domingo, 20 de janeiro de 2013

Registro 64.75

O primeiro romance policial da escritora Paula R. Cardoso Bruno chega repleto de aventura, perigo, tensão, mas como sempre, muito romance.
A estória se passará entre Brasília e o Rio de Janeiro, mas em vários trechos a protagonista viajará por outros cantos do país. Helena, uma delegada da Polícia Federal brasileira que viveu um momento trágico no início da adolescência, traça um futuro para si mesma e o persegue com determinação e vigor. Se torna a melhor, a mais temida, uma profissional no mais alto nível, mas não contava com o acaso. Sempre rodeada por colegas de trabalho não dá chances ao amor e é exatamente quando se permite um momento de descontração e relaxamento, que o encontra. Em um cruzeiro ela conhece Henrique, um homem desconhecido mas que não se intimida, é tão forte e competitivo quanto ela, decidido e que se apaixona.
Não será nada fácil, mas quem sabe o que pode acontecer?
Ação... Paixão... Aventuras e surpresas te esperam em Registro 64.75.





Leia agora o primeiro capítulo desse incrível Romance Policial



A Juventude Roubada

A minha família nunca teve muitas posses, como o meu pai dizia, mas com muito esforço conseguimos comprar a nossa casinha própria e um carro zero, apesar de popular. Meu pai, um bancário e a minha mãe, uma secretária, não tinham condições de manter todo o luxo dos nossos vizinhos. Morávamos em Brasília, num bairro de classe média chamado Asa Sul, mas não tínhamos realmente o mesmo nível que os nossos vizinhos do Lago Sul. Ao nosso lado direito morava o dono de uma rede de mercadinhos que se espalhou por quase todos os bairros de classe média. Do lado esquerdo morava um alto funcionário do governo, mas não tão alto para cruzar o lago e ir se misturar com os deputados, senadores e ministros. Eu conhecia todo mundo, estudávamos no mesmo colégio, mas eu me sentia deslocada. Enquanto a maioria chegava de motorista ou de carona com os pais naqueles carrões, eu ia de ônibus mesmo e quase sempre chegava atrasada. A diretora nem chamava mais os meus pais, via no meu rosto vermelho depois da corrida do ponto até o portão da escola, o motivo do meu atraso. Transporte público nunca foi o forte da minha cidade, quem morava lá andava de carro mesmo. Os meus pais tinham acordo com os amigos e pegavam carona dividindo o combustível. No final do mês saía mais barato, aquele era objetivo número um dos meus pais.
Fazíamos de tudo para economizar durante o ano todo e viajar nas férias para a casa de parentes em outros estados. Eu tinha uma tia no Rio de Janeiro, um tio na Bahia e uma no Rio Grande do Norte. O irmão mais novo da minha mãe tinha morado conosco por alguns anos enquanto terminava a faculdade de advocacia, mas acabou passando para um concurso público e se mudou. Eu adorava ir à casa dele, era muito mais descontraído, o bairro mais amigável. No meu sempre tinha aquele homem de nariz em pé achando que era mais que os outros.
Tínhamos a nossa vidinha normal, eu tinha a minha rotina escola-casa e não reclamava. Na minha casa tinha uma piscina pequena, mas que eu me refrescava com as amigas nos dias quentes e um pequeno quintal onde a minha mãe cultivava as suas plantas com o maior gosto. Aquilo era a sua distração nos finais de semana e o meu pai ajudava quando não estava estudando, almejando um emprego melhor. Eles faziam de tudo para me dar conforto e segurança, trabalhavam muito para aquilo.
Ia tudo bem quando o meu mundo desabou.
Era uma quinta feira quente, véspera de um feriado e como sempre acontecia no início do mês, meu pai pediu a pizza favorita de todos e de sobremesa uma média meio a meio de chocolate e banana com canela. Colocamos um filme para assistir enquanto esperávamos o interfone tocar e o meu pai contava animado que estava esperando o resultado de mais um concurso. Ele nunca desistia e pelo gabarito achou que teria grandes chances daquela vez. Se ele passasse, teríamos condições de comprar outro carro para a minha mãe e eu não precisaria ir de ônibus todos os dias. Seria ótimo para todo mundo, mas as coisas foram bruscamente interrompidas.
