meu redor.
– Vou providenciar a nossa volta assim que amanhecer. Acho que podemos viajar pelo Brasil mesmo ou ir à Argentina, o que acha?
– E os seus compromissos?
– Cuido disso ainda de manhã e vou dar um jeito de voltarmos o quanto antes, te prometo. – Ele disse olhando nos meus olhos. – Oh, amor. Não fica assim.
– Quero ir para casa.
– A nossa casa ou a dos seus pais?
– Onde você estiver, Brian.
                Ele me abraçou e fez amor comigo até eu relaxar e dormir. Tive pesadelos dele me deixando e acordei assustada com a cama vazia. Ele estava no closet colocando um terno para sair. Eram 8 da manhã e ele já tinha reorganizado a sua agenda para partirmos sem nem avisar os seus pais. Nem precisa dizer que eles não gostaram da ideia e a mãe dele simplesmente me fulminou com os olhos. Preferi ficar no quarto o resto do dia para evitar qualquer discussão ou constrangimento. Só saí para almoçar quando o Brian chegou, mas voltei quando ele saiu novamente.
                Foi um alívio desembarcar no Rio, mas um furacão passou por cima de mim quando vi ainda no aeroporto uma revista em que o Brian almoçava com a tal mulher no dia em que resolvemos voltar para casa. Eu não queria uma cena na rua, muitas pessoas nos olhavam passar. Me controlei e comprei a revista enquanto ele cuidava das bagagens e o confrontei em casa.
– Como você pôde fazer isso comigo depois do que te falei? – Gritei quando chegamos em casa e joguei a revista nele.
– Do que você está falando?
– Está na capa! E estou indo embora agora. Não acredito que ainda estou aqui. Eu deveria ter saído do aeroporto direto para casa.
– Você está em casa! – Ele gritou.
– Estou na sua casa, não minha. – Disse calmamente e segui para o quarto.
– Ela estava na minha agenda de compromissos o tempo todo. É advogada e eu precisava resolver algumas coisas.
– Você almoçou com ela e depois comigo! Que idiota! – Gritei comigo mesma. – A sua mãe sabia o tempo todo.
– Deixa a minha mãe de fora disso, Pantera.
– Como se ela fez de tudo para me fazer sentir um lixo e abaixo de todo mundo lá? Como se ela armou aquela festa e jogou aquela piranha em cima de você na minha frente. Ela me humilhou e contou com toda a alta sociedade de Paris para fazer isso. Um bando de riquinho esnobe que não sabe sequer lavar uma louça!
– Amor.
– Vou embora. Preciso ficar longe disso tudo, não me faz bem. – Disse olhando em volta.
– Você não me ama mais, Sabrina?
– Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu te amo com desespero, o mesmo que estou sentindo agora. – Chorei ao dizer e me sentei no chão ao lado da cama.
– Vem. Vamos ficar aqui. – Ele disse ao me pegar no colo e nos deitar na cama.
                Ficamos conversando por uma boa hora até que ele me convenceu a ficar e tentar relevar tudo que aconteceu. Tentei, mas não consegui e ele pareceu desistir por um tempo. Ainda tínhamos dias de férias pela frente e iríamos passear por onde nós quiséssemos, de preferência onde não tivessem mães intrometidas ou mulheres querendo tirar o meu homem a todo custo. Foi o que aconteceu. Fomos à praia, a um clube privado onde almoçamos e dançamos. Ele me levou para Argentina onde ficamos 4 dias e também para o Uruguai. Foram as minhas melhores férias.          
                A volta a rotina aconteceu de forma suave e sem estresse. Ele tinha seus compromissos, eu tinha os meus, mas sempre que possível ficávamos juntos, principalmente à noite quando dormíamos abraçados. Eu fui a alguns jantares de negócios dele e ele conheceu alguns dos meus poucos amigos. O Brian estava lentamente me inserindo na sua vida social, dava para perceber, mas era complicado me preparar para isso passando o dia em uma oficina. Éramos como água e óleo, densidades diferentes, mundo diferentes, coisas que não havia jeito de se obter uma substância homogênea.
                A sua mãe não desistiu de empurrar aquela tal mulher para o meu namorado, sempre que podia fazia comentários de como ela era bem sucedida na carreira e como essa era promissora. Eles fizeram comentários em uma visita surpresa antes do começo das corridas para questionar a administração da mansão de São Paulo. Eu era apenas uma mecânica. O meu projeto de montar a minha própria oficina estava seguindo bem e eu queria que a coisa desse certo. Eu queria provar a minha capacidade, precisava disso para me sentir digna e capaz, mas a verdade era que eu queria esfregar na cara de muita gente. Me prender aos desejos e a carreira do Brian não poderiam estar nos meus planos por alguns anos, seria o mesmo que confirmar que eu não era capaz de viver do meu sonho, da minha profissão. Briguei com muita gente no trajeto, principalmente os meus pais e largar tudo por conta de um namorado seria a derrota. Eu o amava muito, mas me amava também e achava que eu merecia vencer, assim como ele.
                O Brian começou bem nas primeiras provas e as propostas de migração para a Fórmula 1 começaram a surgir. Eu sentia como ele ficava empolgado e que era o seu real desejo e ambição. O chefe da equipe se mostrava eufórico a cada encontro, eles se reuniam muito. O Fabrício também comentava comigo nos nossos encontros profissionais. Ele me incluiu em vários projetos como auxiliar e isso me gerava uma verba a mais que ia direto para o fundo de investimento da oficina.
– Você já preparou a sua bagagem? Parto amanhã. – O Brian me lembrou em uma quarta de agosto. Era feriado e tínhamos voltado para a cama.
– Não posso. Esqueceu que estamos com o projeto atrasado? – O lembrei. – Nós conversamos sobre isso no jantar de ontem, Brian. Você não prestou atenção?
– Prestei...
– Mentira! – Resmunguei e me levantei. – Você só pensa na sua carreira. Será que a minha não é importante? Eu me importo com ela. Não ganho milhões por ano como você, mas tenho orgulho do que eu faço. Por favor, me dê um pouco mais de valor, Brian.
– Ih...
– Ih, o que? – Gritei.
– Você está de TPM de novo? – Ele brincou me enfurecendo.
– Não. Estou apenas cansada de ser medíocre ao lado do grande Brian Portman! Quer saber? Preciso dar uma volta.
– Vem cá, Pantera. – Ele resmungou.
– Não posso ficar perto de você agora, Brian.  
                Mudei de roupa, passei a mão na minha bolsa que estava sobre o sofá da sala e saí. Eu precisava pensar e com ele perto era impossível. O Brian não entendia, ou não queria entender as minhas convicções. Eu sequer me atrevi a falar com ele sobre a minha oficina, tinha certeza de que ele não concordaria e colocaria empecilhos. Ele queria me levar para onde fosse, mas eu não era uma boneca de pano para ser guiada. Enquanto o ônibus seguia eu ficava mais furiosa.
– Filha? – Minha mãe arfou quando abriu a porta para mim.
– Ele está me dando nos nervos! – Resmunguei e entrei.
– O que houve dessa vez?
– Dessa vez? É sempre a mesma coisa. Ele não dá a mínima para o meu trabalho. Eu ralo pra caramba na oficina e ainda com os projetos com o Fabrício. E ele escuta quando eu falo? Não... Ele só quer saber da própria carreira! – Gritei.
– Calma, filha.
– Não consigo, mãe! Ele é impossível.
– Mas você gosta dele.
– Gostar não é tudo na vida! Eu mereço respeito pelo meu trabalho, não importa se ganho mil ou um milhão! Mas ele entende? Não...
– Senta e respira, Sabrina. Você está vermelha!
– Estou pegando fogo de raiva dele!
– Vocês voltaram a falar do ano que vem?
– Não e nem quero. A minha decisão está tomada e ele sabe disso, mãe. Não vou atrás dele para viver como uma cadelinha que não faz nada da vida! Não mesmo!
– Calma, Sabrina.
– Calma? Como calma? O que eu vou fazer indo com ele? Me fala.
– Às vezes nós temos que tomar certas decisões na nossa vida que nem sempre nos agradam, filha. Você tem que ter consciência de que ele vai seguir a carreira fora do Brasil e você ficará. É isso que você quer?
– Não, mãe. Eu queria ficar com ele, mas não quero ir embora. Tenho os meus sonhos e as minhas ambições também. Sei que o dinheiro...
– Não estou falando de dinheiro, Sabrina. Estou falando dos seus sentimentos. Ele foi o seu primeiro namorado e sei que você deve viver antes de tomar qualquer decisão. Apenas pense bem antes de agir e saiba que a casa da mamãe está sempre aberta para você.
– Eu quase não tenho ficado aqui, não é?
– Mas nós entendemos. Vai descansar um pouco no seu quarto que vou preparar um almoço gostoso.
                Eu obedeci e acabei dormindo depois meia hora chorando sem parar. Eu sentia falta dele e tentava me conformar com o fim da nossa relação. Eu sabia que não teria outro desfecho quando novembro chegasse. Ele tinha o direito de seguir com a própria carreira e perseguir os seus sonhos, eu também.
– Não me deixa mais. – Despertei sentindo o corpo do Brian atrás de mim.
– O que...
– Eu te liguei tantas vezes, mas você não me atendia, então liguei para cá e a sua mãe me disse que você estava dormindo. – Ele sussurrou e me agarrou forte. – Vim atrás de você na mesma hora.
– Nós precisamos conversar, Brian.
– Outra hora. Só vamos ficar assim. – Ele pediu e enterrou o rosto nos meus cabelos.    
                Nós voltamos para casa depois do almoço. A minha mãe via como estávamos estranhos, mas se manteve de fora. Tentei conversar com ele quando chegamos, mas o Brian fugia do assunto a todo custo. Eu precisava ser sincera, mas ele sempre desviava o assunto e começava a falar dos benefícios que teríamos quando partíssemos para a Fórmula 1. Ele sempre falava tudo considerando “nós” como certo, mas não era assim que eu pensava.
                Todas as noites eu ficava horas apenas o olhando dormir, principalmente depois dele me amar com tanta ferocidade e vontade. Eu precisava guardar comigo todas as lembranças daquele ano perfeito, mas que estava chegando ao fim.
– Não acredito que você está escolhendo um trabalho que você pode ter em qualquer lugar do mundo a vir comigo, Pantera! – Ele gritou quando tivemos oficialmente a conversa.
– Não posso, Brian. Aqui tenho um currículo, lá fora não tenho nada!
– Tem a mim.
– Preciso viver aqui e seguir com os meus sonhos e ambições, não com as suas! – Eu gritei olhando nos seus olhos.
– Então você escolhe isso a mim? É isso mesmo que estou entendendo? Você prefere uma separação a deixar de lado essa sua mania de me enfrentar, essa teimosia e viver comigo?
– Não é teimosia!
– É sim. Você me enfrenta desde o começo. Não aceita as minhas decisões.
– Você não propõe decisões, você as impõe! – Gritei. – Você não aceita que eu queria ter uma carreira...
– Isso não é carreira, é emprego.
– Cala boca!
– Vem calar.
– Seu idiota!
– Marrenta, teimosa e... Droga, Pantera! Será que o que temos não é suficiente para você?
– Não! Não é! – Gritei e ele congelou olhando para mim.
– Então fica com a sua carreira e a sua arrogância. – Ele disse, passou a mão na carteira e saiu batendo a porta.
