domingo, 20 de janeiro de 2013

Águas - Capítulo I

Depois de mais de quinze anos guardado a sete chaves, Águas chega agora para você recheado de romance, ação e ficção.
O primeiro livro de romance/ficção da escritora Paula R. Cardoso Bruno te levará ao incrível mundo de Águas, mas primeiro você conhecerá a protagonista dessa linda estória de amor e como ela reencontrou Patrick, seu verdadeiro amor.
Seja bem vindo ao mundo de Águas...
Pamela tem vinte oito anos e mora sozinha em Copacabana no Rio de Janeiro, ela adora nadar, mais especificamente, ela adora nadar no mar. Isso, mesmo depois de ter sofrido um grave acidente em alto mar quando adolescente.
Em uma viagem pela Europa com sua família, Pamela caiu de uma barca que se chocou com outra que fazia um percurso pelo canal da Mancha, entre a Inglaterra e a França. Ela tinha quinze anos e a viagem foi um presente. Pamela ficou desaparecida por dias deixando todos muito preocupados. O consulado Brasileiro foi alertado para ajudar sua família naquele momento de dor e, a pedido deste, as marinhas da França e da Inglaterra começaram as buscas, mas não a encontraram.
Pamela não se lembra de quase nada do acidente, apenas que despertou no hospital depois de ser resgatada desacordada em Nantes, uma cidade dentro da Baía de Biscaia, na França. O que mais intrigou as autoridades é que a corrente marítima corre exatamente no sentido contrário e que Pamela não poderia ter sobrevivido à tamanha distância. Ela foi simplesmente achada depois de uma ligação feita ao consulado informando que uma moça com suas descrições foi achada.
Fotos de Pamela haviam sido divulgadas na TV de toda Europa e do Brasil.
Depois desse dia, sua vida tomou um rumo completamente diferente.

Cap. 1 - Meu Refúgio

Com vinte oito anos, eu realmente acreditava que Deus olhava por mim. Eu morava em Copacabana, no Rio de Janeiro. Não era um apart de luxo, nem ficava em uma das ruas mais chiques, movimentadas e famosas do bairro que todos cobiçavam. Nada daquilo era importante para mim... O importante era que ficava perto da praia e eu podia ir caminhando.
Meu apartamento nem deveria ser chamado assim, ele era na verdade uma espécie de estúdio. Tudo ficava praticamente num mesmo cômodo, mas ele tinha lá seu charme. Do meu quarto eu podia ver a sala e a cozinha. Só o banheiro tinha sua própria porta garantindo a privacidade e a névoa do banho quente que eu adorava. Encontrar aquela relíquia foi um achado.
Uma das minhas amigas, a Liza, era design de ambientes e me ajudou a arrumá-lo da forma mais funcional possível para mim. Como eu morava sozinha e não mantinha empregada fixa, precisava me policiar para manter tudo arrumado e em ordem, ela foi perfeita naquilo.
O estúdio era bem pequeno em relação aos grandes aparts da região, mas era bem maior que uma das quitinetes do prédio ao lado. A Liza conseguiu uns móveis modernos, lavadora de roupa com secadora, lava louças, geladeira com freezer combinado, fogão de mesa e um microondas que era uma espécie de forno elétrico também. Tudo do mais moderno e funcional. A solução para um escritório foi um tipo de beliche, só que na parte de baixo eu tinha tudo organizado. Era onde eu mantinha o meu laptop, impressora, scanner, modem e tudo mais que eu usava em casa, e que precisava no trabalho também, tudo perfeitamente iluminado. Eu precisava daquilo tudo porque muitas vezes eu trabalhava em casa ao invés de ir para a empresa. Eu dormia na parte de cima do beliche que tinha o tamanho de uma cama de casal. Como o estúdio tinha um pé direito de mais de três metros, a Liza colocou duas TVs também, uma na sala e a outra magicamente suspensa sobre a minha cama presa numa espécie de giro-visão que ficava preso no teto e descia na direção do pé da cama. Assim eu podia assistir TV enquanto estava deitada, o que eu adorava. A da sala ficava mais para quando eu recebia os amigos, o que era coisa rara. Eu gostava da minha privacidade e as reuniões com eles aconteciam normalmente na praia, no shopping ou quando saíamos para dançar ou jantar fora. A Liza foi simplesmente perfeita e uma ótima amiga, como sempre. A primeira vez que eu entrei no apartamento estava em busca de um novo lugar para morar, ela foi comigo, se apaixonou de cara pelo lugar.
– Pam, que máximo! – A Liza me arfou assim que entramos no estúdio.