– Chegou! – Minha mãe disse animada quando ouvimos o interfone tocar.
– Vou buscar. – Meu pai avisou.
– Vão arrumando aí... Não esqueça de pegar o gelo. Deixa que eu vou. – Ela disse e foi o seu erro.
Estávamos sentados na sala esperando quando ouvimos o primeiro grito. Não era a pizzaria, eram bandidos querendo assaltar a nossa casa. O meu pai levantou correndo e me mandou ficar abaixada no canto, mas um dos bandidos entrou e lhe deu um soco tão forte que o meu pai caiu desacordado. Outro, o que dominava a minha mãe, a amarrou e a colocou sentada no sofá. Eu tremia muito de medo enquanto a minha mãe gritava para não me fazerem mal, foi a minha sorte. O segundo homem apenas me amarrou também e depois o meu pai. Foi horrível.
Eles revistaram a casa toda, não deixaram nada no lugar. Durante toda a noite ficavam discutindo e procurando dinheiro e joias que não tínhamos. As únicas coisas de valor eram as alianças dos meus pais e um colar herdado pela minha mãe. Eles tinham penhorado tudo para conseguir o dinheiro para a compra da casa e o resto eram dívidas. Os meus pais falavam, mas eles não acreditavam e me ameaçavam o tempo todo. A nossa esperança era a entrega da pizza, mas era um motoqueiro novo que não nos conhecia e entregou a pizza ao bandido.
Por volta das seis e meia da manhã a Janaína, nossa ajudante, chegou de mansinho como sempre e acabou me vendo amarrada e com a boca tapada. Eu arregalei os olhos e indiquei com a cabeça que era para ela sair, foi o que ela fez. Os bandidos não a viram, mas ela acabou chamando a polícia que chegou menos de meia hora depois. Pudemos ouvir a sirene ecoando do lado de fora. Um dos bandidos acabou me pegando como escudo e colocou a arma na minha cabeça. Eu tremia muito, estava morrendo de medo por mim e pelos meus pais. O outro bandido ficava com a arma apontada para eles os acusando de ter chamado a polícia.
– Mamãe te ama, filha. – Minha mãe sussurrava para mim.
– Deixem a minha filha ir, por favor. – Meu pai implorava.
– Cala boca! – O bandido de camisa vermelha que apontava a arma para os meus pais ordenou bem nervoso.
– A casa está cercada! – Uma voz vinda de fora avisou.
– Vagabundo denunciou a gente. – O bandido que me segurava resmungou e apertou o meu pescoço me fazendo gritar.
– Vamos negociar. – O policial gritou de fora da casa.
– Temos que cair fora. – O bandido de camisa vermelha murmurou para o que me segurava.
– Sem a grana? Não! Nos cantaram a parada. Vamos pegar a grana e sair pelo portão dos fundos.
– Não temos portão dos fundos. É apenas um muro. – Minha mãe disse.
– Queremos a grana! Abre o bico e fala logo. Sabemos de tudo... Vocês são ricos! Fala sério! – O de camisa vermelha rosnou.
– Sou bancário! – Meu pai arfou.
– Sou secretária. – Minha mãe contou.
– Mentira! Vocês são donos daquela loja de carros na avenida principal. – O bandido de camisa vermelha debochou.
– Não! Olha o meu carro, rapaz. Ainda estou pagando. Somos pobres, cara! Vocês pegaram a família errada! – Meu pai arfou.
– Que merda, cara! Carro popular. – O bandido avisou furioso depois de olhar pela janela que dava para ver a garagem e o fundo da casa. – Muro atrás, mané! Temos que cair fora antes que entrem aqui.
– Atendam o telefone e vamos negociar. – O policial gritou do lado de fora.
– Por favor. Deixem a minha filha sair. – Minha mãe implorou chorando.
– Não! – Gritei.