                Eu sabia que seria difícil, mas doeu demais. Ainda bem que estávamos sozinhos e não passei vergonha de me verem chorando tanto no chão da sala. Liguei para a minha mãe e avisei que estava voltando para casa. Eu apenas fiz as minhas malas com as roupas que eu usava para trabalhar, não quis levar nada dele comigo. Aqueles vestidos e roupas chiques não me serviriam para nada, apenas para lembrar de quando estávamos juntos.
– Onde você vai? – O Brian me perguntou quando voltou. Eu estava com a minha mala na mão.
– Voltando para onde eu nunca devia ter saído. – Sussurrei e coloquei a chave de casa sobre a mesa do corredor.
– Não precisa ser assim, Sabrina. A gente se ama.
– Eu sei, mas eu me amo também. Você um dia vai entender. – Disse ao passar por ele e lhe dar um beijo no rosto. – Boa sorte.
– Eu te amo. – Ele gemeu e me beijou.
– Também te amo e você sempre será o meu único, Brian.
                Parti com o coração doendo demais. Ele não me segurou, sabia que não tinha como me fazer mudar de ideia, tínhamos que viver nossos sonhos e ambições, uma pena que seriam em continentes diferentes. Peguei um taxi e parti de volta para a minha vida na casa dos meus pais. Eles não estavam, o que foi ótimo. Só quando entrei que me lembrei que aquele era o dia em que eles ficavam na casa da minha avó. Eu precisava ficar sozinha, não queria ver e nem falar com ninguém, então foi perfeito. No dia seguinte não consegui me levantar e liguei para a oficina dizendo que eu estava doente. Foi a primeira vez que isso aconteceu. Fiquei deprimida o final de semana inteiro, ainda mais depois dele mandar entregar tudo que era meu e que ainda tinha ficado no apartamento, inclusive o relógio que ele tinha me dado. A minha mãe não me deixou devolver nada, mas eu prometi que não usaria.  
                Sofri ao assistir a corrida do final de semana, fiquei mal, pelo visto o Brian também. Ele não conseguiu sequer completar a corrida, seu carro quebrou na 30º volta. Ele tinha forçado demais. Vi uma imagem que me chocou. Ele dentro do box discutindo com o chefe da equipe quando foi rebocado de volta e depois sumindo atrás de uma porta.
                A notícia da nossa separação não demorou a cair nos ouvidos da imprensa. Fiquei sabendo por que um dos meus clientes me chamou para sair dizendo que eu estava solteira e tinha que aproveitar a vida. Claro que eu neguei. O Fabrício me ligou no mesmo dia para dar uma força, mas eu pedi apenas para ele não tocar no assunto e ele respeitou. Eu evitava ao máximo ler notícias sobre ele, nem queria saber quando a minha mãe tentava contar algo. Só soube que 1 dia após o término da temporada ele estava partindo para a nova etapa da sua carreira. Resolvi viver a minha vida também.  
                Antes do final do ano eu já tinha todos os planos para a minha oficina catalogados e os planos traçados. O dinheiro que eu tinha conseguido juntar era suficiente para comprar as ferramentas, 1 elevador para carros, algumas peças básicas, computador e móveis para o escritório. Eu tinha visto um galpão que precisaria de pequenas reformas para acomodar tudo e reformar um pequeno espaço onde seria a oficina. Abrir a empresa seria um problema já que eu não entedia nada daquilo, mas tinha a esperança de convencer uma prima minha a ajudar. Ela tinha acabado de se formar em administração de empresas.
– Jura? Uau! Que legal, Sabrina. – O Fabrício vibrou quando contei os meus planos.
– Eu preciso te agradecer muito. – Disse segurando no seu braço. – Foi graças as comissões pelos serviços de auxiliar nos projetos que consegui juntar o dinheiro para a oficina. Essa semana vou procurar saber como movimentar toda a documentação.
– E o espaço?
– Tem um galpão que vi na semana passada que será perfeito. – Sorri ao dizer.
– E pessoal para trabalhar?
– A princípio será só eu. – Disse rindo. – Uma prima minha vai me dar uma força na administração. Você é o primeiro a saber depois dela e dos meus pais.
– Quanta honra. E o...
– Te pedi para não falar nele. – Resmunguei e ele ergueu as mãos.
– Ok. Desculpa.
– O Brian está vivendo como sempre quis. Ele merece e eu também. Então cada um na sua. – Relembrei e ele assentiu.
– E o nome? Já decidiu?
– Será... Pantera. – Sussurrei e ele riu.
– Perfeito, Sabrina. Não poderia ter um nome melhor. Mas me mostra o projeto da área. Sei que você já deve ter tudo esquematizado.
                E ele estava certo. Mostrei para ele a planta do local e onde tudo ficaria. Tinha uma área boa de manobra e um espaço para acomodar até 5 carros, um ao lado do outro. Dias depois ele me presenteou com uma parece suporte para acomodar todas as ferramentas. Ela era um painel com porta de correr perfeita. As ferramentas ficariam seguras quando o expediente terminasse.
                Demorou para o alvará de autorização sair, mas foi o tempo de preparar todo o espaço do jeito que eu queria. Depois de pedir demissão da autorizada eu tive tempo de sobra para trabalhar firme na minha empresa. O galpão era muito bem localizado, bem ao lado de uma rua muito movimentada. O Fabrício me ajudou a criar a logo da Pantera Peças, Manutenção e Automóveis. Eu era ambiciosa e já pensava no futuro. Eu queria crescer e transformar a Pantera em algo grande, em uma empresa que fazia desde a manutenção até venda de carros. Os meus pais estavam me dando todo apoio moral possível.
– Está tudo perfeito, filha. É como você sonhou? – A minha mãe perguntou.
– É sim, mãe. A Fernandinha está me ajudando muito e acreditando no potencial da Pantera. – Disse sorrindo enquanto via a minha prima catalogando as peças depois de colocá-las sob o balcão para exposição.
– Quando será a inauguração?
– Sexta feira, às 8 em ponto eu abro oficialmente a Pantera.
                Convidei alguns amigos de trabalho, algumas colegas do colégio e o Fabrício disse que tinha contado ao pessoal da ex-equipe do Brian. Apesar da nossa separação, continuei amiga de alguns deles, inclusive do Francisco Lopes. Me surpreendi quando 2 ex-colegas da autorizada pediram para trabalhar na minha oficina menos de uma semana da inauguração. Eles sabiam que eu estava começando e não sabia como seriam seus pagamentos pelos próximos meses, mas eles acreditaram no potencial da Pantera e fechamos um acordo. Nós veríamos como seriam os primeiros serviços e depois conversaríamos sobre salário.
O meu macacão estava pronto e o uniforme da Fernandinha também. A Pantera estava legalizada, tinha suporte de equipamentos para trabalharmos, lojas de peças para reposição próximas e contatos em várias outras pela cidade que poderiam nos enviar as peças. Eu estava bem tensa e quase não dormi naquela noite, mas o dia nasceu e eu parti para o meu primeiro dia como empresária.
– Eu sabia que você conseguiria. – O dono da autorizada onde trabalhei disse assim que abri o portão da oficina.
– Você veio! – Arfei e ele me deu um abraço.
– Muito sucesso para você, menina. Eu sabia que você tinha muito potencial. Ainda bem que a sua oficina é longe da minha, então não disputaremos clientes. – Ele brincou. – Sempre que puder vou te indicar.
– Farei o mesmo.
                Várias pessoas foram conhecer a oficina e gostaram muito do espaço. Era grande e organizado. Limpo principalmente. Eu tinha aprendido desde cedo que uma oficina organizada e limpa era o espelho de uma boa administração. O meu primeiro cliente foi o vizinho. O carro dele tinha “fumaçado” quando ele chegou para trabalhar em sua loja, uma empresa de cortinas e persianas. Outros clientes foram chegando e os mecânicos começaram a trabalhar.
– Encomenda para Sabrina. – Um rapaz chegou ao meio dia com um lindo e enorme buquê de flores.
– É aqui mesmo. – A Fernandinha disse e leu o envelope. – Vou colocar na sua mesa, Sabrina.
– Obrigado. Já vou lá. – Avisei enquanto terminava com o carro.     
               
Estou muito feliz que você tenha conseguido realizar o seu sonho e ele não poderia ter um nome diferente. Será um sucesso como você sempre foi.
Ainda te amo, minha única.
            Seu, Brian.

                Aquilo me fez chorar muito no escritório. Pensei em ligar e agradecer, mas eu não sabia se ele estava no Brasil ou fora, nem se deveria. Seria masoquismo ouvir a sua voz e dizer adeus novamente. Ele estava sabendo de tudo que acontecia na minha vida, assim como eu acompanhava a sua carreira, mesmo à distância. Eu sabia de cada corrida e que ele ainda não tinha conseguido vencer nenhuma. Ficava pensando em como ele devia estar ansioso, mesmo sabendo que seu contrato não estipulava prazos e metas. Ele tinha um período de adaptação para a nova categoria, precisava se sentir seguro no novo carro e na nova equipe, mas eu acreditava nele como sempre acreditei.
– Você está bem? – A Fernandinha perguntou quando entrou na minha sala.
– Vou ficar. – Disse ao enxugar o meu rosto. – Cuida delas para mim.
– Deixa comigo. Você precisa de algo?
– Não... Estou apenas dando um tempo.
– Tudo bem. – Ela disse e ia sair, mas virou. – Chegaram mais dois carros.
– Estou indo.
                Fiz o máximo para suprimir a dor que martelava no meu peito e voltei para o batente. Foi uma ótima inauguração, não poderia ser mais perfeita. No final do expediente o Fabrício apareceu por lá. Ele não pode ir antes porque estava preso em algumas reuniões com clientes. O pátio estava lotado e ainda tinha um carro no corredor esperando a vez. Eram serviços grandes que nos renderia um bom dinheiro logo de cara. Foi o início perfeito.
                Eu tinha um gasto certo mensal para manter a oficina e consegui o montante no meio da segunda semana, foi um alívio. Aquele ponto era ótimo realmente. Tinha sido ocupado por academias de judô por alguns anos, mas era perfeito para um oficina por estar beirando uma rua de movimento e era em uma área residencial.
                Dois meses depois da inauguração eu comecei a sentir o peso da distância entre a oficina e a casa dos meus pais. Mesmo depois de fechada, eu ficava trabalhando para liberar os carros, senão acumulava. Eu não tinha que reclamar, era aquilo que eu queria e tinha conseguido mesmo no meio de um país onde se ter uma empresa é lutar com um leão a cada dia. O cansaço me deixava mais abatida, então comecei a procurar um apartamento para alugar perto da Pantera e encontrei em um prédio na mesma rua. Ele era pequeno e aconchegante, perfeito para mim. O aluguel não era muito caro, mas o condomínio era de matar. Como eu estava conseguindo tirar um salário melhor do que o que eu tinha antes da Pantera, encarei e aluguei. Os meus pais não gostaram, mas fui firme na decisão e eles me ajudaram a comprar os móveis principais. Eu só precisava de um fogão, uma geladeira, um sofá, uma cama e um armário, mas eles ainda me deram mais coisas. Levei os móveis do meu quarto para não precisar comprar, inclusive a TV grande que eu tinha comprado logo que consegui guardar um dinheiro. Me mudei em tempo recorde.
– Feliz? – Minha mãe perguntou enquanto eu desencaixotava alguns livros.
– Muito. Está dando tudo certo. – Sorri ao dizer e vi que naquela caixa só tinham revistas antigas do Brian.