– Sei lá, Liza. – Disse. – É estranho. Veja. Não tem divisão de ambientes. Quando fizer uma fritura aqui na cozinha, o sofá lá do outro lado vai ficar todo engordurado.
– Depurador, Pam. – A Liza meio que resmungou parada na minha frente com os braços cruzados. – Já ouviu falar? E microondas? Conhece?
– Não tenho grana, amiga. O que eu tenho mal dá para comprá-lo, ainda mais tudo isso que ronda nessa cabeçinha.
– Deixa comigo.
– Deixa contigo? O que é? Ganhou na loteria e nem avisou aos amigos? – Ri ao perguntar.
– Aposto que o pessoal da revista ficaria louco com esse espaço. – Ela disse abrindo os braços e girando pelo ambiente. – Ficará perfeito.
– Amiga? Oi, estou aqui! Não tenho grana!
– Esse banheiro... Bem, ninguém merece isso aqui, é minúsculo, Pam. Mas se a gente derrubar essa parede aqui e aumentar um pouco ficará perfeito. – Ela dizia e tirava fotos de tudo com o celular. – Meu editor vai enlouquecer!
– Do que você está falando? – Perguntei a segurando pelos braços.
– Espera um minuto. – Ela disse e começou a falar no celular.
– Não estou entendendo nada. Você é louca. – Resmunguei e fui olhar pela janela.
Olhando pela janela era possível ver a praia no final da rua, aquela localização era exatamente o que eu queria. Sendo perto da praia, eu poderia ir a pé todos os dias para nadar antes de ir para o trabalho. O condomínio não era lá muito caro, mas tinha elevador, porteiro e interfone apesar de ser um prédio antigo, mas tudo era um sonho. O lugar estava sujo, empoeirado, parecia abandonado havia anos, sem falar que custaria uma pequena fortuna para que aquilo ficasse habitável.
Como a Liza trabalhava em uma revista de design interno, na mesma hora ligou para o seu editor e contou que tinha encontrado um lugar perfeito para o projeto que ele, coincidentemente, havia comentado algumas semanas antes. Eu ouvia tudo confusa, não entendia o que o meu estúdio tinha haver com a revista dela. Ela começou a sorrir e concordar com algo que o editor falava enquanto eu caminhava pelo lugar.
– Isso aqui é mais do que perfeito, dá para fazer tudo o que imaginávamos... Eu também acho que seria... Claro... Tenho certeza disso... Ficaria lindo mesmo... Tudo bem... Eu aposto que ela vai concordar. – A Liza disse e olhou para mim.
– Ela quem? – Perguntei quando passei perto dela.
– Shhh. – Ela resmungou.
A conversa no celular continuou enquanto eu me afastava para olhar o banheiro e a cozinha. Não estava entendendo nada mesmo e não adiantava ficar perguntando, ela só me contaria depois. A pia e a torneira da cozinha eram desastrosas, eu teria que trocar aquilo tudo. O banheiro era minúsculo, mas de alguma forma, além do chuveiro elétrico dentro de um pequeno box, tinha uma banheira velha de pé que parecia ter vindo direto da época das fazendas de café, quando a sinhazinha se banhava dentro do quarto. De certa forma ela seria charmosa se recebesse um tratamento adequado. O piso era horrível, cheio de lajotinhas que faziam um desenho brega no meio. Aquilo ali teria que sumir de algum jeito. Era horrível e estava todo manchado.
Enquanto eu sonhava com uma reforma milagrosa e barata, a Liza continuava no celular e foi olhar pela janela. Contou que era perto da praia de Copacabana e pelo que puder perceber o editor gostou de saber. Não entendi o que aquilo tinha a ver com o meu estúdio, então fiquei sentada sobre uma pilha de latas de tintas a esperando.
– Você vai surtar, Pam. – A Liza disse me abraçando assim que desligou o celular.
– O que está acontecendo, amiga? O que isso aqui tem a ver com a sua revista? Pelo que eu sei, esse monte de poeira e latas jogadas no canto não é arte... Sem falar naquele banheiro.
– Aí que você se engana, minha amiga. Mandei as fotos que tirei para o meu editor e ele adorou. Disse que é raro conseguirmos um espaço tão bom para trabalhar nessa área.
– Peraí, vocês vão comprar isso aqui? – Perguntei ainda confusa.
– Acorda menina. Você não está ouvindo o que eu estou falando? – Ela perguntou rindo.
– Eu acho que não.
– Você vai comprar... Mas nós vamos decorar. – Ela me contou.
– Hei! Lembra... Não posso bancar isso.