De repente tudo aconteceu e foi rápido demais. Uma sombra passou na janela e ouvimos o primeiro disparo. Um tiro vindo de fora atingiu o bandido que me segurava, mas ele acabou atirando também e acertou a minha mãe antes de cair. O bandido de camisa vermelha se desesperou e começou a atirar sem parar quebrando os vidros da janela, um deles atingiu o meu pai. Algo me dominou naquele momento, o medo foi suprimido de alguma forma e agi. A arma do bandido que me dominava estava no chão ao seu lado, então a peguei e pela primeira vez na minha vida senti o peso de uma arma, o peso e a sensação do primeiro tiro.
– Ahhh!!! – Gritei e descarreguei a arma no bandido que tinha matado o meu pai.
Eu simplesmente não consegui me controlar. Enquanto a arma não ficou vazia eu não parei. Ele caiu, mas eu não parei. Fiquei com muita raiva, a sede de vingança me dominou. Eu via tudo vermelho na minha frente, a sala da minha casa estava cheia de furo nas paredes, vidros quebrados no chão, sangue no tapete e no sofá.
– Calma. – Um policial pediu e abaixou a minha mão quando se aproximou por trás e eu ainda apertava o gatilho, mas não tinha bala.
Depois daquilo a minha casa foi invadida por muitos homens com roupa da polícia e armas em punho. Eles arrombaram a porta achando que poderia ter mais algum bandido e começaram a revistar a casa. Eu ouvia vozes gritando que a casa estava vazia, gritos do lado de fora, sirenes ecoando.
– Mãe! Pai! – Gritei quando vi os seus corpos no chão e aquelas poças de sangue manchando o chão.
Nunca imaginei que o sangue fosse algo tão viscoso. Abraçada aos seus corpos, chorei as suas mortes e me sujei com o sangue que me deu a vida. Eles não mereciam aquilo, não mereciam uma morte tão horrível. Uma policial me tirou de lá dizendo que a perícia tinha que trabalhar, mas eu não queria sair. A Janaína, ajudante da casa estava do lado de fora e me abraçou forte me agradecendo pela sua vida. Se eu não a tivesse mandado sair, ela também poderia estar morta. Ela avisou ao irmão mais novo da minha mãe e ele também estava lá, foi ele que me pegou no colo quando desmaiei. A verdade que eu estava sozinha e órfã me dominou e eu me desesperei. Sem os meus pais, o que eu faria da minha vida? Eles eram tudo para mim.
Quando acordei, vi que eu estava deitada na cama de um hospital com ele ao meu lado. O meu tio prometeu que cuidaria de mim, que a sua casa seria a minha a partir daquele dia.
Alguns dos meus amigos da escola foram até o hospital naquele dia, mas não puderam entrar. Um delegado me visitou e pediu que eu relatasse o que tinha acontecido, mas o meu tio, que era advogado, pediu um tempo para mim e marcou o depoimento para dali a dois dias, eu precisava enterrar os meus pais, pensar o que seria da minha vida. Ele estava apenas cuidando de mim e eu agradeci muito. Eu não entendia nada dos preparativos de um funeral e nem que os meus pais cuidavam realmente de tudo. Eles tinham um seguro que cobria aquilo e muito mais. O meu pai o tinha feito no banco onde trabalhava. Foi só o meu tio acionar e o seguro cuidou de tudo por mim, de tudo que eu não teria coragem e nem sabia como fazer.
Na manhã do dia seguinte, depois da minha primeira noite já na casa do meu tio, segui no carro dele para o velório. Estava lotado dos amigos e parentes que puderam ir. Os meus pais eram muito queridos, muito amados pelos amigos. Eles me prometeram apoio e conversaram muito com o meu tio. Eu não conseguia entender nada, só via aqueles dois caixões com os meus pais deitados. Tremi muito quando me aproximei, o meu tio disse que eu não precisava, mas eu quis me despedir. Eles tinham implorado pela minha vida, sempre diziam que eu era a continuação da deles e foi lá, aos pés das suas últimas moradas que prometi, a eles e a mim mesma, que eu lutaria contra a violência, que faria de tudo para garantir a minha segurança e de todos que eu pudesse ajudar. As lágrimas escorriam dos meus olhos enquanto eu murmurava e uma força me mantinha de pé, mas não consegui resistir ao sepultamento. Foi muito difícil ver que tudo tinha acabado, fiquei sem chão e sem saber bem o que fazer. Parecia um pesadelo, foi estranho.