– Você ainda gosta dele, não é?
– Gosto, mãe. Mas não era para ser.
– Quem sabe, as coisas podem mudar. – Ela disse e acariciou os meus cabelos e a abracei.
– Sinto tanta falta dele, mãe.
– Eu sei, filha.
                Fiz o possível para me acalmar e deixei aquela caixa fechada. Outro dia eu tomaria coragem e resolveria o que fazer com elas. Quase as joguei fora quando assisti um programa de fofoca em que mostrava o Brian almoçando com aquela vadia que a mãe dele sempre jogava para cima dele. Fiquei com muita raiva e quase taquei o controle remoto na TV, foi por pouco. Fiquei mal humorada por uma semana inteira, era difícil conviver comigo mesma.
– Eu sabia que ele seguiria em frente, Fabrício. – Comentei quando nos reunimos em um sábado para dar continuidade em um projeto. Foi depois que fechei a oficina.
– Não acredite em tudo que lê, Pantera.
– Não preciso ler nada, as imagens mostram tudo. Só uma idiota como eu fica pensando no primeiro namorado.
– Já te chamei para sair várias vezes, mas você continua me dispensando.
– Deixa de bobagem, Fabrício. – Resmunguei quando ele riu.
– Sério. Estou na área de espera esse tempo todo e você nem me nota? Sou tão feio assim?
– Você é lindo e tem um sotaque encantador. – Disse sorrindo e ele me tacou uma batata frita. – Ei!
– Vamos trabalhar que é o melhor que fazemos. Você não vai me dar uma chance mesmo. – Ele resmungou fingindo sofrimento.
– Morrendo de pena de você.
                Voltamos para as modificações de um novo motor para um iate que ele tinha pego. Era um trabalho super sofisticado e nem era nacional. O Fabrício era um engenheiro conceituado e procurado por pessoas do mundo todo. Uma vez ele comentou que terceirizar o projeto saía mais barato para as fábricas, mesmo com um contrato que regia as regras muito bem. Ele não podia revelar nada daquilo e eu também.
– E aí, Pantera. – O Charles, aquele mecânico que me provocou em uma corrida do Brian me saudou um dia na oficina.
O Fabrício estava lá para me entregar o pagamento pelo serviço de auxiliar no projeto do motor do iate e ficou ao meu lado olhando o Charles.
– Oi. – Disse achando estranha a forma como ele nos olhava. – Em que posso te ajudar?
– Nada. Só queria conhecer a Pantera. – Ele disse e olhou em volta. – Muita gente tem falado de você, sabia?
– Não, não sabia.
– É... Parece que o Brian não te esqueceu e andou fazendo umas bobagens por aí.
– Do que você está falando?
– Você não lê jornal? Ele virou notícia de novo. Andou bebendo demais na Alemanha e foi preso de novo.
– De novo?
– Ih, garota. Você tem que tirar essa cabeça do...
– Charles! – O Fabricio resmungou o parando.
– Quer dizer que vocês são um casal mesmo como o pessoal tem falado? – O Charles debochou.
– Não! Somos amigos. – Resmunguei e o Fabrício assentiu.
– Não temos nada além de compromissos profissionais, nada além disso, mesmo que eu já tenha a chamado para sair e ela continua dizendo não.
– Não coloca lenha, Fabrício. – Disse rindo e o soquei no braço.
– Ai! Não precisa partir para a violência, Pantera.
– Estou vendo como vocês estão bem entrosados, digamos assim. – O Charles disse nos indicando. – Mas vou nessa. Só queria conhecer a oficina da Pantera. A mecânica que partiu o coraçãozinho do menino.
                Ele partiu, mas aquelas informações ficaram. Questionei o Fabrício e ele disse que estava sabendo de tudo, mas não comentou já que eu pedia para não falar no Brian. Me preocupei e quando cheguei em casa pesquisei na internet. Estava lá. Ele tinha se metido em muita confusão, fiquei chocada e muito preocupada. Depois de meses sem nenhum contato além das flores que ele me mandou, eu escrevi um e-mail para ele pedindo para que se cuidasse. Ele me respondeu na mesma hora dizendo que sim, apenas uma palavra veio na tela, SIM.
                Ele prometeu e cumpriu. Seu comportamento mudou na corrida seguinte e ele venceu pela primeira vez. O Brian era o nome do futuro na Fórmula 1 e voltou a ser considerado assim. Fiquei ao mesmo tempo feliz e triste. Sua carreira estava segura, então continuei com a minha.     
– Você estava sendo conhecido como o badboy das pistas nos últimos meses. Houve até uma especulação do cancelamento do seu contrato e até sobre uma advertência do seu patrocinador, mas do dia para a noite... Puff! O que te fez mudar de repente, Brian? – Uma repórter o questionou em um programa de domingo na TV que eu estava assistindo cerca de um mês depois.
Eu já estava na cama e adorava aquele programa. Me assustei em vê-lo. O Brian estava bem mais magro e seu rosto abatido.  
– Recebi um e-mail e não queria mais decepcionar... Ninguém. – Ele comentou e deu aquele sorriso que eu tanto amava.
– De uma fã?
– De uma pessoa que é muito mais que isso.
– Sei... Não vai nos contar?
– Não. O que importa é que ela sabe que mudei por causa dela, então é suficiente.
– Paixão?
– Amor. – Ele a corrigiu.
– Uhm... Brasileira?
– A mais linda de todas. Linda e inteligente, mas extremamente teimosa, sua melhor qualidade. – Ele brincou e fiquei roxa de raiva.
– Pantera?
– Você quem está dizendo.
– Vamos lá... Estamos só nós dois aqui. – Ela brincou.
– Sim, é a minha Pantera. A minha única. Foi por ela que parei. – Ele confessou e chorei. Ele sempre me chamava assim.
– Afinal, porque vocês se separaram se você ainda gosta dela?
– Temos caminhos distintos a percorrer, então, se for para ser, ficaremos juntos novamente.
– Você saiu com algumas...
– Não. A imprensa noticiou que saí com algumas mulheres desde que entrei para a Fórmula 1, mas não é verdade.
– Você tem medo de que ela nunca mais queira algo contigo se você sair com outra mulher?
– Nós não prometemos nada um ao outro. Eu simplesmente não quero ninguém.
– Mas...
– Ninguém.
– Entendi. Seu coração pertence a Pantera.
– A minha única.
– Única? Conta isso direito.
– Não... Isso é somente entre eu e ela. – Ele disse sorrindo.
– Já estou vendo que não conseguirei arrancar nada sobre isso de você, então me fala. Como foi essa transição?
– Digamos que foi sofrida, doída, massacrante, mas era a minha opção e meu objetivo desde criança. Eu sempre gostei de velocidade e persegui o meu sonho de estar na Fórmula 1. Ainda tenho muito que aprender, mas estou muito bem até agora. Tenho fé que as coisas ficarão perfeitas, um dia a minha vida será mais completa se tudo acontecer como eu preciso. Tenho fé nisso.
– Você sempre consegue o que quer?
– Não é o caso, mas eu me empenho. Existem coisas que não dependem de nós, mas de terceiros, então eu apenas torço e rezo muito para que as coisas entrem nos eixos.
– Reza?
– Sim, todas as quintas vou à missa, sempre às 18 horas. – Ele contou e chorei mais. Ele passou a ir comigo depois do seu acidente. Viu como era importante para mim aquele momento. – Aprendi que a gente deve sempre buscar consolo e aconchego em algo que está acima de nós.
– Lembro de ver uma imagem da Pantera te abraçando com um terço na mão. Isso vem dela também?
– Acho que a gente deve absorver tudo de bom de quem está ao nosso lado. Essa foi uma das coisas que absorvi dela. Eu não era muito religioso, mas depois que passei a ir com ela todas as quintas me senti melhor. Andei meio rebelde, mas voltei para os trilhos... Ou a pista. – Ele brincou me fazendo sorrir.
– Te amo. – Sussurrei acariciando a tela.
– E a equipe nova? Vocês conseguiram se acertar depois da terceira mudança do chefe dos mecânicos? – A apresentadora perguntou e eu estranhei.
– Eu preciso de alguém em que eu possa confiar 100% e os 2 anteriores não foram capazes de entender o que eu precisava. Sei que sou complicado, mas exijo que a minha equipe seja 100% comprometida. Aprendi que é a minha vida que está em risco e nada mais vale do que isso. Campeonato, prêmio ou patrocínio. Evento, festa ou seja lá o que for. Se tiver que abrir mão, abro em prol da segurança.
– Uau!
– Deve ser assim, senão a coisa não funcionada.
                Ele pareceu meio chateado, mas convicto e gostei. A entrevista continuou e eu sentia cada coisa que ele me direcionava. Era como se ele soubesse que eu estava lá assistindo. No dia seguinte eu percebi a troca de olhares da minha equipe na Pantera, mas ninguém disse nada. A Fernandinha era muito profissional e se manteve distante de assuntos que me lembrariam o Brian, como se fosse possível não pensar nele a cada dia da minha vida.
                Com o passar dos meses eu fui conseguindo uma clientela mais seleta que vinha de longe para colocar seus carros nas minhas mãos. A Fernandinha conseguiu um acordo com seguradoras de carros top de linha importados. Eram todos serviços grandes que nos rendiam uma boa entrada. Quanto mais caro o carro era, mais caras eram as suas peças e consequentemente o orçamento da mão de obra. Graças a um desses serviços que conheci a Marla. Ela era dona de uma frota de carros que serviam os diretores de uma multinacional entre outros, então os carros estavam em manutenção constante. Fizemos uma parceria que rendeu a Pantera uma entrada certa mensal com contrato fechado de 6 meses iniciais podendo ser renovado. Eu me reuni com os mecânicos e fiz um acordo com eles, direcionado e baseado nessa parceria. Eles gostaram de saber que seus salários sofreriam reajuste enquanto a parceria se mantivesse. Foi uma forma que encontrei de motivar a minha equipe. Eles teriam uma agenda para fazer a manutenção dos carros, não iria interferir no andamento da empresa.
                A Pantera ia muito bem e eu estava feliz. Com oito meses de empresa eu pude contratar mais dois mecânicos para dar conta de todo serviço. Muitas mulheres vinham até a oficina indicadas por amigas que gostaram do que encontraram. Na Pantera a mulher tinha a explicação exata do serviço que seria executado sem enrolação ou enganação, tinha uma área com TV e ar condicionado, café e água para relaxar enquanto aguardava o carro ficar pronto e se marcasse com antecedência poderia até ter serviços extras. Uma manicure fez a proposta e conseguiu me convencer de que seria um diferencial. Ela me atendia normalmente nas sextas às 4 da tarde quando eu parava o meu serviço. Um dia chegou mais cedo e atendeu umas clientes que estavam esperando, foi um sucesso. Depois do Brian eu passei a me sentir mais feminina, pelos menos até a segunda quando sujava as minhas mãos de graxa novamente. Eu tinha hora com manicure e cabeleireiro sempre que havia necessidade. Outra coisa que mudou depois de alguns meses foi o meu círculo de amizades.
– Vamos almoçar juntas amanhã e nem reclama. – Simone, uma cliente que se tornou amiga me convidou em uma sexta.
– Eu preciso fechar a oficina ao meio dia, Si. – A lembrei.
– Te pego que horas? – Ela questionou de braços cruzados. – Chega de chorar pelo bonitão, menina! Você precisa sair mais e ver o mundo! Vamos começar com um almoço no clube.