– Você não vai... Nós vamos, se você quiser... Claro.
– Como?! – Arfei.
– O editor me disse que seria um trabalho incrível. – Ela começou a me contar enquanto andava pelo estúdio. – Provavelmente umas seis páginas inteiras da revista mostrando todos os detalhes da reforma, desde o primeiro dia.
– Dá para você ser mais clara? – Pedi.
– Acompanha meu pensamento. – Ela falou e começou a me explicar tudo com detalhes. – Eu trabalho em uma revista de decoração de ambientes, certo? Os decoradores pagam para que suas criações saiam na revista, e isso é mais do que uma propaganda, é uma garantia de dezenas de clientes riquíssimos atrás deles querendo as suas criações, alguns até querem idênticos aos retratados. Se você permitir, o que acho que você seria louca de recusar, nós bancaríamos toda a reforma e decoração do apartamento. Bem, uma equipe inteira de encanadores, eletricistas, decoradores e designers fariam tudo sabendo que o trabalho deles seria todo detalhado na revista. Cada peça, cada item seria mostrado e indicado onde foi comprado e como foi instalado. Para eles essa reforma não custaria dez por cento do que eles lucrarão com a propaganda. Nós tiraríamos fotos de cada cantinho, desde a reforma até depois com o estúdio pronto. Isso aqui é um achado, Pam. Artistas moram assim, com tudo conectado.
– Você só pode estar brincando comigo! – Gritei. – Claro que quero!
– Você só precisa comprar o estúdio. – Ela disse enquanto eu a abraçava.
– Nós temos que comemorar.
– O que você sugere?
– CHOCOLATEEEE! – Gritamos juntas e rimos muito.
Saímos do estúdio e fomos direto para uma doceria perto. Enquanto dividíamos uma fatia de torta de brigadeiro, a Liza continuava a me contar como imaginava que o estúdio iria ficar. Ela estava muito animada e transmitia aquilo para mim.
– Sei que pode parecer brega, mas gostei daquela banheira. – Disse esperando que ela viesse com o papo de que uma hidro seria mais moderno, mas me enganei.
– Também gostei. – Ela me surpreendeu ao dizer. – Claro que ela precisará de uma reforma, trocar o encanamento... Seria dourado!
– Também pensei nisso. E trocar os pés!
– Acho que seria melhor comprar outra no mesmo estilo. Vou levar isso para a equipe que vai cuidar do banheiro.
– Será que eles vão aceitar?
– Acho que não tem por que não aceitarem. – Ela me disse confiante. – A banheira vai ditar o estilo que o banheiro terá. Já estou até imaginando o modelo do chuveiro e da ducha que usarão.
Tive muita sorte na compra. Dois dias depois de ver o estúdio e da Liza me contar que tudo seria feito pela revista, me reuni com o proprietário na imobiliária. Ele contou que estava mesmo querendo livrar-se do imóvel para poder viajar e aceitou minha proposta de cara. Foi uma maravilha, ele nem contestou. Mesmo super feliz e satisfeita, fiquei meio preocupada com toda aquela boa vontade.
– Sei lá, Liza. – Sussurrei quando o homem foi buscar uns documentos. – Deve ter algo errado com o imóvel. Está fácil demais.
– Por quê? – A Liza sussurrou.
– Aquilo vale muito mais, amiga. É Copacabana. Não estou acreditando muito nisso. Sei lá, está estranho.
– Você e essa mania de achar que tudo está estranho. Acredite, Pam. – A Liza me disse enquanto esperávamos.
– Não sei, está tudo fácil demais. – Resmunguei.
– Já mandei um pessoal lá para conferir o encanamento e ver se a parte elétrica está certa. Esse cara só quer se livrar disso para poder viajar.
– Tem certeza?
– Falei com o porteiro. – Ela cochichou no meu ouvido. – Ele me disse que o cara casou com uma mulher rica e está indo para a Europa. Ele não está nem aí. Se você oferecesse a metade era capaz dele aceitar.
– Você devia ter me dito isso antes. – Ri ao dizer, muito mais tranquila.
Em relação à documentação estava tudo realmente certo. Dudu, um amigo que tinha uma empresa de advocacia e que cuidava também de documentação e aluguel de imóveis verificou para mim.
– Nem acredito que vou ter meu cantinho. – Disse feliz quando o Dudu me garantiu que estava tudo certinho.
– Te falei que daria tudo certo. – A Liza me disse.
– Sei lá... É que tudo era ...
– Já sei... Tudo estranho. – A Liza disse rindo me interrompendo.
– Mas era mesmo. – Brinquei.