– Vamos para casa. – Meu tio pediu quando fiquei sentada olhando os homens do cemitério terminando o sepultamento.
– Mas eles ficarão sozinhos aqui. – Arfei. – A minha mãe nunca gostou de ficar sozinha.
– Eles estão juntos, Heleninha. – A Janaína me disse.
– Para onde eu vou? Para casa?
– Para a casa do Ulisses, querida. O seu tio ficará tomando conta de você.
– E as minhas roupas? Meu material da escola? – Perguntei confusa.
– Vamos cuidar de tudo assim que a polícia liberar a casa. – O meu tio me prometeu. – Mas até lá você ficará comigo.
– Tá.
Aquele foi o primeiro dia da minha nova vida. O plano de um curso de inglês se desfez, o sonho de uma faculdade de letras virou fumaça. Quando cheguei à casa do meu tio ele me avisou que na segunda eu teria a minha primeira consulta com uma psicóloga para me ajudar a superar aquele primeiro momento. Eu perguntei como viveria já que sem os meus pais eu não teria como me sustentar, mas acabei descobrindo muitas coisas. Os meus pais tinham seguros de vida no nome de cada um em separado e eu era beneficiária em todos. Fiquei meio em choque, claro. O meu tio tinha conhecimento de tudo e me mostrou todos os documentos. Os meus pais confiavam a ele aquelas coisas e eu nem tinha conhecimento. Não era à toa que vivíamos sempre no limite das despesas, eles pagavam os seguros da casa, do carro, de vida e mais uma poupança em meu nome que eu só poderia tocar depois dos dezoito anos.
Mesmo tão novo, com apenas vinte cinco anos, o meu tio era um homem inteligente e muito centrado. Ele realmente cuidou de tudo para mim. Como eu era menor, precisava de um tutor. Como ele tinha emprego fixo e casa própria, a justiça aceitou o pedido de guarda e passei a viver com ele. Como era previsto, pedi e ele vendeu a casa onde morávamos por uma mixaria. Todo mundo sabia o que tinha acontecido, mas eu queria mesmo era nunca mais ter que passar por lá. Ele fez a mudança das minhas coisas para a sua casa e depois que a psicóloga me liberou, voltei para a escola.
Eu não sabia, mas eu era o comentário geral. Todo mundo sabia que eu tinha atirado nos bandidos, as meninas me olhavam estranho e até pareciam ter medo, os meninos também não se sentiam confortáveis. A diretora me chamou na sala dela no primeiro dia e me encheu de perguntas, desconfiavam que eu já tinha atirado alguma vez. Aquilo desencadeou um crise emocional em mim, a psicóloga teve que ser chamada porque eu não parava de chorar. Vi no banheiro das meninas uma caricatura minha e com o dizer “Assassina” em baixo. Uma semana depois o meu tio me transferiu da escola e ainda processou a diretora. A psicóloga disse que ela não devia ter falado aquelas coisas para mim, estava muito recente e em momento algum houve uma desconfiança da parte da polícia. Eu apenas tentei salvar a minha própria vida. A perícia e as investigações em nenhum momento tiveram dúvidas de que eu seria a próxima a morrer se eu não tivesse atirado primeiro.
Na nova escola eu cheguei a ser reconhecida por algumas pessoas, mas não fui destratada ou houve comentários estranhos. Como eu passei a receber a pensão dos meus pais, pude estudar num colégio melhor e fazer todos os cursos que eu queria. O meu tio não me negava nada, apenas me aconselhava. A minha opinião era sempre a final, mas ele nunca deixava de expor o seu ponto de vista. Na maioria das vezes ele tinha razão, adolescente com muita grana não poderia ter muita noção mesmo. Mas numa coisa sempre entrávamos em acordo, ele me apoiou cem por cento quando decidi fazer artes marciais e defesa pessoal. Era uma forma de eu desestressar e aprender a me defender de tudo. A psicóloga também achou uma boa ideia e foi lá que encontrei o meu caminho.

(...)

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