– Clube?
– É. Não esquenta e leva um biquíni. Vamos nos divertir um pouco. Vou levar meu marido e meus filhos e vamos passar um dia de sol no clube. Você vai gostar, te garanto!
– Se você vier de novo com um pretendente eu pego as minhas coisas e vou embora! Está avisado.
– Juro pelos meus filhos que só quero passar o dia no clube com uma amiga. Eu já percebi que você ainda ama o Brian e não vou forçar uma barra.
– Obrigada. – Suspirei aliviada e ela riu. – Sério. Estou cansada de quererem me arrumar um namorado.
– Seus amigos só se preocupam contigo. Amor platônico à distância não dá certo. Há quanto tempo vocês não se falam? Há quanto tempo vocês se falaram pessoalmente ou por telefone?
– Desde o dia em que eu saí do seu apartamento. – Murmurei e ela se espantou.
– Sério? Achei que vocês teriam se falado durante esse tempo.
– Não. Ele não em procurou e nem eu a ele. Só tivemos 1 troca me e-mail, apenas isso. Ah! Ele me mandou flores quando inaugurei a Pantera.     
                Foi um sábado maravilhoso em companhia da família da Simone. O seu marido era um alto funcionário de um banco americano, mas falava muito bem o português. Ele ficou impressionado quando eu comecei a conversar com ele em português e migrei naturalmente para o inglês. Ficamos conversando por horas, ele era muito inteligente e gentil. Fiquei sabendo que a Simone era cliente do banco e eles se apaixonaram assim que se olharam há mais de 15 anos. Eles falavam que foi amor à primeira vista e eu sabia muito bem o que era aquilo. Os seus filhos ficavam fingindo vomitar quando os dois se beijavam. Era lindo e deprimente, eu tinha perdido aquilo. Ver sem saber o que era ter aquele sentimento era difícil, saber era torturante, mas tentei desviar meus pensamentos e voltei a curtir a agradável companhia.
                Depois daquele dia eu percebi que podia viver no meio de outras pessoas sem me sentir esmagada. A Fernandinha dizia que era um sinal de síndrome do pânico, mas eu não aceitava aquela opinião leiga. Resolvi agir da forma como eu podia e enfrentei. Comecei indo ao shopping e depois ao cinema, mesmo fazendo tudo isso sozinha. Encontrei o Fabrício uma vez por acaso passeando com a sua namorada. Ela não gostou muito de mim, mas não me preocupei. A minha relação com ele era puramente profissional e ela teria que entender como todos os outros, inclusive ele que desistiu depois de 4 meses da minha separação.
                A Marla também se tornou uma grande amiga, minha e da Fernandinha. Éramos convidadas para eventos e festas, mas eu raramente ia, ao contrário da minha prima. Aquela sabia curtir a vida e os momentos, eu tinha meu coração fechado para os homens. Somente 1 tinha a chave e ele estava a um oceano de distância.
– Vou fechar esse motor e termino amanhã. – Comentei com a Fernandinha em um final de tarde de dezembro.
– Achei que você viraria a noite nele. – Ela comentou e seu celular tocou. – Alô... Que droga!
– O que foi? – Questionei quando ela bateu o pé no chão.
– Sei... Tá, mas não demoro. Já estamos fechando aqui. Beijo, mãe. – Ela disse e desligou, depois me olhou. – Era a minha mãe. Ela disse que está na TV. Tem uma manifestação lá no final da avenida e está congestionando tudo.
– É bem longe daqui, não se preocupe.
– Não estou preocupada, estou chateada. Os ônibus estão ficando presos atrás de tudo. Acha mesmo que vão enfrentar? A minha mãe não quer que eu voltei de ônibus e terei que descer a rua até o metrô.
– A tia é inteligente. – Brinquei e ele me mostrou a língua.
– Vai estar lotado! – Ela resmungou. – São só alguns bairros até em casa de ônibus. De trem eu solto mais longe e tenho que ir andando. Com esse tempo do jeito que está é capaz de eu pegar chuva.
– Para de reclamar...
– Chata.
– Metida.
– Nojenta.
– Patricinha! – Brinquei e ela começou a rir.
– Ok. Depois dessa eu vou pegar a minha bolsa de grife e enfrentar o metrô. Tenho um encontro hoje... Ele é lindo e gostoso. Vai me levar ao cinema e depois... Só Deus sabe.
– Assanhada!
– Alguém tem que transar nessa empresa, não é? – Ela brincou, mas eu não acompanhei. – Qual é... É brincadeira. Você precisa de um homem para melhorar o seu humor. Sabe que uma ligação e o bonitão chega aqui rapidinho.
– Boa noite, Fernandinha. – Disse e ela riu.
                Eu tinha acabado de fechar o capô do utilitário e estava recolhendo as ferramentas para ir embora também. Tudo aconteceu muito rápido depois daquilo. A Fernandinha pegou as suas coisas e puxou o grande portão que isolava a parte externada da oficina onde tinha um pequeno jardim. A minha mãe cuidava dele com muito carinho e eu o achava lindo. Lá haviam plantadas as minhas flores favoritas bem abaixo de uma grande placa com o nome da empresa. De repente ouvi uma grande freada e gritos.
– Corre! – Gritei quando vi a Fernandinha do lado de fora olhando para o outro lado da rua.  – Entra na loja do Silva!
– Socorro! – Uma mulher entrou correndo pela abertura do portão.   
– Vadia! – Ouvi um homem gritar do lado de fora e quando viu para onde ela correu, veio atrás.      
– Se abaixa aqui. – Disse quando ela me viu e fez o que eu mandei. Passei a mão na chave de roda grande que estava no chão e a olhei. – Fica quieta. Toma o meu celular. Liga para a polícia.
– Ele está armado. – Ela sussurrou tremendo quando pegou o celular.
– Shh. Fica quieta.
– Eu vou te pegar e quem está contigo. – O homem disse e vi a sombra dele se aproximando.
– Não hoje. – Arfei e, com muita força, investi a chave de roda direto na barriga dele, depois na sua mão que segurava a arma.
– Puta que pariu! – Ele gemeu no chão e me olhou. – Filha da puta.
– Não xinga a minha mãe. – Disse e lhe dei um forte chute na cara com a minha bota pesada. Ele desmaiou na mesma hora.
Naquele momento ouvimos tiros e um homem passou correndo na frente da oficina. Logo depois vi policiais o perseguindo. Corri e fechei o portão para nos proteger. A moça tremia atrás do carro, então peguei umas braçadeiras plásticas e prendi as mãos e os pés do bandido que a tinha perseguido.
– Muito obrigado. – Ele disse chorando quando me abraçou. – Você salvou a minha vida.
– Você ligou para a polícia? – Perguntei quando a coloquei sentada dentro da recepção.
– Liguei. – Ela disse chorando.
– Polícia! Você não tem como sair. Libera as moças. – Ouvimos gritarem do lado de fora.
– Que é? – Gritei perguntando.
– Polícia, moça.
– Ok. – Disse e com cuidado olhei para a frente da loja. Realmente tinham alguns policiais ali. – Vou abrir.
– Onde está o marginal?
– Lá perto do carro azul. – Avisei quando abri e eles entraram.           
                Eles carregaram o bandido desmaiado para dentro de um camburão, só depois voltaram para falar conosco. A moça tremia enquanto bebia uma água e tentava contar o que tinha acontecido. Eles a pegaram no shopping e estavam indo fazer um saque. Era um sequestro relâmpago. Um dos homens estava no carro com ela e o outro no outro carro dando cobertura, mas eles tinham se separado no sinal 2 ruas atrás. Quando ela viu a porta da oficina aberta e o trânsito ficou parado, jogou a bolsa na cara do marginal e saiu correndo para tentar se proteger. Me pediu desculpas, mas garanti que estava tudo bem.
– Cecília! Cecília! – Ouvi gritarem do lado de fora. – Me deixa passar. É a minha mulher! Cecília!
– Daniel. – Ela gemeu e se levantou para abraçar o homem que entrou correndo.
– Meu amor! – Ele a abraçou forte e depois se ajoelhou para beijar a sua barriga. Só naquele momento vi que ela tinha o estômago meio inchado. – Vocês estão bem?
– Estamos graças a ela. – Ela disse e me olhou.
– Muito obrigado. Muito mesmo! – O homem disse e segurou as minhas mãos, depois as beijou.
– De nada. – Murmurei.
                Os policiais pegaram os nossos depoimentos para que pudéssemos partir, mas a frente da oficina estava cheia de curiosos, inclusive a imprensa. Só naquele momento eu soube que se tratava de atores de televisão. Como eu não era de acompanhar novelas, não os reconheci. Eles foram logo questionados e ela contou que eu a tinha salvo. Tive que confirmar, mas fiquei bem sem graça. Poucos minutos depois o Fabrício apareceu na oficina ao lado dos meus pais, da Fernandinha e dos meus tios. Estavam todos preocupados. A notícia estava na TV.
– Você está bem, filha? – Minha mãe questionou e me abraçou. – Como isso aconteceu, Sabrina?
– A sua filha é minha heroína, Senhora. – A Cecília disse e a minha mãe sorriu ao reconhecê-la. – Mais uma vez obrigado, Sabrina.
– De nada. Se cuida, viu? – Disse quando ela me abraçou.   
                No dia seguinte a Pantera estava em todos os jornais na TV e na banca. A moça era realmente famosa e deu entrevistas contando com detalhes tudo o que tinha acontecido. Foi um marketing grande, eu tive que reconhecer. Algumas emissoras de TV especularam se eu daria alguma entrevista, mas só aceitei uma depois de muita insistência. Foi constrangedor, fiquei muito tímida no início, mas mantive a minha palavra. Alguns especialistas criticaram a minha atitude, mas a maioria me via como heroína, algo que eu não concordava. Com todo aquele rebuliço, a Pantera ficou muito movimentava.
– Oi, Sabrina. – A Cecília disse quando voltou na oficina 3 dias depois.
– Oi. Como você está? – Perguntei e nos beijamos no rosto. – Estou toda suja, nem vou te abraçar.
– Estou melhor. O susto passou graças a você sua doida. – Ela brincou. – Foi bem arriscado, mas se não fosse você, sei lá.
– O que importa é que deu tudo certo e você está bem. Como está esse bebezinho?
– Calmo. Estou com 5 meses e já o sinto. – Ela disse ao acariciar a barriga. – Eu vim porque acabei de descobrir que é uma menina e vou colocar seu nome nela.
– Você não deve fazer isso. – Disse sem graça.
– Devo a minha vida e da minha bebê a você e nunca esquecerei o que você fez por nós... Nunca. – Ela disse chorando e o seu marido a abraçou.
– Ela sofrerá com esse nome, heim. Porque você acha que a oficina tem esse nome? Cansei de ser chamada de Pantera por causa do seriado e ela também sofrerá com isso... Estou avisando. – Brinquei e ela riu.
– Então é perfeito! Você foi meu anjo! – Ela brincou e rimos. 
– Ok... Você que sabe, mas me avisa quando ela nascer.
– Com certeza! Você vai nos visitar?
– Vou. – Disse quando peguei um cartão.
– Ah! Sei que não tem como agradecer o que você fez por nós, mas ninguém mais coloca as mãos nos nossos carros além de você. – O marido dela disse e eu sorri agradecida. – Vamos indicar para todos os nossos amigos.
– Poxa. Muito obrigada. – Agradeci e os abracei novamente antes deles irem. Não ligaram para o meu macacão sujo.