– Você deu sorte, só isso. – Ela disse e me abraçou. – E ter uma amiga na revista também contou.
– Te adoro. Não conseguiria isso sozinha.
Tudo ocorreu bem. Assim que foi dada a entrada na documentação da transferência de propriedade do estúdio tive uma reunião com o editor da revista. Ele queria saber o que eu imaginava para o lugar e também o que eu precisava.
– Pam... Apesar de estarmos bancando toda a reforma do estúdio, o lugar é seu. – O editor da revista me disse. – Preciso dizer a eles o que você precisa senão eles irão enlouquecer e não será bom que isso aconteça. Eles exageram e pode não ser funcional para você.
– Não preciso de muita coisa, seria complicado para manter. – Disse.
– Me diga, sem medo. São os decoradores e a equipe de reforma quem vai bancar isso. Pode pedir o que quiser.
– Bem... – Murmurei confusa.
– Basicamente, do que você precisa? – Ele me perguntou e começou a anotar.
– Tudo bem... Uma cama de casal, um espaço para trabalhar onde eu pudesse colocar meu note, scanner, modem, impressora... Essas coisas. A Liza sabe do que preciso. Um sofá para receber as visitas, TV, DVD, som... A Liza falou em microondas e depurador para a cozinha, para não engordurar o ambiente. Comentei com ela que achei a banheira um charme, ela falou que talvez esse pudesse ser o tema do banheiro.
– Ela me falou. Também gostei. – O editor comentou.
– Acho que é isso. Não entendo muito dessas coisas. Só tem que ser tudo muito prático, fácil de arrumar e manter. Moro sozinha e não mantenho ninguém para me ajudar a cuidar de tudo.
– Vou passar tudo para eles hoje mesmo, já tenho os prováveis decoradores. Assim que a notícia se espalhou na revista recebi vários telefonemas. Esse pessoal adora pegar um ambiente cru como o seu.
– Nem sei o que dizer... Muito obrigado. – Disse apertando a mão do editor.
– Obrigado você, por ter aceitado.
A cada dia em que algo novo era feito no estúdio, a Liza me contava. Foi uma semana só para que a fiação fosse trocada, meia para que o piso do banheiro fosse retirado e um novo colocado junto com o revestimento. Ela só me contava, não me deixava ir até lá, dizia que seria uma surpresa... E foi.
– Fique com os olhos fechados. – A Liza me disse na porta do estúdio, nem aquilo ela deixou que eu visse.
– Você está me matando de ansiedade. – Resmunguei, mas sorria.
– Falta pouco. – Ela disse quando ouvi o barulho das chaves.
– Anda logo! – Resmunguei batendo o pé no chão. – Você está se divertindo às minhas custas, Liza!
– Ok, pode abrir agora. – Ela disse e tirou a mão dos meus olhos.
Eu não conseguia dizer nada, estava tudo lindo e perfeito. Comecei a caminhar pelo lugar e não acreditava que aquele monte de poeira pudesse um dia se tornar o meu lar. Toquei no tecido do sofá fofo, na pia de granito negro na cozinha, a porta do meu banheiro, que tinha ficado perfeito. A banheira nem parecia à mesma.
– Eu nunca conseguiria isso sozinha. – Disse abraçando a Liza. – Você é incrível, obrigado... Obrigado... Obrigado.
– Você tem que agradecer ao editor que autorizou isso. – A Liza dizia enquanto eu beijava o rosto dela.
– Eu vou. – Disse a largando para conferir cada cantinho.
Depois de uns dois meses e meio da primeira vez que eu pisei no estúdio todo empoeirado, finalmente eu estava me mudando. Foi um sucesso. Assim que as fotos para a revista foram tiradas, dois dias depois de Liza ter me mostrado como havia ficado e as minhas coisas encaixotadas, aquele lugar se tornou o meu refúgio. No primeiro final de semana depois de eu ter me mudado dei uma pequena festinha e reuni os meus poucos amigos para conhecer.
– Amiga, isso aqui é o máximo! – A Sandrinha arfou ao chegar para a festinha.
– Agradeça à Liza, ela que conseguiu isso tudo. – Disse.
– Mulher, você é sortuda mesmo. – A Dani brincou no seu melhor estilo. – Caramba, Pam! Ficou ótimo! Nem parece aquele buraco empoeirento de antes.
– Hei! Não chama a minha casa de buraco empoeirento não. – Eu ri ao dizer.
– Só tem um detalhe. – A Sandrinha parou com o dedo levantado para dizer. – Onde você vai colocar o berço das crianças?