                Eles cumpriram e o movimento na oficina cresceu muito. Depois de pensar bastante, acabei comprando o galpão anexo ao da oficina que estava vazio. O dono não estava querendo sequer alugar antes por conta de projetos do seu filho, mas esse desistiu e acabei ampliando a Pantera com 1 ano de inauguração. Com isso aumentaria o número de vagas para carros e eu teria que contratar mais 2 mecânicos. Foi um grande investimento, custo alto, mas eu acreditava.
                Eu estava feliz com o andamento das coisas, mas ao abrir o meu e-mail, coisa que não fazia há muito tempo, me deparei com uma mensagem furiosa do Brian. Ele estava realmente furioso. Quando olhei a data vi que era de 2 dias depois do episódio da tentativa de sequestro da Cecília, ou seja, mais de 1 mês antes. Ele me chamava de louca, inconsequente e muitas outras coisas mais. Dizia que eu não pensava em nada e em ninguém, que eu deveria colocar um segurança na loja e ainda me questionou sobre onde estavam os mecânicos que trabalhavam para mim. O Brian questionava o meu profissionalismo na administração da minha empresa, dizia que eu deveria ter pensado nas pessoas importantes na minha vida, como os meus pais e em como eles se sentiriam se as coisas não saíssem bem. Ele escrevia tudo em caixa alta, letras bem grandes para me mostrar como gritava. Chorei muito quando ele perguntou se não pensei em momento nenhum em como ele ficaria em um mundo sem mim. Escreveu que estava sofrendo muito e que ficar longe não estava adiantando nada para nós dois. O Brian escreveu em letras vermelhas que ele precisava de mim ao seu lado e que eu precisava dele para cuidar de mim, me proteger e nunca mais deixar que nada daquilo acontecesse novamente. Ele era um ótimo administrador de empresas, cuidava de tudo com muito empenho, mesmo envolvido com as corridas, mas ele estava fora da minha vida há mais de 1 ano e eu tive que aprender na marra. Eu não em envergonhava e nem me arrependi de nada do que fiz, foi isso que lhe escrevi, apenas isso. Na mesma hora veio a resposta mal criada dele questionando se eu tinha demorado mais de 1 mês para pensar naquela resposta. Apenas o escrevi chamando-o de idiota e desliguei o notebook.
                Para relaxar e tentar esquecer tudo aquilo que li, resolvi aceitar o convite de uma amiga e fui a algumas festas nos dois sábados seguintes. Dancei como nunca, recusei convites de homens como nunca, suei como nunca. Foi divertido, ainda mais com a Fernandinha junto. Aquela menina sabia como se divertir. Aproveitei uns contatos e peguei umas dicas de administração, além disso paguei um curso a mais para que a Fernanda guiasse a Pantera de forma mais profissional. Eu não sabia nada sobre impostos, leis e administração, mas confiava plenamente nela. Mesmo sem mim a frente da oficina, ela poderia tocar a empresa. Uma coisa que li foi que delegar poderes fazia um grande empreendedor, mas apenas se as pessoas fossem profissionais e de confiança.
                A minha vida profissional estava seguindo muito bem, mas o meu coração estava murcho, triste, doendo cada dia mais. Eu evitava saber coisas sobre o Brian, mas às vezes era impossível e aquilo só piorava o meu estado. Mais de um ano sem seu toque, sem ouvir a sua voz, sem sentir o seu corpo junto ao meu. Ele sempre seria o meu único, eu não via futuro com outro homem. As minhas amigas tentavam me apresentar bons partidos, homens lindos e interessantes, inteligentes e com muito dinheiro, mas apenas ficávamos amigos, não passava disso. Eu simplesmente não tinha vontade de me envolver com ninguém. Até o meu pai, que nunca se envolvia na minha vida amorosa, estava preocupado. Eles me visitavam sempre que podiam, mas me ligavam todos os dias.
– Será uma festa grande, Sabrina. Boa comida, muita gente bonita. – A Simone me disse após mais um convite para a festa.    
– Boa música? – Perguntei rindo quando encaixei a correia do ar condicionado do carro em que eu estava trabalhando.
– Claro! Você vai, né? Diz que sim! – Ela implorou.
– Tudo bem. Quando será?
– No próximo sábado. Não esse agora, o outro. Ah, arruma um vestido de matar, viu. Nada de jeans. – Ela me avisou e ri.
– Sim, Senhora.
– Com um decote para realçar esses peitões e uma fenda que pega até a coxa. Vamos arrasar nessa festa, viu. – Ela disse e eu ri. – Pensando bem, acho melhor sairmos juntas para comprar esse vestido.
– Vou alugar! Para que um vestido caro se nunca mais vou usar? – Brinquei.
– Nem vou comentar, ok? Te pego depois de amanhã para escolhermos. Te quero linda, leve e solta nessa festa. Está na hora de seguir adiante na sua vida, Sabrina. Se o bonitão for seu futuro, ele chegará no momento certo. Até lá você tem que viver. Você é jovem, bonita e bem sucedida. A Pantera está crescendo graças ao seu trabalho, mas você precisa viver, menina. Me preocupo muito contigo.
– Eu estou bem.
– Com essas olheiras? Você chorou a noite toda de novo, não foi?
– Nós faríamos mais um mês de aniversário juntos. – Comentei e me sentei no banco lateral. – Ele nunca mais escreveu.
– Acho que você precisa esquecê-lo, Sabrina.
– Não consigo. – Resmunguei.
– Ele não seguiu em frente?
– Não sei e nem quero saber. Não procuro nada sobre ele e proíbo o Fabrício de comentar.
– Achei que você e esse Fabrício acabariam juntos.
– Nada... Ele é só meu amigo. – Garanti e ri. – Ele está firme com uma moça que me odeia. Nas poucas vezes em que a vi foi quando eles estiveram aqui. O Fabrício tenta nos aproximar, quer que fiquemos amigas, mas acho que é meio impossível. Como muita gente, ela acha que tivemos algo, mesmo eu e ele dizendo que não. O Fabrício é um cara super legal e que me ajudou muito, mesmo enquanto eu estava com o Brian, mas é apenas isso, nada mais. É como um irmão que eu não tive e ela um dia vai perceber isso.
– Ele nunca tentou nada?
– Só no início quando me separei do Brian, mas não era nada sério. Ele estava tentando me animar, mas viu que não daria em nada e ficamos só amigos mesmo. Ele tenta me apresentar uns amigos, mas como você e todos os outros, é infeliz no resultado da empreitada. – Brinquei e ela riu.
– Só queremos te ver bem, não triste e chorando sozinha na cama fria todas as noites. Estou casada há anos, não sei como seria se eu perdesse o meu marido, então sei como é amar alguém incondicionalmente. Acredite, te entendo, mas mesmo assim não consigo deixar de me preocupar. Já passei dos 40, mas você está no começo dos 20. Vai querer ficar solteira a vida toda? Vai ficar esperando por ele por quanto tempo, menina?
– Não sei. No momento não consigo pensar em outro homem. – Me lamentei. – Eu só vejo o Brian comigo.
– Está na hora de você abrir os olhos e olhar em volta, Sabrina. Se ele seguir com a sua vida, você ficará presa ao passado enquanto ele tenta ser feliz, enquanto ele sai com outras mulheres?
– Preciso trabalhar. – Disse ao me levantar.
– Te pego no sábado à tarde. Meu marido vai no cinema com as crianças enquanto nos divertimos. Ele me pediu para te deixar linda para a festa. Não sei, mas acho que ele quer te apresentar uns amigos e você vai se divertir. Tenta pelo menos. Estou avisando para você ir se preparando psicologicamente, ok? Ele já está com os convites reservados.
– Reservados?
– É uma festa super exclusiva, menina. Só tem 1 vez no ano e estamos lá. – Ela brincou e pegou a sua bolsa.   
                Foi uma semana intensa. Parecia um trabalho de equipe, até a minha mãe falava na tal festa. A Fernandinha estava desconsolada porque não iria. Ela tinha a certeza de que encontraria o amor da sua vida lá. Eu fui ao salão na quinta para cuidar da pele e das unhas junto com a Simone, ela nem me deixou negar. A Fernandinha e os mecânicos estavam firmes na empresa e pela primeira vez fiquei apenas no escritório para não estragar toda aquela produção. No sábado pela manhã fui para a casa da Simone, uma mansão com 5 quartos na área nobre da cidade. Nos arrumaríamos lá. Como eu ainda não tinha comprado um carro aceitei a carona, mas avisei que voltaria de taxi para casa no final da festa. Morando ao lado da Pantera e em um bairro que tinha tudo perto, carro não me fazia falta.
– Lindas! Serei o homem mais invejado daquela festa. – O marido da Simone disse quando descemos para a sala. Ele estava pronto há muito tempo.
– E as meninas? – A Simone perguntou.
– Sua mãe disse que estão acabando com a dispensa. Ela comprou sorvete e as meninas estão se fartando.
– Vamos? – A Simone me perguntou e assenti. – Nervosa?
– Muito. Vocês fizeram uma festa um acontecimento, como não estaria?
                O local do evento estava fervilhando quando chegamos. O marido da Simone nos acompanhou para dentro debaixo de flashes. Eu tentei me manter calma, mas foi difícil com aquela pompa toda. Só quando entramos que eu me dei conta do que era realmente tudo aquilo. No hall de entrada tinha um cartaz enorme agradecendo a todos pela presença e colaboração no combate ao câncer. Era um evento para arrecadação de fundos e o marido da Simone era um dos idealizadores. Ele comentou que nos Estados Unidos e em toda Europa, eventos como aqueles era comuns. Um grupo de empresários e pessoas com muito dinheiro no Rio de Janeiro e em São Paulo estavam por trás dessa novidade no Brasil. Eles queriam ajudar instituições que apoiavam a causa e investiam em hospitais que cuidavam de crianças doentes.
– A nossa menininha nasceu fraquinha e com 2 anos teve leucemia, Sabrina. Desde então fazemos de tudo para ajudar quem nos ajudou na época. – A Simone me contou enquanto o seu marido cumprimentava várias pessoas. – Muitas crianças não podem pagar grandes tratamentos como pudemos pagar e não sobrevivem. Nós tentamos ajudar como podemos, investindo e buscando investimento para alguns hospitais. Sozinhos não somos ninguém, mas tem muita gente que aderiu a causa. Essa é a segunda festa que apoiamos para arrecadação de fundos aqui no Brasil.
– Você nunca comentou.
– Eu sei. – Ela disse sorrindo e me deu um empurrãozinho. – Você é uma das poucas pessoas que são minhas amigas de verdade e não por causa do nossos dinheiro. Eu não gosto de lembrar daquela época, nem o meu marido, mas usamos a experiência para ajudar como podemos. A minha bebê ficou boa e vivemos plenamente cada dia de sua vida.
– Eu nem posso imaginar como deve ter sido.
– Por isso eu sempre te digo, seja feliz, dê uma chance ao seu coração para que ele se cure e você possa encontrar alguém para compartilhar a sua vida. Você é bonita e bem sucedida, capaz e inteligente. – Ela disse sorrindo e enxugou uma lágrima que escorreu pelo meu rosto. – Qualquer homem seria abençoado de te ter perto, Sabrina. A gente nunca sabe quando uma doença nos afetará, nem as pessoas que amamos. Nunca sabemos quando uma tragédia cairá sobre a nossa casa. Não vale a pena ficar sofrendo com o passado quando você tem um futuro inteiro pela frente.
– Vou tentar. – Disse e nos abraçamos.
– Nada de lágrimas, meninas! – O marido da Simone disse sorrindo ao se aproximar. – Tem um coquetel acontecendo no salão e vamos nos divertir. Temos que arrancar dólares das carteiras desses investidores. Quero uma nova ala naquele hospital da baixada e eles vão abrir o bolso!
– Vamos dançar! – A Simone vibrou e me pegou pela mão. – Bloody Mary para nós 2, amor.
– As pessoas simplesmente largam dinheiro para essas obras? – Perguntei a Simone quando entramos em um enorme salão. Já tinham muitas pessoas sentadas em suas mesas.
– Claro! Eles abatem no imposto de renda, menina. – Ela sussurrou me fazendo rir.
– Uhm. Entendi.
                Além da área com as mesas, haviam mais 2 ambientes onde podia-se dançar ou apenas conversar, além de uma exposição de esculturas e quadros. Eu não entendia nada de obras de arte, até achei umas bem esquisitas arrancando risadinhas da Simone. Fui apresentada para algumas pessoas e sorri ao ver a Cecília e seu marido. Eles me abraçaram e disseram estarem surpresos em me ver lá. Acabei conhecendo mais gente famosa, alguns eu até conhecida.
                Fiquei impressionada com a quantidade de pessoas que chegavam a todo momento. Cada mulher mais bonita que a outra, cada joia mais rica que a outra e eu com as minhas bijuterias. A Simone riu quando eu comentei isso e me puxou para a pista de dança que estava lotada de pessoas se sacudindo ao som de um DJ muito bom. Estávamos lá como cabeças da festa e não tínhamos que impressionar ninguém, foi o que ela disse. Resolvi me divertir então.
– Linda! – Um homem disse atrás de mim e eu ri. – Vamos lá... Dança comigo também.
– Estou com a minha amiga. – Disse ao sorrir para ele.
– O que preciso fazer para ter 5 minutos da sua atenção? – Ele questionou e tocou na minha cintura.
– Hoje eu só quero dançar. – Gritei e a Simone riu.
– Eu espero. – Ele brincou e beijou o meu rosto.
                Foi engraçado ser paquerada naquela festa tão exclusiva. Tinham pessoas de todas as idades circulando e se divertindo. Alguns pareciam mais bêbados, outros completamente eufóricos.
– Pantera! – Gritaram no meu ouvido e me assustei, mas quando olhei vi que era o Fabrício com a sua namorada.
– Ei! Você por aqui. – Disse e o abracei, depois a sua namorada. – Que bom ver vocês.
– Estou representando um cliente. – O Fabrício comentou e riu. – Tem mais um pessoal conhecido por aí que era da escuderia do... Deixa pra lá. Se divertindo finalmente?
– Estou tentando.
– Dá uma chance para os caras. – Ele brincou ao apontar uns homens me olhando.
– Vai namorar, vai. – Disse o empurrando levemente para a sua namorada e olhei para ela. – Vê se coloca na cabeça desse seu namorado que ele deve parar de me ficar arrumando caras. É pior que irmão chato! Me esquece, Fabrício!
– Ainda vou no seu casamento, viu! Serei o padrinho. – Ele disse e mostrei a língua para ele. – Muito maduro, Pantera!
                Ele se foi e com uma namorada parecendo mais tranquila, ela até sorriu para mim. Fiquei dançando com a Simone e mais outras pessoas que se aproximaram. Eram conhecidos dela a quem fui apresentada. Algumas pessoas me conheciam de nome e foram muito legais. Quando mudou o ritmo da música para mais lenta, eu e a Simone fomos nos refrescar um pouco. Eu estava suada, mas graças a uma maquiagem a prova d´água estava apresentável.
– Vamos lá. Me dá uma chance. – O mesmo homem que tinha me abordado na pista disse ao se aproximar. – Uma dança! Só uma, linda.
– Vai, Sabrina. – A Simone me incentivou.
– Agora sei seu nome. Vamos, Sabrina. Meu nome é Willian. – Ele disse e beijou a minha mão.
– Uma dança. – Avisei e ele me puxou para a pista.
                Aquela dança durou mais de 3 músicas. Fiquei sabendo um pouco sobre o Willian. Ele tinha 30 anos, morava em Curitiba e tinha vindo ao Rio de Janeiro exclusivamente para aquela festa. A sua família estava investindo uma boa soma em dinheiro para a construção da ala que o marido da Simone havia comentado. Ele se espantou quando eu disse que tinha uma oficina mecânica e riu muito quando contei que estava lá apenas como amiga da Simone. Ele achava engraçada a forma como eu me expressava e disse que estava feliz que tinha me encontrado. Estávamos falando sobre o seu trabalho em uma fazenda quando fomos interrompidos.
– Acho que você já monopolizou demais a mulher mais linda da festa. – Ouvi falarem atrás de mim e gelei.
– Depois de mais de uma hora tentando, preciso tirar ao máximo do tempo dela. – O Willian disse olhando, mas para trás de mim.
– Brian. – Sussurrei.
– Isso mesmo, Pantera. – Ele disse e eu o olhei. Ele estava encarando o Willian. – Eu posso pegar a minha mulher de volta ou você ainda vai ficar com as mãos sobre ela?
– Você não disse que era casada. – O Willian me questionou.
– Ela não é, mas será em breve. – O Brian avisou quando eu ia falar.
– Sou solteira e vim me divertir. Se vocês me dão licença. – Pedi e dei um passo, mas o Brian segurou no meu braço.
– Não agora, Pantera.
– Solta a moça, cara. – O Willian solicitou educadamente, mas seus olhos eram facas sobre o Brian.
– Segue seu caminho, menino da fazenda. Preciso conversar com a minha mulher.
– Sabrina? – O Willian me questionou.
– Tudo bem. – Garanti e ele beijou o meu rosto.
– Obrigado pela dança.
– Foi um prazer.
– Que não se repetirá. – O Brian completou e me pegou para começarmos a dançar. Algumas pessoas nos olhavam, inclusive a Simone que estava parecendo chocada com tudo aquilo. – Se divertindo com seus novos amigos?
– O que você faz aqui?
– Vim por você. – Ele disse olhando nos meus olhos. – Vi a lista de convidados. Minha família está no investimento este ano.
– Sou apenas convidada.
– Eu sei. – Ele disse e deslizou os dedos pela lateral do meu rosto. – Como senti sua falta, minha única.
– Brian.
– Eu te amo tanto, Sabrina. Não consegui seguir em frente, amor. Não consegui me relacionar com ninguém. Eu só penso em você o tempo todo e voltei para o Brasil para te convencer a me dar uma chance. Temos que dar um jeito de ficarmos juntos, amor. Eu te amo muito e sei que você me ama. Eu sinto isso. Vejo isso nos seus olhos, Sabrina.  
– Eu...
– Preciso tanto de você. – Ele sussurrou e olhou para a minha boca. – Saudades dessa boca gostosa, do seu corpo, do seu cheiro.
– Brian. – Gemi quando ele esfregou o nariz no meu pescoço.
– Me dá uma chance. Deixa de ser marrenta e volta para mim. – Ele disse e me beijou. – Ah! Saudades, Pantera!
– Brian. – Gemi e ele me agarrou forte, segurando nos meus cabelos e me beijando com muita vontade.
– Não vou desistir agora. Você teve seu tempo e eu tive o meu. Precisamos ficar juntos ou vamos enlouquecer.
                Ele me pegou pela mão e me levou para uma área externa. Vi a Simone sorrindo quando passamos. Ela estava abraçada ao seu marido.
– Você conhece a Simone e o seu marido? – Questionei o Brian quando paramos perto de uma grade baixa que dava para um jardim lindo.
– Não. Os vi hoje pela primeira vez. – Ele comentou enquanto acariciava meus cabelos e olhava. – Recebi um convite há cerca de 6 meses para um evento anual de arrecadação de fundos. Era um convite bem persuasivo, posso lhe garantir. Eles são bem convincentes e não pude recusar. Paguei muito dinheiro para estar aqui hoje e o que me incentivou foi saber que você estaria presente. Todos os convidados recebem um comunicado com a relação dos confirmados. Acho que é uma forma de incentivo. Na alta sociedade besta de São Paulo algumas socialites não gostam de se sentir excluídas e fazem de tudo para estarem nos mesmos eventos. Esse grupo parece saber bem disso e cobram delas uma participação. As madames querem aparecer bonito na foto, mas a mais linda era você.
– Quando você voltou?
– Hoje, há menos de 2 horas. Eu tinha que responder a uns problemas que causei lá fora antes de poder viajar. – Ele sussurrou e tocou nos meus lábios. – Me meti em muita confusão enquanto eu estava sofrendo por amor, por você. Isso nunca me aconteceu e não reagi bem. O meu terapeuta teve muito...
– Terapeuta?
– Eu precisei de ajuda para seguir em frente, Sabrina. – Ele se lamentou. – Depois que nos separamos eu enlouqueci, mas pude ver como eu estava sendo um idiota mesmo. O meu terapeuta disse que você precisava viver seus sonhos e ambições, assim com você tinha dito e eu não escutava. A Pantera é um sucesso graças a você, meu amor. Enlouqueci quando soube daquela confusão com a atriz. Estava na internet. Estavam em todos os canais. Eu quase larguei tudo, mas ele dizia sempre a mesma coisa. Ela precisa provar a si mesma que é capaz. Ele me pediu 2 anos, enquanto isso nós trabalharíamos nessa minha ânsia de querer tudo do meu jeito e não aceitar a opinião dos outros, mas quando eu soube que você estaria aqui, fiz de tudo para colocar a minha vida nos eixos e vir implorar para você me aceitar de volta.
– Você tem a sua carreira lá fora.
– E você a Pantera, mas daremos um jeito. Ficamos anos só pela internet. Eu suporto ficar te vendo quando voltar das corridas. Eu consigo, amor. Por favor, me aceita de volta, Sabrina. Estou te implorando. – Ele disse e chorou como eu estava. – Não dá mais para suportar essa dor que sinto cada vez que lembro de você indo embora. Preciso ter você de volta, Sabrina! Preciso de você.
– Te amo, Brian. – Sussurrei e ele me agarrou. – Ah! Saudades!
– Te amo, minha única. – Ele gemeu e me beijou. – Você é e sempre será a minha mulher. Minha. Só minha.
– Idiota. Sempre fui. – Brinquei e ele sorriu.
– Me chama de idiota de novo. – Ele sorriu ao dizer me fazendo rir mais. – Quando recebi aquele último e-mail... Nossa. Como aquilo me fez sorrir, amor. Só você me chama de idiota e fico feliz com isso. Mostra como você se importa comigo e quando li vi que você ainda me amava, que eu ainda te atingia da mesma forma que antes.
– Graças a Deus! Acabou a fossa! – Ouvimos alguém dizer e quando olhei estavam o Fabrício e sua namorada, a Simone e seu marido e mais algumas pessoas nos olhando. O marido da Simone sorria ainda quando continuou. – Quando a Simone conheceu a Sabrina lá na Pantera e ficaram amigas, vi logo que se tratava de uma pessoa legal. Quando ela me contou do amor de vocês e como eram dois teimosos, lembrei do nossos começo, que também foi meio tumultuado.
– Foi você? – Arfei e ri quando a Simone o abraçou. – Você sabia?