– E quem disse que terá criança nesse lugar? – Brinquei.
– Tá bom amiga, era o que a gente dizia. – A Dani disse.
– Agora só falta levar o papagaio quando a gente viaja. – A Sandrinha riu ao comentar.
– Tá bom. – Debochei. – O dia que eu me amarrar a gente comemora com uma big torta de chocolate, tá?
– Vamos cobrar. – A Dani e a Sandrinha disseram juntas.
Estava todo mundo lá, os meus melhores e eternos amigos de infância, os mais chegados e que eu não perdi contato mesmo depois de muitos anos. A Dani, a Sandrinha, o Alê, o Dudu, o Carlinhos, o Lu, a Fabi, a Betinha e a Liza, responsável por tudo aquilo. Assim que ela chegou foi cercada pelos meus amigos, principalmente as amigas pedindo dicas de decoração. Brincando, elas compraram exemplares da revista para autografar, foi super divertido. Os meus pais adoraram o lugar, ficaram encantados e agradeceram muito a Liza por tudo que ela havia feito por mim.
– Nós nunca poderíamos lhe dar tudo isso, minha filha. – A minha mãe me disse no final da festinha. – Você tem que levantar as mãos para o céu e agradecer por a Liza ter entrado na sua vida.
– Sei disso, mãe. – Disse.
– E você minha querida. – A minha mãe disse à Liza. – Muito obrigado. Um dia quero conhecer esse editor que autorizou isso tudo, ele foi muito generoso.
– Um dia a Senhora vai conhecer. – A Liza brincou. – Mas pode deixar que falo com ele que vocês aprovaram.
A minha família não era rica, na verdade o meu pai já era aposentado. Ele deu muito duro na vida para conseguir juntar dinheiro para poder comprar a sua casinha na Região dos Lagos, aquilo lá era um sonho para eles. Os meus pais faziam o possível para me dar a melhor educação possível, dentro das nossas possibilidades como meu pai dizia.
– Pelo menos você teve uma boa educação, minha filha. – O meu pai me disse num domingo em que eu estava com eles em Búzios. – Um emprego como o que você tem, com toda aquela facilidade de horário, não se consegue fácil.
– Bem, pelo menos aquele acidente serviu para alguma coisa. – Brinquei.
– Não diga isso, minha filha. – A minha mãe disse aflita.
– Desculpe, mãe.
– Vamos esquecer isso, está bem? – Meu pai pediu.
– Tenho que ir. – Disse colocando meu capacete.
– Cuidado nessa estrada, filha. – Minha mãe pediu.
– Eu sempre tenho, mãe. – Garanti quando dei a partida na moto.
– Por que você não vende esse troço? – Meu pai reclamou ao pedir.
– Por que eu adoro correr. – Disse rindo e antes que eles pudessem reclamar pisei no pedal da marcha e acelerei.
– Pamela! – Meu pai resmungou.
– Ligo quando chegar em casa. – Gritei já partindo.
Eu trabalhava numa empresa de multinacional de informática especializada em criação, manutenção e assistência à softwares para grandes empresas. Era um sonho trabalhar lá, e era perfeito para mim. Como a empresa precisava funcionar on line vinte quatro horas por dia para atender todos os clientes no Brasil e em outros quinze países, necessitava de pelo menos três equipes se revezando, eu escolhi um turno que só começava quase ao meio dia, fora do horário do rush. Dava tempo de nadar de manhã cedo e ainda sobrava para resolver os meus problemas. Lá pelas oito da noite eu voltava para casa sem pegar um engarrafamento ou ia ao shopping. A empresa ficava localizada na Barra da Tijuca, a mais ou menos vinte minutos de carro da minha casa, isso se eu não pegasse um engarrafamento ou tivesse um acidente no caminho.
Eu nem pensava em trabalhar com informática até o final do segundo grau, foi uma amiga que me convenceu a seguir esse caminho depois de ver um prospecto de uma faculdade e como sabia que a minha seria paga, me convenceu a fazer um curso antes para ver se eu ia gostar, o que aconteceu. Até os meus quinze anos, na minha casa, não tínhamos computador e eu nem me interessava muito já que não tinha acesso, não fazia ideia do que acontecia fora do meu mundo. Meu ciclo social girava basicamente entre os amigos da escola e do clube, além da família e os amigos de meus pais, mas a minha vida mudou completamente quando voltei da viagem e conheci a Liza. Eu tinha quinze anos e tinha acabado de voltar da Europa com os meus pais. Era uma viagem de comemoração pelos meu aniversário, mas foi desastrosa... Pelo menos o final. (...)

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