– Não, eu soube hoje. Ele é um romântico e me escondeu tudo. – Ela contou enquanto o seu marido apertava a mão do Brian.
– Não a deixe escapar. – O marido da Simone disse ao Brian, depois me olhou com um brilho nos olhos. – O que você fez e faz pela minha Si com a sua amizade valeu cada minuto que gastei para convencer a empresa dele a participar, mas depois que mandei a relação dos confirmados, claro com seu nome mesmo sem você nem fazer ideia de onde estaria na data de hoje e ele mandou um e-mail pessoal confirmando, tive a certeza de que estava fazendo a coisa certa.
                Ficamos na festa por mais meia hora. O Brian queria mais privacidade e eu também. Apesar da minha ignorância quando se dizia respeito as fofocas dos ricos e famosos, ela existia. Muitas pessoas ficaram nos olhando para onde íamos e comentando, aquilo estava incomodando. Eles não faziam ideia de quem eu era enquanto eu dançava com a Simone, mas pelo visto a fofoca correu solta.
– Vamos para casa? – O Brian sussurrou no meu ouvido.
– Vamos.
– Onde você estacionou?
– Não tenho carro, Brian. – Comentei e ele me olhou incrédulo. – Moro onde tem tudo perto, inclusive a Pantera. Carro não me faz falta.
– Vamos então. – Ele disse e beijou o meu rosto quando inspirou fundo. – Eu vou me acostumar com essa sua independência.
– Mesmo?
– Preciso. – Ele disse e me levou de lá.
                Resolvemos ir para a minha casa, eu queria mostra-la para ele. Era simples, mas era como eu me sentia bem. Ele gostou do local, ficou olhando tudo, inclusive as nossas fotos que estavam na estante de livros da sala.
– Também tenho as mesmas comigo. – Ele comentou e me olhou. – Vem cá.
– Mandão. – Resmunguei, mas me aproximei dele. – Meu mandão.
– Minha única. – Ele sussurrou e me beijou. – Eu não estive com mulher alguma todo esse tempo.
– Nenhum homem chegou perto de mim.
– Seu corpo ainda é meu?
– E o seu é meu. – Gemi e ele desceu o zíper do meu vestido.
– Me diz que você ainda toma remédio. Preciso me sentir nu dentro de você.
– Tomo.
– Ah! Gostosa. – Ele suspirou quando me vestido caiu e ele me viu só de calcinha.
– Me ama como antes, Brian. – Pedi e travei as minhas pernas na sua cintura quando ele me agarrou. 
                Foi uma loucura sentir o corpo dele novamente. O Brian estava mais forte que antes, eu pude sentir. Naquele momento pude realizar o amor que sentimos.
– Quase 2 anos longe disso... Quase 2 anos na tortura de te imaginar, de te ver só nos sonhos e acordar sozinho, Pantera.
– Saudades. – Sussurrei sentindo o peso do seu corpo.
– Nunca mais... Nunca mais ficaremos tanto tempo longe.
– Promete? – Perguntei e comecei a chorar descontroladamente. – Não posso mais suportar, Brian. Não posso mais!
– Prometo. Não chora, amor. Não chora!
– Te amo. – Solucei ao dizer e ele enxugou meu rosto.
– Amanhã vamos conversar melhor, amor. Vamos traçar uma estratégia. Eu tenho uma agenda a seguir, você tem a Pantera, mas vamos conseguir, não importa como.
                Dormimos agarrados e nos acariciando. Acordei ouvindo o Brian e sussurrando um bom dia gostoso no meu ouvido. Foi a melhor sensação que tive na minha vida. Ele parecia feliz e dizia o quanto tinha esperado, ele adorava acordar comigo.
– Quero tudo de volta. Seu corpo e todas as sensações que somente eu te dei, Pantera.
– Meu único. – Sussurrei acariciando os cabelos.
– Sou seu único. – Ele rosnou. – Vou te todos todos os dias. Droga! Você é minha.
                Não nos contentamos com a noite e nos amamos novamente ao amanhecer. Era a forma que tínhamos, a nossa melhor comunicação, era a nova vida perfeita. Alguns momentos eu ainda pensava que estava sonhando, mas sentir o coração dele batendo na minha pela me mantinha sã.
– Bom dia. – Disse com ele sobre mim e rimos. – Morrendo de fome.
– Vamos mudar de roupa e ir para casa. – Ele disse e me beijou.
– Estamos em casa. Aqui é sua casa também e vamos tomar um café que farei para nós dois.
– Vai cozinhar para mim? Uhm. Aqueles ovos mexidos que só você faz?
– Vou.
                Tomamos um banho e preparei o nosso café. O Brian ficou olhando tudo novamente e comentou como se sentia bem lá. Parecia um sonho vê-lo caminhando só de cueca pela minha casa. Eu não conseguia parar de sorrir, até mesmo quando fui na área de serviço pendurar as nossas toalhas e vi a vizinha de frente bisbilhotando ao olhar o basculante da cozinha. O Brian estava bebendo água e me olhando, ela conseguia vê-lo parcialmente.
– Temos que resolver onde vamos morar, amor. – O Brian comentou enquanto olhava o copo. – Aqui é... Esse apartamento é seu?
– É alugado.
– Uhm. A cobertura é nossa e não é tão longe.
– Aqui é perto da Pantera. – Comentei e comecei a tirar as roupas do varal.
– Quero... Er... Estamos juntos novamente, não é?
– Estamos. – Sorri ao dizer.
– Então temos que decidir essas coisas, não acha?
– Acho... Onde você quer chegar, amor?
– Você sente que eu te amo? – Ele perguntou ao se aproximar e tirar as roupas das minhas mãos. Eu apenas assenti. – Eu te amo e não quero mais sentir nem por um segundo o que senti por quase 2 anos. Você faz parte de mim, é a minha única e quero que você seja para sempre.
– Brian. – Arfei quando ele se ajoelhou.
– Casa comigo, Sabrina. – Ele pediu e eu assenti. – Prometo que te farei a mulher mais feliz do mundo.
– Te amo. – Gemi quando ele me beijou carinhosamente.
– Minha única. – Ele gemeu e me colocou sobre a lavadora de roupa. – Aqui ou em qualquer lugar, meus pensamentos e minhas ações serão sempre pensando em você.
– E estaremos juntos, para sempre.
                Os meus pais tomaram um susto quando bati na porta de sua casa em pleno domingo sem avisar e eles nos viram juntos. O Brian não se livrou de um papo à sós com o meu pai, aquilo me deixou tensa. Quando eu soube que ele tinha pedido a minha mão ao meu pai e que este estava feliz em me levar até o altar, suspirei aliviada. O meu pai não era de se meter na minha vida, mas até ele estava angustiado. Eu não sorria mais, e quando acontecia era meio forçado, diferente daquele momento. A minha mãe já começou a fazer planos meio segundo depois de tudo resolvido, mas avisei que não tinha pressa.
– Então aqui é a Pantera. – O Brian disse quando chegamos na oficina. Eu queria mostrar tudo a ele.
– Gostou? Aqui fazemos os consertos mais pesados e nessa área nova ficam os carros das empresas que tenho parceria. – Comentei e indiquei o local. – Hoje a Pantera tem parceria fixa com 3 empresas, além das seguradoras.
– Nossa. Achei que era grande, mas não tão grande, amor. – Ele disse impressionado.
– Juntei cada centavo daqueles serviços que o Fabrício me arrumou. Ele me colocou como auxiliar em vários projetos, até de uns motores de barcos. Eu estudei muito para conseguir acompanhar, mas valeu a pena.
– Vocês realmente...
– Não. O Fabrício é como um irmão, Brian. – Disse e o beijei. – Ele me deu a maior força e foi ele que criou a logo da empresa. Ele me deu de presente uma semana depois que contei a ele os meus planos. Contei com a sua experiência no início.
– Eu deveria ter feito tudo isso contigo, mas fui um idiota em não ver o que você precisava. Você se empenhava e todo aquele esforço não era expresso em compras, em bens materiais. Eu lembro de ver um dos cheques e ele era bom.
– Era sim e foi o que me ajudou a montar tudo isso. – Disse ao indicar a oficina.
– Preciso agradecê-lo. Ele estava aqui no meu lugar te apoiando.
– Ele é meu amigo e amigos fazem isso, Brian.
– Jura que vocês...
– Juro. Ele sempre tentava falar de você para mim, mas eu o proibi. – Ele tentou me apresentar uns amigos, mas era plano furado. Com o tempo ele desistiu.
– Bom...
– Eu comprei essa picape tem umas 2 semanas. – Comentei quando indiquei o carro que estava sem motor. – Comprei de uma das seguradoras e estou recuperando para mim. Sempre gostei desses tipos de picapes, mas são bem caras e não quis me comprometer. A seguradora me passou em troca de uns serviços. Como temos um contrato, estão seguros. Vou terminar o motor e manda-la para pintura, depois vem o espaço interno. Vou deixa-la mais linda que a original.
– Você realmente gosta disso.
– Amo. – Sussurrei e me sentei na caçamba que estava aberta.
– Me ama também. – Ele disse e eu assenti. – Ama mais isso aqui ou eu?
– Os 2 na mesma intensidade. Os 2 me dão prazer. Os 2 me fazem feliz.
                A Fernandinha quase teve um infarto quando chegou para trabalhar na segunda e o viu. Ela não sabia se ria ou se chorava. Os mecânicos gostaram de conhecê-lo e brincaram que eu estaria sempre de bom humor agora. Ele ficou comigo até às 10 quando precisou ir para o escritório para adiantar tudo o que poderia para termos uma noite tranquila. Mal o Brian partiu e fui questionada sobre como tudo aquilo tinha acontecido. A Fernandinha quase me bateu ao dizer que não soube da fofoca no domingo. Disse que nunca mais me contava nada, que só faria as pazes se eu a apresentasse a algum bonitão da Fórmula 1. Foi engraçado.
– Não dá para morarmos aqui, Pantera. – O Brian discutia na quarta à noite.
– Por quê? Você não gosta daqui por que, Brian? – Questionei enquanto colocava a mesa para jantarmos. – Sei que não é grande como a cobertura, mas você nem sempre ficará no Brasil.
– Não é nada disso, Sabrina. Eu fico onde você estiver, mas preciso pensar na sua segurança também.
– Não entendi.
– A portaria estava escancarada, amor. – Ele disse ao se sentar. – Me ouve, ok?
– Ok.
– Vamos nos casar, não vamos?
– Vamos. – Sorri ao dizer e acariciei o seu rosto. Ele beijou a minha mão e continuou um pouco mais calmo.
– Os meus administradores, o seguro e tudo que me cerca vão enlouquecer se eu estiver morando aqui, Sabrina. Eu adoro estar contigo, adoro cada coisa aqui dentro. São coisas que você conquistou, mas ao nos casarmos você fará parte de um mundo mais... Digamos, você terá mais dinheiro.
– Ih...
– Calma. Veja por esse lado... Como você imagina que o marido daquela atriz se sentiu quando soube que a pegaram?
– Nossa. Ele ficou desesperado. Tinha que ver, Brian...
– Eles a pegaram para...
– Era um sequestro relâmpago.
– Por que...
– Sei lá! Por que ela é famosa, é atriz e tem dinheiro? – Questionei e ele se encostou cruzando os braços. – Onde você quer chegar, Brian? Você acha que podem te sequestrar aqui?
– Podem me pegar ou te pegar, já parou para pensar nisso? Temos uma boa condição financeira...
– Você é rico, Brian. Pode falar.
– Somos. Você é minha mulher, então carrega o carma. – Ele brincou. – No nosso mundo, porque você faz parte dele e não adianta mais reclamar porque não vamos mais nos separar, lidamos com seguros e o nosso terá um ataque quando eu mudar o meu endereço aqui no Brasil, no Rio. O contrato que tenho com a escuderia me força a certas coisas, como a segurança, Sabrina. Eu simplesmente não posso ficar em um local em que a portaria está escancarada e qualquer um pode entrar. Não temos privacidade. Aquela sua vizinha me deu tchauzinho lá na cozinha. Ela me chamou pela janela!
– Ela é uma coisa...
– Eu entendo que você fica intimidada com a cobertura, mas quero o melhor para nós dois. Mais conforto, espaço e principalmente segurança.
– Eu estava mesmo pensando em ver outro lugar. A Pantera está indo bem e estou podendo tirar mais. – Contei sorrindo e ele acariciou o meu rosto. – Só não quero me mudar para longe, Brian. Eu fico cansada no final do dia às vezes e sinceramente? Não quero nem pensar em dirigir nesse trânsito louco. Às vezes pego um taxi.
– Me deixa cuidar disso? Por favor.
– O que você quer realmente, Brian?
– Já coloquei um assessor procurando um lugar perto da Pantera e ele achou um condomínio muito bom. Tem toda a segurança que precisamos. Os apartamentos são pequenos, mas vendendo a cobertura compramos 2 lá e reformamos.
– E...
– Até lá precisamos ficar na cobertura, amor. – Ele disse e resmunguei. – Por favor, Sabrina. Hoje o meu advogado me fez várias recomendações e eu prometi conversar contigo. Ele está realmente preocupado com esse prédio. Ele disse em relação aos meus negócios e os seus também.
– Tudo bem. – Suspirei. – Não sou inconsequente, Brian. Só acho aquele prédio da cobertura pomposo demais. Aquela mulherada besta que ficava me olhando de cima a baixo cada vez que eu entrava e saía me incomodava.
– Então com isso resolvido, vamos ao próximo.
– Tem mais? – Arfei e me sentei. Ele riu.
– Tem. Claro que tem. Você realmente achou que eu ia perder tempo? Preciso dos seus documentos para dar entrada nos papéis do casamento.
                Aquilo me fez sorrir e pudemos comer em paz, mas não pude escapar da mudança imediata. Assim que a louça estava lavada começamos a arrumar as minhas coisas. Ele me levou de volta para a cobertura naquela mesma noite e me fez prometer que encaixotaria tudo no dia seguinte.
– Gostou? – O Brian me perguntou quando entramos no condomínio novo.
– Nossa. É lindo aqui. – Disse olhando a piscina. – Eu não conhecia esse lugar e é só 2 ruas acima.
– Perto da Pantera e com segurança.
– E qual dos blocos seria o nosso?
– O quinto. – Ele comentou e me indicou o prédio bem a frente. – Vamos?
                No último andar tinha um apartamento com uma varanda enorme. Era uma cobertura, só que não como a que estávamos vivendo. Ela tinha 2 quartos, sala, cozinha, área de serviço e uma área externa com direito a churrasqueira e tudo. A intenção dele era comprar aquela cobertura e o apartamento de baixo que tinha cômodos similares. Teriam uma escada que ligaria os dos apartamentos, mas o nosso quarto seria na parte de cima. Uma mudança radical aconteceria. Na parte de baixo ficaria a área mais social, na de cima a nossa mais íntima. Era incrível a sua empolgação.
– Gostou?
– Gostei. E em quanto tempo nos mudaríamos?
– Sério? Você não vai questionar?
– Confio em você. – Sussurrei e ele me beijou.
– Deixa comigo. Amanhã vou colocar a minha assessoria para cuidar de tudo e comprar os dois imóveis. Assim que estiver tudo certo começamos as modificações. Os móveis virão da cobertura, você gosta deles, não gosta?
– Gosto.
– Então está resolvido. Vamos para casa. – Ele disse e me puxou para o elevador.
– O que foi?
– Quero te devorar. – Ele sussurrou no meu ouvido e mordeu a minha orelha.     
                Eu acabei tendo que esvaziar o apartamento alugado em menos de 1 mês, então a reforma no apartamento novo teve que acelerar. Colocamos as minhas coisas em um dos cômodos do andar de baixo enquanto a obra acontecia. Eu não quis me desfazer de nada inicialmente, mas acabei cedendo porque não tinha o que fazer mesmo. Parte das coisas foram para a Pantera, o resto a Fernandinha pediu. Ela estava animada com a nova etapa da sua vida, ela iria se mudar também e morar sozinha.
                O Brian teve que viajar sozinho durante aquele período. Ele tinha as corridas e não poderia ficar longe. Pensei em ir, mas quando soube que a corrida seria em Paris, desisti. Eu ainda estava magoada com o fato dele não ter contato a novidade do casamento aos seus pais. Ele queria contar pessoalmente, mas eu não queria estar presente. Aquela mulher não gostava de mim, eu sabia. Nós ficávamos na internet sempre que podíamos e dormíamos com o notebook ao lado.
– Como ela reagiu? – Perguntei ao Brian quando nos falamos na noite da quarta.
– Ficou chocada, mas até que não foi tão ruim. – Ele disse e desviou os olhos.
– Mentiroso. – Brinquei e ele riu.
– Sério. Ela ficou chocada e chorou, mas lembrou como eu fiquei enquanto estávamos separados e eu a fiz entender que você é a mulher da minha vida.
– Quando você volta? – Perguntei sorrindo.
– Por quê?
– Saudade.           
– Pego o avião amanhã cedo. A papelada está correndo, mas não vejo a hora para te fazer mais minha.
– Mais?
– Muito mais, Sabrina Portman. – Ele disse me fazendo sorrir. – Minha única.
                Eu estava trabalhando, mas ansiosa pela chegada do Brian. O voo estava marcado para pousar às 5 da tarde, então fui busca-lo. A Fernandinha estava tomando conta da Pantera e fecharia tudo. O voo estava atrasado, então fiquei apenas sentada no desembarque o esperando.
– Oi. – Sussurrei quando ele saiu e me beijou.
– Oi. – Ele disse e se encolheu quando o abracei.
– O que foi?
– Vamos para casa. – Ele disse sorrindo.
                Enlouqueci quando chegamos e ele tirou a camisa. O louco tinha feito uma tatuagem nas costas e era o logo da Pantera. Ele disse que quis fazer uma em minha homenagem há muito tempo. Amei, ficou linda. Precisou de alguns cuidados, mas ele ficou bem.
                A obra no apartamento novo ficou pronta em tempo recorde. A nossa mudança foi feita por uma equipe aos cuidados da assessoria dele. Eles fariam isso enquanto estivéssemos fora. Resolvi acompanha-lo em uma corrida e foi ótimo. Se eu achava que a equipe do Brasil era incrível, a da Fórmula 1 era muito mais. Os equipamentos e a estrutura eram de se invejar. Como eu falava bem o inglês não tive problemas em me comunicar e fui muito bem recebida. Ficamos em um hotel lindo, enorme e muito bem localizado no Japão. Eu só tinha saído do Brasil 1 vez e na segunda fui parar logo no outro lado do mundo. 
– Essa comida... Não me acostumo. – Comentei quando olhei o cardápio.
– Vou pedir, sei o que você gosta. – Ele disse e o beijei.
– Adorei vir.
– Vamos tentar nos programar para você poder vir mais. Sinto a sua falta.
– Também.
– A sua gerente administra bem a Pantera.
– A Fernandinha é ótima. – Confirmei e ele sorriu. – Será um teste quando viajarmos.
– Ficaremos 1 semana trancados na casa de São Paulo ou você se decidiu?
                Ele estava me pressionando a tomar uma decisão sobre a nossa lua de mel, mas resolvi deixar por sua conta de uma vez. A minha vida estava tão acelerada depois na nossa reconciliação que eu nem conseguia pensar direito. Eu saía com umas amigas enquanto ele estava fora, mas mesmo assim era corrido. Tínhamos que ficar de olho na obra, eu tinha a Pantera e a minha família. O casamento tinha sido marcado e muita coisa ainda tinha que ser resolvida.
                As minhas amigas fizeram um chá de panela digno de uma rainha na nossa nova cobertura assim que estava pronta e teve toda a arrumação concluída. O Brian estava viajando, então tínhamos o espaço todo para nós. A Carmela organizou tudo com a Simone, mas o que me surpreendeu foi a visita inesperada da minha futura sogra. Ela me chamou no quarto e pediu desculpas pela forma como nos conhecemos. Me contou como ele ficou no período em que estivemos separados, mas também como ele voltou muito mais feliz para contato do casamento. Ela estava lá para me dar a sua benção e aceitei. Ela era parte do Brian e ele era tudo para mim, eu precisava me dar bem com a sua mãe.
                O dia do casamento chegou e eu fiquei muito nervosa. O vestido que as minhas amigas e a minha mãe me ajudaram a escolher era lindo, mas me apertava demais. Era difícil de respirar. A igreja estava toda pronta, arrumada, com os convidados acomodados e o noivo no altar me esperando, mas eu estava um pilha no carro aguardando a cerimonialista abrir a porta. O meu pai segurava a minha mão e tentava me acalmar, mas foi difícil. Só respirei fundo novamente quando o casamento acabou e o padre disse as palavras de praxe. O Brian estava lindo e emocionado como eu. Ficamos na festa por apenas 1 horas, nós queríamos fugir de lá.   
– Seja bem vinda, minha única. – O Brian me disse quando chegamos à mansão de São Paulo depois de um voo fretado. Eu ainda estava de noiva.
– Eu te amo. – Sussurrei e ele entrou comigo nos braços.
– Para sempre.
                Depois de quase 3 anos de brigas, discussões, uma separação e a nossa reconciliação, finalmente concluímos um ciclo juntos. Agora, como casados, decidiríamos tudo juntos, viajaríamos e nos reencontraríamos, seríamos uma só engrenagem no motor da vida, a principal. Foram mais de 5 anos até chegarmos lá e conseguimos. Foram mais de 5 anos preparando e moldando a nossa relação e nós mesmos. De amigos nos tornamos amantes, de amantes, marido e mulher, únicos em uma relação complexa. Aprendemos com os nossos erros, e foram muitos, mas o importante era que estávamos prontos para andar em frente na estrada da vida.
– Amanhã partimos para a Europa. – Ele sussurrou no meu ouvido.
– Achei que...
– Você vai visitar as fábricas das maiores montadoras do mundo.
– O que? – Arfei e me sentei sobre ele. Era meu sonho.
– Esse é o meu presente de casamento para a minha chefe dos mecânicos, para a mulher que tem a minha vida em suas mãos de todas as formas possíveis.
– Eu te amo! Te amo! Te amo! – Eu gritava enquanto beijava o seu rosto.
       



AGRADECIMENTO


Gostaria de agradecer a você por ter dedicado algumas horas do seu dia para ler “Acelerando os Motores.”, uma história de força e amor entre duas pessoas teimosas e apaixonadas por sua profissão, assim como eu.
“Acelerando os Motores” surgiu como uma avalanche em um sonho. Em menos de 1 semana estava escrito. Ele é meu presente para você hoje, no dia do meu aniversário. Espero que você curta.

                                                        Bjkas
Paula R. Cardoso Bruno



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